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Kevin Hart em cena de "Paternidade"
Kevin Hart em cena de “Paternidade”, filme disponível na Netflix.| Foto: Divulgação/Netflix

“Começa em casa. Começa com a maneira como você cria seus filhos. Se um jovem não tem uma figura paterna em casa, ele vai encontrá-la nas ruas. Então, você sabe que não posso culpar o sistema. É uma pena que tornemos o trabalho tão fácil para ele. (Denzel Washington)

Kevin Hart, ao que parece, é uma espécie de good vibes de Hollywood – ainda que tenha sido tragado, em 2018, por uma acusação absolutamente estúpida de homofobia, após desenterrarem tuítes de mais de uma década atrás para tentar cancelá-lo. Parece ser uma figura sensível, sincera e carismática de que todo mundo gosta. E tem uma vantagem: consegue transformar seus reveses (como a traição a sua segunda esposa, Eniko Parrish) em sucessos, como demonstra na excelente série documental e autobiográfica Don’t f**k this up, disponível na Netflix. É um workaholic e alguém que, como ele mesmo diz, quer ficar bilionário porque sabe como é ser pobre; por isso, trabalha muito, investe em vários projetos ao mesmo tempo e tenta se manter, sempre, ultrafocado.

Hart, de quem já falei aqui, nesta Gazeta do Povo, por seu interessantíssimo documentário Kevin Hart’s Guide to Black History, retornou à Netflix com um filme – que estreou no último fim de semana – muito interessante para falar de um tema muito importante: Paternidade. Pois é, esse é o nome do filme e esse é o tema, que ganha muita relevância quando traz à tona a história de um pai que, ao perder a esposa, mergulha no amor, no cuidado e no esforço para criar a filha sozinho. Mais do que isso, o filme é baseado em fatos reais, retirados do livro Dois beijos para Maddy: Uma história real de amor e perda, de Matthew Logelin, curiosamente, um homem branco – o que, a meu ver, torna a substituição por Hart, um homem negro, icônica e importantíssima. Explico.

“Não se trata de drogas, não é sobre ir para a cadeia ou simplesmente sair dela, ou ser um caloteiro. Este é um filme que mostra um pai negro sob uma luz positiva.”

Kevin Hart, em entrevista sobre seu filme Paternidade.

Já tratei, mais de uma vez, nesta coluna, do espinhoso problema ocasionado pelo altíssimo índice de crianças negras criadas sem o pai em casa nos EUA – base, inclusive, do sermão cortante do reverendo Jasper Williams Jr. no funeral da diva Aretha Franklin, no qual “comparou o abandono de crianças pelos pais a uma espécie de ʻaborto após o nascimentoʼ”. Mas o fato é que o filme inverte, sabiamente, essa realidade. Ou seja, Hart é um pai negro superpresente e um profissional de TI respeitado, que, contra todas as expectativas (“ele não vai conseguir”, diz seu melhor amigo à sua sogra), luta para criar a filha sozinho na ausência da mãe, e, com isso, nos apresenta uma visão positiva, num filme simples, mas muito tocante, que substitui o estereótipo geralmente demonstrado nos filmes de Hollywood, nos quais pais negros vivem saindo da (ou entrando na) prisão, ou são viciados, problemáticos e, em suma, ausentes. Hart afirma, numa entrevista: “Tem se colado uma imagem estereotipada do que um pai negro é, especialmente quando se fala em cinema. Não se trata de drogas, não é sobre ir para a cadeia ou simplesmente sair dela, ou ser um caloteiro. Este é um filme que mostra um pai negro sob uma luz positiva”. Por isso também o filme vem sendo celebrado por lá.

E, para a celebração ficar ainda mais interessante, no fim de semana de lançamento do filme, Kevin Hart foi convidado para participar do Red Table Talk, de Jada Pinkett Smith, na versão Takeover (disponível gratuitamente no Facebook) apresentada por seu marido Will Smith, para falar justamente sobre paternidade. O programa é uma espécie de “abrir o jogo”, em que os convidados são instados a falar abertamente sobre sua vida, seus problemas e dificuldades. E foi muito interessante, pois os dois puderam testemunhar a respeito não só de suas experiências como filhos (Hart teve um pai ausente e envolvido com drogas; Smith, um pai violento), mas também como pais – e pais de meninas, como o personagem do filme.

A primeira pergunta que Smith faz a Hart – “quais os valores que você tentou construir como um bom pai?” – é reveladora, pois ele responde: “ser diferente do meu, pois eu tive um mau pai”; e a conversa segue muito interessante, com os dois compartilhando as imensas dificuldades de ser um pai presente e colaborativo sem ser opressor e arrogante, bem como do prazer de participar prazerosamente da vida dos filhos. A grande questão, para os dois, é como não deixar a mentalidade empreendedora (de CEO), vocação importantíssima para suas carreiras, influenciar na criação dos filhos, pois os filhos não são empresas, são seres humanos, falhos como nós fomos quando tínhamos sua idade. Outro drama que eles partilham é o de como valorizar o que os filhos estão sentindo, e não tentar impor a eles um padrão que está em nossa cabeça. Smith diz: “um coisa que aprendi [nessa transição de uma mente controladora para uma mentalidade, digamos, colaborativa] é: não importa o que estou sentindo [...]; tenho aprendido a me importar mais com o que as pessoas [sobretudo os filhos] estão sentindo”.

Uma conversa franca, de pouco mais de 40 minutos, em que dois pais tentam compreender como criar os filhos no século 21. Smith, a certa altura, quando falavam em como instruir os filhos (que, pela excelente estrutura que têm, não precisam passar pelas agruras que os pais passaram), diz: “procuro fazer como minha avó sempre dizia: “faça o seu melhor e ʻlet go and let Godʼ”[algo como “deixe-os ir e deixe-os com Deus”]. Enfim, um bate-papo sensacional, que serve como um ótimo complemento para o filme.

Há, obviamente, uma narrativa que procura relativizar a realidade dos filhos de pais separados (e ausentes) e minimizar o problema para tentar não só deslegitimar o casamento tradicional e sua importância, como também celebrar os diferentes tipos de configurações familiares que aumentam a cada dia. Mas creio que essa discussão está deslocada, pois há um importante paradoxo do qual não se pode tergiversar nesse debate: os problemas e desafios intrínsecos do casamento tradicional têm provocado o aumento de novas configurações familiares, ou as novas configurações familiares aumentaram por causa da desvalorização intencional do casamento tradicional realizada, sobretudo, pelas militâncias de esquerda, que veem no casamento tradicional (que o marxismo chama de família burguesa e cuja destruição proclama) o sustentáculo da opressão capitalista?

Muitos também argumentam que não adianta o casamento ser tradicional e eivado de violências e traições, o que é verdade. E que a valorização do casamento tradicional deslegitima as demais configurações familiares, o que, de certo modo, também é verdade. Entretanto, problema maior é deslegitimar o tipo de relacionamento que é necessariamente óbvio em termos de procriação e perpetuação da vida. Temos de ser francos nesse ponto.

Pesquisa feita em 2016 no Brasil mostrou que dois em cada três menores que cometem crimes não têm o pai em casa; apenas 34% convivem com o pai na mesma residência

Para nós, brasileiros, a realidade que preocupa Hart e Smith pode parecer distante; afinal de contas, não temos estatísticas robustas sobre a falta de pais nos lares negros. Mas uma pesquisa, publicada pela Folha de S.Paulo em 2016, revela algo preocupante: dois em cada três menores que cometem crimes não têm o pai em casa; apenas 34% convivem com o pai na mesma residência. E mais: 37% dos entrevistados têm parentes com antecedentes criminais. Isso não significa, obviamente, que mães solteiras não possam criar bem os seus filhos: a realidade nos prova não só que podem como fazem. No entanto, preterir da importância do pai – o rapper Tupac atribuiu à falta do pai seu envolvimento com gangues – também não é uma boa saída. Conheço bem essa realidade, pois a vejo em minha própria família, em suas várias facetas.

Por isso, juntamente com Kevin Hart e seu belo filme, e luminares como Thomas Sowell, Walter Williams, Larry Elder, Denzel Washington, Will Smith e tantos outros pais negros que, preocupados com esse drama, tentam contribuir com esse processo de conscientização, afirmo – não para discriminar negros e brancos, mas para evidenciar a particularidade desse problema, provocado por muitos fatores – que pais negros importam.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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