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Enviado por Marcio Antonio Campos, 24/07/14 6:01:41 PM

A reportagem da minha colega Carolina Pompeo publicada semana passada na Gazeta do Povo, sobre os 5 mil embriões doados para pesquisas no Brasil, me fez lembrar de uma outra notícia, muito melhor, que certamente não teve nem parte da repercussão que teve o relatório da Anvisa: o enorme sucesso que um hospital do Vaticano obteve em uma pesquisa usando células-tronco adultas. Saiu, claro, na Rádio Vaticana, e também no La Repubblica, mas por aqui só mesmo sites e blogs católicos, como o Aleteia, deram a notícia, que passou ignorada pela grande imprensa.

Enquanto seguem criticando a Igreja por sua oposição à pesquisa com embriões, ela segue incentivando descobertas com o uso de células-tronco adultas. (Foto: Priscila Forone/Gazeta do Povo)

Enquanto seguem criticando a Igreja por sua oposição à pesquisa com embriões, ela segue incentivando descobertas com o uso de células-tronco adultas. (Foto: Priscila Forone/Arquivo Gazeta do Povo)

Em resumo, pesquisadores do Hospital Pediátrico Bambino Gesù estudaram a possibilidade de transplante de células-tronco adultas em crianças com doenças genéticas, tumores no sangue e problemas de imunodeficiência. A notícia é especialmente animadora para os portadores de leucemia, em que é amplamente conhecida a dificuldade de se encontrar doadores compatíveis para um transplante de medula óssea. Os pesquisadores do Bambino Gesù descobriram que é possível manipular e transplantar células-tronco adultas, retiradas dos pais do paciente, mesmo que eles não tenham a compatibilidade genética “clássica” exigida para o transplante de medula. No caso de doenças raras do sangue, a técnica foi experimentada em 23 crianças, com um índice de sucesso de 90%. Os pesquisadores também aplicaram a técnica em mais de 70 crianças com leucemia aguda, com sucesso de 80%. Os resultados foram, primeiro, apresentados em dezembro do ano passado em um congresso nos Estados Unidos, e posteriormente publicados na edição de 28 de maio da revista Blood, da Sociedade Americana de Hematologia.

Pois é, enquanto a Igreja levava (e ainda leva) pedras por se opor à pesquisa com embriões, suas instituições estão trabalhando em alternativas eticamente aceitáveis para evitar a destruição de seres humanos em laboratório. Já falamos aqui da parceria entre o Vaticano e um grande laboratório para promover a pesquisa com células-tronco adultas, e agora surge esse resultado espetacular do Bambino Gesù. E entre os críticos da Igreja podemos colocar a geneticista Mayana Zatz; em 2006, no programa Roda Viva, ela culpou o Vaticano pela não aprovação, na Itália, de uma lei que permitisse a pesquisa com embriões. E reparem nas alfinetadas que ela dá nessa entrevista de 2010 ao jornal O Globo. Aliás, no melhor estilo “esqueçam o que eu escrevi”, na entrevista ela celebra a pesquisa com células iPS, a mesmíssima pesquisa da qual ela fez pouco em seu blog em 2008 para argumentar que era preciso investir no uso de embriões. E, por fim, na matéria que a Gazeta publicou anteontem, está lá a Mayana dizendo à Agência Estado “Não trabalho com células embrionárias. Já me ofereceram embriões várias vezes, mas no momento não estou fazendo nada com elas”. Isso sem que tenhamos visto um mea culpa ou qualquer coisa do tipo. Claro, muito melhor que ela esteja hoje fazendo pesquisas com células-tronco adultas em vez de usar embriões. Mas fica óbvio que, nessa história toda, é a Igreja que merece reconhecimento pela sua coerência.

infográfico com pesquisa de celulas tronco em hospital do vaticano

O Bambino Gesù mostra, em uma infografia, como é a técnica de transplante de células-tronco adultas. Infelizmente só há versão em italiano.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 30/06/14 2:00:19 PM

O blog volta hoje de um recesso que combinou as férias do blogueiro e a loucura da Copa do Mundo em Curitiba. E retomamos de onde paramos: o evento de ciência e fé organizado pela comunidade evangélica Sara Nossa Terra, que ocorreu em São Paulo de 1.º a 3 de maio, bem no início das minhas férias. Foi uma grande oportunidade de reunir gente muito boa, dos mais diversos campos, e sou grato ao bispo Robson Rodovalho por ter me convidado para colaborar com a organização do evento, inclusive sugerindo vários dos nomes que estiveram presentes dando palestras. No fim, acabei atuando também como um mestre de cerimônias um tanto desengonçado, o que me deu oportunidade de interagir ainda mais com os palestrantes.

Palestra de Karl Giberson no evento de ciência e fé em São Paulo

Karl Giberson, em sua primeira visita ao Brasil, foi um dos convidados internacionais para o evento de ciência e fé organizado pela comunidade evangélica Sara Nossa Terra. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

O público presente ao auditório Elis Regina, no Anhembi, era majoritariamente de membros da Sara Nossa Terra, sem falar nos grupos de vários cantos do país que acompanharam o evento pela transmissão on-line, mas os preletores eram das mais diferentes confissões religiosas. Infelizmente não pudemos contar com o padre Lucio Florio, que precisou ficar em Buenos Aires por questões pessoais; também não foi possível assistir à palestra do professor Allan Chapman, da Universidade de Oxford: o vídeo que ele enviaria era grande demais e não foi possível baixá-lo a tempo para ser exibido no evento. Essa foi uma das pequenas lições práticas que aprendemos quando se organiza pela primeira vez algo tão grande.

O primeiro dia foi dedicado mais a uma introdução da relação entre ciência e fé, com palestras dos professores Antonio Delson e Francisco Borba. Pelo que pude sentir, a audiência ficou especialmente encantada com a palestra de Borba, que falou muito sobre sabedoria e ciência, mostrando como o conhecimento científico se relaciona (ou, às vezes, não se relaciona) com contextos mais amplos de compreensão do mundo. Já o professor Delson tratou de mostrar que o cristão não tem motivos para temer a ciência. Ele, como membro da Sara Nossa Terra, conhecia seu público melhor que todos os outros palestrantes, e achei que sua introdução veio bem a calhar. Apesar de essa comunidade evangélica ter um líder que foi professor universitário de Física, e que já escreveu sobre ciência e fé, pude perceber, ao longo do evento, que ainda existe uma certa desconfiança de fundo em relação à ciência, especialmente analisando várias das perguntas que foram feitas a todos os palestrantes.

Foi a partir do segundo dia que entramos nos temas específicos. Cícero Urban, professor da PUCPR e da Universidade Positivo, capturou a atenção da audiência trazendo diversos estudos de caso que envolvem decisões bioéticas. Mostrou as últimas novidades das pesquisas com células-tronco, tratou de situações como aborto, pesquisas com embriões, temas que estão circulando por aí e sobre os quais nem sempre as pessoas têm a melhor informação para formar sua opinião.

Mas, acho eu — e creio que a maioria do público também achou –, os grandes nomes do evento foram Gerald Schroder e Karl Giberson. Os leitores do blog já conhecem Giberson, um dos principais defensores da conciliação entre o Cristianismo e a teoria da evolução entre os evangélicos norte-americanos. Giberson foi por muito tempo ligado à Fundação BioLogos, que chegou a presidir por algum tempo, e trouxe para o público evangélico brasileiro um alerta, mostrando aos participantes do evento como o criacionismo de Terra jovem havia ganho espaço nos Estados Unidos. Ele apresentou diversas evidências em favor da evolução e mostrou como um cristão pode aceitar a teoria de Darwin sem problema algum.

Palestra do Gerald Schroder no evento de ciência e fé em São Paulo

Gerald Schröder chamou a atenção do público com seu modelo que concilia a noção de seis dias literais da criação com um universo de 13 bilhões de anos. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Schröder, um astrofísico judeu ortodoxo com jeitão de avô simpático, conquistou o público tratando de questões relacionadas ao início do universo, ao Big Bang e aos “seis dias” da criação. Mesmo com minhas anotações, eu realmente gostaria de ver mais uma vez suas palestras (tanto ele quanto Giberson falaram no evento mais de uma vez) e ler seu livro Genesis and the Big Bang para ter certeza de que entendi bem o que ele propõe: que os seis dias da criação são, sim, literais, no sentido de seis períodos de 24 horas, mas que também se desenrolaram no período de 13 bilhões de anos que entendemos hoje como a idade do universo. Se eu realmente entendi direito (é preciso fazer essa ressalva), Schröder afirma que, nos primórdios do universo, o tempo passava muito mais devagar e foi “acelerando” à medida que o universo ia desacelerando e se resfriando. Assim, na verdade o universo tem 13 bilhões de anos “dos nossos”, ou seja, na “velocidade” com que o tempo passa hoje, mas um observador que estivesse lá no início perceberia o tempo de outra forma.

Um momento especialmente incrível foi a mesa-redonda em que Giberson e Schröder puderam discutir alguns desses pontos. Schröder, por exemplo, fez algumas críticas à evolução, enquanto Giberson discordou da noção de que a Bíblia contivesse alguns “códigos escondidos” que só seriam acessíveis ao homem moderno, à medida que a ciência avançasse. Todo o evento foi registrado em vídeo, mas até onde eu sei as imagens ainda não estão disponíveis (até porque, se não me engano, é preciso legendar todas as palestras de Giberson e Schröder, que falaram em inglês). O vídeo de Allan Chapman, que não foi exibido no evento, também estaria disponível. Tanto Giberson quanto Schröder deram entrevistas ao Tubo de Ensaio. Em breve elas serão publicadas aqui.

Rodovalho já deixou meio subentendido que esse foi apenas o primeiro evento do gênero; haverá outros, e inclusive já há negociações para futuras edições. Minha opinião é de que, daqui em diante, será preciso escolher um rumo, que influenciará inclusive a definição dos palestrantes e do público-alvo. Uma opção é direcionar os eventos ao público acadêmico, para promover um debate frutífero e profundo sobre a relação entre ciência e fé. Nesse caso, a divulgação teria de ser feita prioritariamente no meio universitário, e não tanto nas igrejas (embora essas não devessem ficar de fora do público-alvo), e considerar que parte do público seria formado por pessoas não religiosas, ou mesmo hostis à religião, e saber lidar com isso. Os palestrantes também poderiam incluir pessoas não religiosas.

Outra opção é direcionar o evento de vez ao público evangélico/cristão/religioso, para mostrar com muita ênfase que o cristão, ou a pessoa de fé, não tem por que temer a ciência, mostrando como conciliar as descobertas científicas com as escrituras sagradas, derrubar mitos, evitar polêmicas desnecessárias, prevenir o avanço da pseudociência (como o criacionismo de Terra jovem) entre os cristãos. Nesse caso, claro que a prioridade é divulgar o evento nas igrejas, e trazer palestrantes que combinem profundo conhecimento científico e a “fé sólida e adulta” de que costumava falar o papa Bento XVI. Em um evento desse tipo teriam lugar inclusive testemunhos como o que o professor Delson deu durante sua palestra.

Esses são dois caminhos bem distintos e igualmente nobres, e que poderiam inclusive nortear eventos diferentes, por exemplo em um ano buscando mais o público religioso, e em outro o público acadêmico. Só acho que seria mais complicado misturar os dois objetivos em um único evento. Mas é uma decisão que não cabe a mim, e sim aos organizadores, que certamente saberão o que fazer.

E logo teremos mais!

A turma do Instituto Faraday já está com passagem marcada para o Brasil. Em outubro, teremos pelo menos um curso de quatro dias. Pelo que apurei até o momento, infelizmente motivos de calendário impediram que houvesse um curso em Curitiba, mas não está descartada pelo menos uma conferência em nossa cidade.

Aviso: O Instituto Faraday, mencionado neste post, concedeu uma bolsa para o blogueiro fazer um curso sobre ciência e religião em Cambridge em julho de 2011.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/04/14 8:19:52 PM

Quando saiu a edição 2014 da lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time, a maioria prestou atenção aos grandes líderes mundiais, aos esportistas e artistas — e também a quem não estava lá, como a presidente Dilma. Mas uma série de outras personalidades menos conhecidas também mereceu fazer parte da lista. É o caso de Katharine Hayhoe.

Don Cheadle, Katharine Hayhoe e Andrew Farley.

Katharine Hayhoe com o marido, Andrew Farley (à direita), e o ator Don Cheadle (à esquerda): conscientização ambiental para os que têm fé. (Foto: Divulgação/Years of Living Dangerously)

O ator Don Cheadle, que escreveu o texto que aparece na Time, lembra que a climatologista é uma voz importante na conscientização sobre o aquecimento global. Ela e o marido, o pastor Andrew Farley, escreveram o livro A Climate for Change: Global Warming Facts for Faith-Based Decisions e participaram da série televisiva Years of living dangerously, que está sendo exibida nos Estados Unidos, tem produção de James Cameron, entre outros pesos-pesados do cinema, e também contou com a participação de Cheadle. O ator descreve Katharine como alguém que desafia estereótipos. Não diz ao certo qual é o estereótipo, se o de que não é possível ser religioso e abraçar a ciência, ou o de que não é possível ser um cristão evangélico nos Estados Unidos e aceitar os dados sobre as mudanças climáticas. Não importa. Importa é que seu trabalho e seu exemplo ajudem muitos outros evangélicos a abandonar o ceticismo que demonstram em relação à ciência, e que foi tema do post anterior aqui no blog.

Obrigado pelos votos!

Não foi dessa vez que o Tubo de Ensaio chegou ao tricampeonato no prêmio Top Blog. Ficamos em terceiro lugar na categoria “Religião/blogs profissionais/voto popular”. Agradeço a todos os que votaram e também à equipe do ótimo blog O Catequista, que topou representar o Tubo na premiação, ocorrida em São Paulo na sexta-feira passada. Eles ainda levaram o troféu, merecido, na categoria “Religião/blogs pessoais/voto popular”. Parabéns!

Conferência de ciência e religião em São Paulo

Ainda estão abertas as inscrições para uma conferência de ciência e fé que ocorrerá em São Paulo no feriadão de 1.º de maio. Este blogueiro estará presente, moderando mesas-redondas com a participação dos palestrantes. Infelizmente tivemos o desfalque do padre Lucio Florio, mas temos vários outros conferencistas de muita qualidade!

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 25/04/14 4:10:58 PM

Dado muito, muito preocupante levantado por uma pesquisa Associated Press-GfK. Aquele ceticismo em relação à evolução e ao aquecimento global está afetando também o Big Bang, que se julgava muito menos controverso que aqueles outros dois temas. A pesquisa apresentou diversas afirmações tidas como verdadeiras pela ciência, e encontrou-se um padrão: as pessoas demonstram mais certeza sobre aquilo que está próximo de nós. Poucos duvidam da relação entre cigarro e câncer (4%), ou de que temos um código genético que determina nossas características físicas (8%). Mas a coisa muda de figura diante de afirmações como as de que a Terra tem 4,5 bilhões de anos ou de que a temperatura do planeta está subindo: o ceticismo chega a 40%. Mas ainda assim é menor que as dúvidas sobre o Big Bang: 51% questionam a teoria.

Terra vista do espaço

Cerca de 40% dos entrevistados pela AP/GfK disseram duvidar de que a Terra tenha mesmo 4,5 bilhões de anos. (Foto: Divulgação/Nasa)

Existem outros padrões, também. Simpatizantes ou filiados ao Partido Democrata se mostraram mais propensos a aceitar as afirmações sobre aquecimento global, evolução, a idade da Terra o Big Bang que os republicanos. E a pesquisa ainda descobriu que, quando mais forte a crença em um ser superior, maior o grau de questionamento em relação a essas teorias. É um dado lamentável, e que revela uma falha grave na tentativa de comunicar a compatibilidade entre a fé religiosa e as descobertas da ciência. Ou estamos nos comunicando mal, ou as pessoas não estão tendo a capacidade de entender o que estamos dizendo. Ou existe algum ruído no meio: basta ver como a Associated Press deu mais espaço a cientistas que defendem o paradigma do conflito entre ciência e religião que aos que defendem o paradigma da harmonia (também considero uma falha os repórteres não terem mencionado que o pioneiro da teoria do Big Bang foi um padre católico, o belga Georges Lemaître). Isso acaba reforçando o antagonismo. O que me veio imediatamente à cabeça foi o livro Unscientific America, que resenhei no blog e na revista Dicta&Contradicta.

É uma pena. Uma sociedade que começa a duvidar das descobertas da ciência não tem um futuro muito brilhante pela frente. Isso aumenta a responsabilidade dos líderes religiosos, além daqueles cientistas que não deixam ideologias antirreligiosas contaminarem seu trabalho. Como conquistar essas pessoas para a ciência mostrando que não precisam abandonar sua fé?

Conferência de ciência e religião em São Paulo

Ainda estão abertas as inscrições para uma conferência de ciência e fé que ocorrerá em São Paulo no feriadão de 1.º de maio. Este blogueiro estará presente, moderando mesas-redondas com a participação dos palestrantes. Infelizmente tivemos o desfalque do padre Lucio Florio, mas temos vários outros conferencistas de muita qualidade!

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 16/04/14 4:47:40 PM

Eu tive algumas oportunidades de ver o papa João Paulo II. A primeira, em 1997, quando cobri sua visita ao Rio de Janeiro para a revista que fazíamos no curso de Jornalismo. Depois, em 1998, fui com amigos a Roma para a Semana Santa; em 2002, voltei a Roma, em outubro, para uma canonização. E também já visitei seu túmulo, no subsolo da Basílica de São Pedro, em março de 2006. Foi um pontífice extraordinário, e que também fez questão de deixar claro que ciência e fé podem andar juntas. É dele a declaração mais forte de um líder católico a respeito da compatibilidade entre a fé e a teoria da evolução, como bem sabemos.

João Paulo II será canonizado no fim de abril. Livro conta a história do milagre que levou à beatificação. (Foto: Max Rossi/Reuters)

João Paulo II será canonizado no fim de abril. Livro conta a história do milagre que levou à beatificação. (Foto: Max Rossi/Reuters)

Daqui a alguns dias o papa Francisco canonizará João Paulo II (e João XXIII, de quem também não podemos nos esquecer). Nove anos se passaram depois daquele “Santo Subito” na Praça de São Pedro, durante os funerais do papa polonês. Um passo intermediário rumo à canonização foi dado em maio de 2011, quando Bento XVI beatificou João Paulo II. O jornalista italiano Saverio Gaeta contou a história do milagre que abriu caminho para essa beatificação no livro O milagre do papa (editora Prumo, 2011, 103 páginas), que apresento hoje aos leitores do Tubo.

O livro é estruturado num crescendo. Primeiro, narra o impacto que a vida (e a morte) de João Paulo II teve sobre várias pessoas, de diversas nacionalidades, católicas e não católicas. Depois, passa a relatar algumas graças recebidas e atribuídas à intercessão do pontífice: uma gravidez complicada, um emprego conquistado… a seguir, narra brevemente alguns relatos que realmente poderiam ser considerados milagrosos: o caso de uma criança no Chile que sofria de enterocolite necrotizante e já tivera a maior parte do intestino retirado cirurgicamente, a ponto de só poder se alimentar por via introvenosa, mas que subitamente recuperou parte do órgão; curas repentinas de câncer e lesões vertebrais, um bebê que se manteve vivo no útero da mãe por semanas, apesar da perda do líquido amniótico, que depois voltou a se formar; enfim, casos extraordinários, mas nos quais os responsáveis pela causa de beatificação de João Paulo II não reuniram todos os elementos necessários para atestar o milagre e a intercessão do papa.

O caso da freira francesa Marie Simon Pierre, no entanto, foi diferente, cumprindo todos os requisitos para que fosse a cura que o Vaticano aceitou como milagrosa para a beatificação de João Paulo II. A religiosa sofria do Mal de Parkinson, diagnosticado em 2001, mas a doença e todos os seus sinais desapareceram subitamente em 2 de junho de 2005, dois meses depois do falecimento de João Paulo II. No dia seguinte, ela interrompeu o tratamento, e no dia 17 de junho seu neurologista atestou que não havia nenhum sinal da doença.

A irmã Maria Simon Pierre, em entrevista realizada hoje, na França: cura instantânea do Mal de Parkinson, em 2005, foi atribuída à intercessão de João Paulo II e levou à beatificação do papa, em 2011. (Foto: Jean-Paul Pellissier/Reuters)

A irmã Marie Simon Pierre, em entrevista realizada hoje, na França: cura instantânea do Mal de Parkinson, em 2005, foi atribuída à intercessão de João Paulo II e levou à beatificação do papa, em 2011. (Foto: Jean-Paul Pellissier/Reuters)

Gaeta narra brevemente a vida da religiosa, formada em Enfermagem e dedicada aos recém-nascidos do setor de Neonatologia de um hospital na França, desde a infância até o surgimento da doença, cujos primeiros sinais datavam de 1998, quando a freira tinha 37 anos. Ela atribuía os primeiros tremores ao cansaço e à sobrecarga de trabalho, mas seu estado foi se deteriorando, apesar do diagnóstico e do tratamento, que chegou a incluir 25 comprimidos diários.

Seis dias depois da morte de João Paulo II, duas freiras que viviam com a irmã Marie Simon compõem uma oração ao papa pedindo a cura da religiosa, e passam a rezá-la; a congregação inteira, depois, se juntará ao esforço. Mesmo assim, a doença progride a ponto de uma freira encontrar Marie Simon desmaiada sobre sua escrivaninha. Era o dia 1.º de junho. Na noite daquele dia e na madrugada do dia 2, a freira percebe que consegue escrever com caligrafia clara; ela se movimenta e consegue trabalhar sem esforço.

capa do livro O Milagre do Papa, do jornalista Saverio Gaeta

O jornalista Saverio Gaeta contra no livro, além do milagre aprovado pela Igreja, outros casos de graças e curas atribuídas à intercessão do papa. (Foto: Divulgação)

A investigação médica começou em março de 2006. Foram quatro anos até que os especialistas declarassem que se tratava de uma cura inexplicável. Foram analisadas todas as hipóteses, inclusive a de que Marie Simon não sofria de Parkinson (o raciocínio era: “o Parkinson é incurável; a freira ficou curada; portanto, não sofria de Parkinson, mas de alguma outra coisa”). O exame rigoroso não encontrou nada que indicasse que a doença da religiosa era algo diferente de Parkinson, e nenhuma hipótese científica explicou como, de um instante para o outro, a doença havia simplesmente desaparecido.

O milagre é uma dessas fronteiras entre a ciência e a religião, e suas características tornam difícil, às vezes, aceitar a hipótese de uma intervenção que supera as leis da natureza. Por isso é especialmente interessante a entrevista que Gaeta faz com o cardeal português José Saraiva Martins, que comandou a Congregação para as Causas dos Santos entre 1998 e 2008, e que fecha o livro. Boa parte dela é uma reflexão teológica sobre o que faz de alguém um santo, e uma explicação do processo que culmina com a canonização, mas o cardeal também oferece informações sobre o exame científico dos casos que chegam à Congregação, como a existência de juntas médicas formadas por especialistas; quando Saraiva Martins deu a entrevista, o Vaticano contava com 70 médicos, muitos dos quais professores universitários.

É mais para o fim da entrevista que surge o tema dos milagres do ponto de vista científico, com distinções interessantes: há os milagres que superam as forças da natureza pelo fato em si (fatos que a natureza não pode realizar); os milagres que superam as forças da natureza não pelo fato, mas pelo sujeito em quem se opera o fato (a ressurreição de um morto, por exemplo); e, por último, o que supera as forças da natureza não pelo fato, nem pelo sujeito, mas pelo modo como se opera (é o caso das curas instantâneas). De qualquer maneira, uma cura, para ser considerada milagrosa, precisa obedecer a certos requisitos: deve ser inexplicável à luz da ciência médica; e deve ser instantânea, completa e duradoura. Se falhar minimamente em algum desses aspectos, o caso é descartado. É isso que os cientistas convocados pelo Vaticano atestam; não são eles que declaram haver milagre. Essa tarefa é dos teólogos, que examinam o parecer dos médicos e analisam o aspecto sobrenatural do fato: se foi ou não milagroso, e se pode ser atribuído à intercessão de alguém junto a Deus.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 07/04/14 5:57:24 PM

Finalmente consegui assistir ao debate entre Bill Nye e Ken Ham. Não achei uma versão legendada (assim como também não achei uma transcrição completa do debate — se os leitores encontrarem, é só avisar pelos comentários), então fico aqui com o vídeo “oficial”, no canal do Answers in Genesis no YouTube (o debate pra valer começa no minuto 13, podem pular direto pra lá):

O tema que norteou o debate era “a criação é um modelo viável para explicar as origens nessa era científica?”. Mais do que descrever o debate, porque melhor é que todos assistam, deixo a minha opinião a respeito do que Ham (cujo sotaque australiano me lembrou da única vez que eu conversei com uma pessoa em inglês sem entender quase nada do que ela dizia) e Nye disseram. Para começar, deixo bem claro que não tenho exatamente um lado nessa questão. Sem dúvida concordo com Ken Ham sobre a existência de um Deus criador, e sobre a autoridade da Bíblia como palavra de Deus. Mas rejeito completamente suas interpretações da Bíblia. E fico com Bill Nye sobre a superioridade da teoria da evolução como a melhor explicação para a diversidade da vida no planeta.

Em primeiro lugar, houve uma dose considerável de digressão. Considerando que foi um debate de duas horas e meia, quem sabe seja até aceitável. Não creio que estivesse em questão, por exemplo, o fato de uma pessoa poder ou não poder ser um bom cientista simplesmente por ser criacionista (se bem que, nessa época em que se discute se um gênio da tecnologia pode ou não pode comandar uma empresa de tecnologia por causa de suas opiniões sobre união homossexual, talvez a discussão não seja tão estúpida como parece. E efetivamente a imprensa às vezes coloca “criacionistas” contra “cientistas” como se fossem categorias excludentes entre si). Em outras ocasiões a discussão chegou a ser surreal, como o debate sobre as habilidades de Noé como construtor de navios, já que sua arca, a julgar pela descrição bíblica, só não seria maior que os grandes transatlânticos do século 20.

"Como é que eu vim parar nesse debate?" (Foto: Divulgação)

“Como é que eu vim parar nesse debate?” (Foto: Divulgação)

Ham fez uma série de observações sensatas: disse, por exemplo, que a evolução vem sendo “sequestrada” para promover o ateísmo (isso é algo com que inclusive evolucionistas religiosos, como Karl Giberson e Ken Miller, concordam); que o criacionista e o evolucionista partem das mesmas evidências (o DNA, as estrelas, os cânions etc.); que, por mais que haja uma controvérsia forte sobre criação e evolução, não é isso que determina o destino eterno das pessoas (ninguém irá para o inferno ou para o céu por ser criacionista, evolucionista, defensor do Design Inteligente ou o que for). O problema de Ham é a interpretação um tanto peculiar que ele faz da Escritura, considerando o Gênesis totalmente literal — por exemplo, ele nega a evolução com base no fato de ser impossível haver morte antes do pecado original, um tema de que já tratamos aqui no blog, quatro anos atrás.

Nye, por sua vez, gastou boa parte do tempo que teve à disposição tentando mostrar as evidências em favor da evolução. Mostrou que as “lacunas” estão sendo fechadas, falou de todas as evidências a respeito da idade do universo e da Terra, enfim, deu um banho de ciência. E citou Francis Collins (não pelo nome, se não me engano; Nye se referiu ao “diretor do NIH”) como prova de que muitas pessoas de fé abraçam as descobertas da ciência (incluindo a teoria da evolução) e de que muitos cientistas têm fé, uma conciliação que Ham não sabe fazer. O que me pergunto é se tudo o que Nye apresentou é realmente a estratégia mais adequada para se debater com um criacionista.

ken ham e bill nye em debate sobre criação e evolução

Ken Ham (à direita) e Bill Nye (à esquerda) discutiram civilizadamente por duas horas e meia, mas não chegaram a nenhum ponto de consenso. (Foto: screenshot do YouTube)

Quem se lembra da entrevista que William Lane Craig deu ao blog, em 2012, vai se recordar de suas palavras sobre a melhor maneira de desacreditar um criacionista: atacar não a sua ciência, mas suas crenças religiosas. E Ham levantou (involuntariamente, claro) várias vezes a bola para Nye cortar, mas o “Science Guy” não cortou. Várias vezes Ham deixou claro que defendia a leitura do Gênesis como 100% literal — ele inclusive deu uma aulinha, mais para o fim do debate, sobre o que é e o que não é literal na Bíblia, citando os conteúdos poéticos, proféticos e morais. Mas o Gênesis não é nem poesia, nem profecia, nem moral: é história, disse Ham, e por isso deve ser interpretado literalmente. Mas, se é assim, por que o relato do capítulo 1 tem o homem criado depois dos animais, e no capítulo 2 ele é criado antes? Por que o dia e a noite são criados antes do Sol e da Lua? Por que num relato o homem e a mulher são criados simultaneamente, e em outro a mulher é criada depois do homem? São contradições que mesmo cristãos do fim da Antiguidade, como Orígenes, identificaram, e que poderiam deixar Ham em maus lençóis, caso Nye as tivesse mencionado. Mas não mencionou.

Acho que todo o debate pode ser resumido em uma pergunta da plateia que aparece lá por 2h04 de filme, e que é algo como “o que faria você mudar de ideia?” Nye deixou claro, ali e em outras ocasiões durante o debate, que bastava uma evidência. “Se vocês acharem um exemplo que confirme o seu modelo, vocês mudarão o mundo”, havia dito ele anteriormente. Ham, por outro lado, se mostrou inflexível, apoiando-se no fato de a Bíblia ser a palavra de Deus; e, se ela é o que diz ser (voltaremos a isso depois), então o que está lá é verdadeiro em sua interpretação literal (daquilo que deve ser interpretado literalmente, claro). Eu, particularmente, acho que “se a Bíblia é verdadeira, então a Terra tem 6 mil anos” é um tremendo de um non sequitur. E uma coisa que passa batida muitas vezes é que a Bíblia propriamente dita não diz nem o que é inspirado e o que não é, e nem como se deve interpretar cada um de seus livros. É um fato ressaltado por católicos quando discutem com protestantes sobre o Sola Scriptura. Quem diz, por exemplo, que as cartas de São Paulo aos coríntios são inspiradas, mas o Pastor de Hermas não é? Essa resposta não está na Bíblia, mas na autoridade dos primeiros cristãos reunidos em concílios. O mesmo vale para a interpretação da Escritura. Ham ignora o sábio conselho do cardeal inquisidor São Roberto Belarmino, em sua (já citada aqui) carta a Antonio Foscarini, escrita durante o processo de Galileu: “Digo que se houvesse uma verdadeira demonstração de que o Sol está no centro do mundo e a Terra no terceiro céu, e que o Sol não circunda a terra, mas a Terra circunda o Sol, então seria preciso ir com muita consideração em explicar as Escrituras que parecem contrárias, e antes dizer que não as entendemos do que dizer que é falso o que se demonstra”.

E vocês, viram o debate? O que acharam dos argumentos apresentados?

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 02/04/14 4:03:18 PM

Eu não falei, outro dia, que o Brasil estava lentamente entrando na rota dos grandes eventos de ciência e fé? Os cursos do Instituto Faraday já estão vindo, as datas e cidades ainda não foram confirmadas (Curitiba está forte no páreo), mas quem gosta do tema já pode se programar para o feriadão de 1.º de maio, pois a comunidade evangélica Sara Nossa Terra está organizando uma conferência de peso.

Cícero Urban, especialista em Bioética e professor na PUCPR e na Universidade Positivo

O oncologista Cícero Urban, especialista em Bioética e professor na PUCPR e na Universidade Positivo, é um dos palestrantes do evento que ocorre em maio, em São Paulo. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

O evento Ciência e fé — podem andar juntas? vai reunir palestrantes brasileiros (inclusive curitibanos) e estrangeiros durante três dias para palestras sobre diversos temas que compõem a relação entre ciência e religião: bioética, astronomia, origem do universo, criação e evolução, história…

Karl Giberson, defensor da teoria da evolução e de sua compatibilidade com o Cristianismo

Karl Giberson, defensor da teoria da evolução e de sua compatibilidade com o Cristianismo, é um dos convidados internacionais da conferência. (Foto: Divulgação/HarperCollins)

Posso dizer com orgulho que tive uma parcela de participação nisso tudo. Ano passado, o bispo Robson Rodovalho, líder da Sara Nossa Terra, já tinha comentado comigo sobre seu desejo de realizar um grande congresso de ciência e fé em 2014, e pediu minha ajuda para selecionar bons nomes que pudessem dar palestras. Alguns dos preletores do evento de maio, portanto, estão lá por sugestão minha. E preciso elogiar a abertura de Rodovalho, que não fez absolutamente nenhuma objeção em relação a religião ou orientação filosófica dos palestrantes. Dou apenas um único exemplo: apesar de Rodovalho se inclinar um pouco pelo Design Inteligente, ele aceitou com entusiasmo a possibilidade de trazermos Karl Giberson, um dos principais defensores da teoria da evolução entre a comunidade evangélica norte-americana, para falar justamente sobre a compatibilidade entre o Cristianismo e a evolução. Destaco também as presenças do historiador britânico Allan Chapman, da Universidade de Oxford; do curitibano Cícero Urban, especialista em Bioética; e de Francisco Borba, do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-SP. Vocês podem ver no site a lista completa de palestrantes (meu nome está lá também, mas não darei palestras; eu vou apenas mediar mesas-redondas com os palestrantes ao fim dos dois primeiros dias da conferência).

Misticismo e saúde

A Universidade Rosa-Cruz Internacional vai realizar em Curitiba, entre sexta-feira e domingo, o seu segundo congresso, com o tema “Misticismo e saúde numa perspectiva transdisciplinar”. Copio a seguir um trecho da apresentação do evento:

A estrutura prevista para a realização das atividades enfoca a reflexão teórico-prática no campo onde se situam os Conhecimentos Tradicionais da nossa (rosa-cruz) e de outras Tradições, por meio de conferências ministradas por especialistas convidados que irão discorrer sobre a Parapsicologia e sua representante no meio científico, a Psicologia Anomalística; as Práticas Integrativas e Complementares e a Política a elas associadas como enfatiza a Organização Mundial de Saúde; e, é claro, proporcionar-se-á um aprofundamento sobre o Conhecimento Tradicional Rosacruz em Saúde.

diversas modalidades de inscrição: a mais básica, que dá direito a assistir às palestras do congresso, custa R$ 220.

Aviso: O Instituto Faraday, mencionado neste post, concedeu uma bolsa para o blogueiro fazer um curso sobre ciência e religião em Cambridge em julho de 2011.

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Prêmio Top Blog, novamente somos finalistas!
Obrigado a todos que votaram no Tubo nesta edição 2013 do Prêmio Top Blog! Somos novamente finalistas na categoria ”Religião/blogs profissionais” pelo voto popular, a mesma categoria que o blog venceu em 2010 e 2011. A cerimônia de premiação, em que finalmente saberemos se o Tubo vai conquistar o tricampeonato, ocorre em São Paulo, na noite de 25 de abril. Infelizmente será impossível eu estar presente, pois é uma sexta-feira, mas, de qualquer maneira, fica o meu agradecimento aos leitores que votaram e fizeram campanha pelo blog, pois são vocês que nos dão mais visibilidade!

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 21/03/14 5:31:08 PM
Dados do telescópio Bicep2 (à esquerda na foto) deram aos cientistas mais informação sobre os primeiros momentos do universo. (Foto: Steffen Richter/Harvard University/National Science Foundation)

Dados do telescópio Bicep2 (à esquerda na foto) deram aos cientistas mais informação sobre os primeiros momentos do universo. (Foto: Steffen Richter/Harvard University/National Science Foundation)

A notícia científica do mês (ainda é cedo pra dizer que é a notícia do ano, mas de cara é forte candidata) é o anúncio da descoberta de indícios fortíssimos de que realmente houve uma “inflação cósmica” nas primeiríssimas frações de segundo após o Big Bang. Para entender melhor a descoberta e sua repercussão, selecionei algumas reportagens da Folha, da Veja, da New Scientist e do Huffington Post britânico. A New Scientist, inclusive, montou um vídeo para explicar a descoberta usando uma toalha:

Claro que, com uma descoberta dessas, muitos querem saber que tipo de consequência isso pode ter sobre a fé das pessoas, e alguns já se pronunciaram a respeito do tema. Vejam, por exemplo, o caso de Nathan Aviezel, ou o de Hugh Ross e Leslie Wickman. Mas meu amigo Alexandre Zabot, astrônomo e professor da UFSC, não vê tanta razão para empolgação. “O Big Bang já estava mais do que confirmado. O que se descobriu agora foi muito importante para confirmar um ponto específico, que é a inflação cósmica. Mas o anúncio, em si, não acrescenta muita coisa à teoria, pois praticamente todos já davam o Big Bang por certo. Agora está mais certo ainda, e com uma certa ‘riqueza de detalhes’, por assim dizer. Eu particularmente não vejo razão para os religiosos darem pulos de alegria, porque só ficou mais confirmada uma coisa da qual já se tinha quase certeza: o universo teve um início”, diz Zabot, que é católico.

O problema que eu vejo está nessa associação íntima entre “início” e “criação”. Por um lado, por mais que Lawrence Krauss e Stephen Hawking tentem nos convencer do contrário, é impossível o universo ter surgido do nada sem um ato criador. Por outro lado, aprofundar nosso conhecimento sobre o início deste universo (digo “deste” porque, como sabemos, há teorias como o multiverso, ou de que pode haver um “Big Crunch”, uma contração do universo até o retorno ao ponto infinitamente minúsculo e denso, e o “nosso” Big Bang poderia ser o resultado de um Big Crunch anterior — mas isso são só teorias, deixemos bem claro) não necessariamente é a comprovação irrefutável da criação bíblica.

georges lemaitre

O padre Georges Lemaître, pai da teoria do Big Bang, teve de convencer o papa Pio XII a não usar a teoria como prova da existência de Deus. (Foto: Divulgação/Universidade Católica de Louvain)

Isso nos remete ao “pai” do Big Bang, o padre belga Georges Lemaître, indicado em 1936 para a Pontifícia Academia de Ciências pelo papa Pio XI. Seu sucessor, Pio XII, tinha um grande interesse por temas científicos, e ficou encantado com a teoria de Lemaître a ponto de ver nela uma comprovação da existência de Deus. Em novembro de 1951, Pio XII fez um discurso à Pontifícia Academia de Ciências (infelizmente só achei a versão em italiano) em que discorre longamente sobre descobertas recentes da ciência e sua relação com as provas filosóficas da existência de Deus.

“De fato, a verdadeira ciência (…) quanto mais avança, tanto mais descobre a Deus, quase como se Ele estivesse esperando atrás de cada porta que a ciência abre.”

O papa se baseou em dois pontos específicos: a mutabilidade, ou instabilidade, do universo; e a organização que o caracteriza. Especialmente esse segundo ponto alarmou Lemaître. No discurso, Pio XII listava uma série de fatos científicos sobre o universo e a Terra, e acrescentava:

“Se essas cifras podem nos deixar atônitos, por outro lado ao mais simples dos crentes elas não trazem um conceito novo e diferente daquele contido nas primeiras palavras do Gênesis, ‘no princípio’, ou seja, o início das coisas no tempo. A essas palavras, elas [as cifras sobre o universo] dão uma expressão concreta e quase matemática.”

E prosseguia:

“É inegável que uma mente iluminada e enriquecida pelas modernas descobertas científicas, e que avalie esse problema serenamente, é levada a romper o cerco de uma matéria de todo independente e autóctone — ou porque incriada, ou porque criada por si mesma — e a chegar a um Espírito criador. Com o mesmo olhar límpido e crítico com o qual examina e julga os fatos, entrevê e reconhece a obra da onipotência criadora, cuja força, agitada pelo potente fiat pronunciado milhões de anos atrás pelo Espírito criador, se espalhou pelo universo, chamando à existência com um gesto de amor generoso a matéria exuberante de energia. Realmente parece que a ciência moderna, olhando para milhões de séculos atrás, conseguiu se tornar testemunha daquele primordial Fiat lux, pelo qual do nada irrompe, com a matéria, um mar de luz e radiação, enquanto as partículas químicas dos elementos se separam e se reúnem em milhões de galáxias.”

Mais para o fim do discurso, arrematava, dizendo que a ciência confirmava,

“com a concretude própria das provas físicas, a contingência do universo e a fundamentada dedução sobre a época em que o cosmo saiu das mãos do Criador. A criação no tempo, então; e, portanto, um Criador: Deus! É essa a voz, ainda que não explícita e nem completa, que Nós pedíamos à ciência, e que a atual geração humana espera dela.”

Pio XII tinha muito interesse por temas científicos, mas precisou ser alertado para não avançar o sinal com o Big Bang. (Foto: CNS)

Pio XII tinha muito interesse por temas científicos, mas precisou ser alertado para não avançar o sinal com o Big Bang. (Foto: CNS)

Isso não soava nada bem para o padre Lemaître, que desejava ver suas teorias científicas apreciadas pelo mérito puramente científico, e não por possíveis implicações metafísicas. Quando soube que Pio XII faria um novo discurso, desta vez à União Astronômica Internacional, o padre belga aproveitou uma viagem à África do Sul para fazer uma parada em Roma e conversar com o padre O’Connell, assessor do papa para temas científicos. Lemaître queria dissuadir o papa de usar o Big Bang como prova da existência de Deus. Pelo jeito funcionou, porque Pio XII nunca mais tocou no assunto.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/03/14 2:56:03 PM
A PUCPR está na briga para sediar um curso do Instituto Faraday no segundo semestre deste ano. (Foto: Antônio More/Gazeta do Povo)

A PUCPR está na briga para sediar um curso do Instituto Faraday no segundo semestre deste ano. (Foto: Antônio More/Gazeta do Povo)

Está confirmado: depois de passar por México e Guatemala, o pessoal do Instituto Faraday para Ciência e Religião, da Universidade de Cambridge, está de viagem marcada para a América do Sul. A página de cursos da instituição já tem a data e o local de um curso na Argentina: 16 e 17 de outubro, na Universidade Austral (quem quiser fazer a dobradinha já pode ficar para o VIII Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião, que ocorre de 20 a 22 de outubro em Buenos Aires).

Mas o melhor é que o tour sul-americano inclui também o Brasil! A diretora de cursos do Faraday, Hilary Marlow, confirmou ao blogueiro que haverá pelo menos um evento no Brasil. Essa possibilidade já tinha sido levantada no ano passado, e vocês leram sobre isso aqui no blog, mas na época se falava em trazer os cursos para cá em 2015. Pelo jeito o pessoal em Cambridge decidiu que a hora era agora. Hilary me disse que eles ainda não fecharam o local, nem a data. Como eu tinha dito no ano passado, candidatos não faltam.

E a lista inclui Curitiba: no mês passado, o Instituto Ciência e Fé da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) enviou ao Faraday a proposta oficial com as linhas principais de um eventual curso na capital paranaense. Como aparentemente o Faraday ainda não definiu o número de cursos no Brasil, e já em outubro do ano passado eles falavam em mais de um curso, dada a extensão territorial do nosso país, vamos cruzar os dedos. Eu tive acesso ao projeto da PUCPR e está bem de acordo com o que Cambridge costuma pedir nessas ocasiões.

Aviso: O Instituto Faraday, mencionado neste post, concedeu uma bolsa para o blogueiro fazer um curso sobre ciência e religião em Cambridge em julho de 2011.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 14/03/14 11:30:14 AM
Neil DeGrasse Tyson apresenta "Cosmos"

Neil DeGrasse Tyson, um dos muitos cientistas que foram inspirados por Carl Sagan, apresenta a nova versão de “Cosmos”. (Foto: Divulgação/NatGeo/Fox)

Assisti ontem à estreia brasileira da versão repaginada de Cosmos, a série que fez um sucesso estrondoso nos anos 80, apresentada por Carl Sagan, e que ganhou um remake com a apresentação de um pupilo seu, Neil DeGrasse Tyson. Eu me lembro muito vagamente de a Globo ter exibido a série original, mas não lembro se cheguei a assistir alguma coisa naquela época. Visualmente, o novo programa é um espetáculo, graças a recursos que não existiam na época de Sagan. A série também parece ter sido “atualizada” (tenho a impressão de que as teorias de multiverso eram inexistentes ou pelo menos irrelevantes quando da série original). Em resumo, gostei muito e farei o possível para assistir aos novos episódios, que se não me engano irão ao ar sempre às quintas-feiras, às 22h30, no canal NatGeo (a estreia de ontem foi apresentada simultaneamente em diversos outros canais, como quase todos os da Fox).

Mas houve um sério escorregão no episódio de ontem. Um escorregão que consumiu quase um quarto do programa, e a essa altura o leitor do Tubo que viu Cosmos ontem já está imaginando que vou falar do segmento animado sobre Giordano Bruno. A própria escolha de Bruno como o personagem histórico que anima o episódio de estreia já é bem questionável, afinal o próprio Tyson diz, após a animação, que ele não era um cientista, mas um cara que “adivinhou certo”. Se é assim, por que não usaram um cientista de verdade? Copérnico, Galileu, Kepler, Brahe… todos meio contemporâneos de Bruno e muito mais relevantes para a ciência. Dei uma pesquisada e parece que na série original de Carl Sagan a figura histórica que ilustrava o primeiro episódio não era Bruno, mas Hipácia de Alexandria.

Giordano Bruno em animação de "cosmos"

Giordano Bruno é retratado em “Cosmos” como um sujeito doce que só queria convencer o mundo de que o universo era bem maior do que se imaginava, e foi queimado por isso. A realidade, no entanto, é bem diferente. (Imagem: Divulgação/NatGeo/Fox)

A história de Bruno, no entanto, é tentadora demais para deixar de fora de um negócio desses… o problema é que o Bruno da realidade pouco corresponde ao da lenda que agora tem versão animada. Aliás, falando em animação, um de seus trechos é inspirado numa edição de De Rerum Natura. Ouvimos, no programa, que Bruno tinha uma queda por livros proibidos, e o vemos retirando uma tábua do chão para pegar a obra de Lucrécio. Ele é descoberto enquanto lê e posto para fora do que parece ser uma casa dos dominicanos. O problema é que De Rerum Natura aparentemente nunca esteve no Index de livros proibidos da Inquisição. Aliás, a obra toda decorada que Bruno lê, e de onde saem os anjinhos que explicam a teoria do universo infinito, é uma edição de 1483 feita para… um papa, no caso Sixto IV. Mas antes fosse esse o principal problema.

O que ficamos sabendo de Giordano Bruno por meio do desenho animado é que ele saiu pregando a teoria heliocêntrica, acrescida da noção de que a Terra era apenas um de infinitos mundos (agora não lembro se o programa mencionava que esses mundos, segundo Bruno, também eram habitados por seres inteligentes), e por isso se encrencou muito, mas muito mesmo, não só com a Igreja Católica, mas também com as recém-criadas comunidades protestantes. O programa ainda descreve Bruno como um pioneiro dessa noção de “mundos infinitos”, omitindo que, antes dele, Nicolau de Cusa tinha tratado do tema — e passado ileso pela Inquisição. Vemos Bruno ser preso e mantido nos cárceres da Inquisição por oito anos. E, enfim, ele é condenado. Só então ouvimos o inquisidor, com aquela cara de mau em oposição ao cândido Bruno, condená-lo por uma série de acusações que são as verdadeiras: negar a doutrina católica sobre a natureza de Cristo (que, para Bruno, não era o Filho de Deus, mas um mágico muito bom), a Santíssima Trindade, a Eucaristia, a virgindade de Maria, o destino eterno das almas… sim, a condenação também mencionava a tese dos infinitos mundos, mas bem longe das razões principais que levaram Bruno à fogueira. Aliás, como explica Jole Shackelford, da Universidade de Minnesota, em seu ensaio sobre Bruno no livro Galileo goes to jail (que os produtores de Cosmos pelo jeito não leram), os inquisidores pareciam mais preocupados com a ideia de esses mundos serem habitados que pela noção propriamente dita de um universo infinito com muitos planetas.

Para retratar o sonho de Giordano Bruno, a animação se inspirou na famosa gravura por vezes atribuída a Camille Flammarion. (Imagem: Divulgação/NatGeo/Fox)

Para retratar o sonho de Giordano Bruno, a animação se inspirou na famosa gravura por vezes atribuída a Camille Flammarion. (Imagem: Divulgação/NatGeo/Fox)

Mas a essa altura já é tarde. O espectador passa a animação inteira vendo Bruno arrumar problemas por sua visão de um universo infinito com planetas infinitos; não é a breve leitura da sentença que vai apagar da cabeça da audiência a noção de causa e efeito entre “ideias de Bruno sobre Astronomia” e “condenação de Bruno pela Inquisição”. E quem não conhecia a história acaba sendo exposto à lenda de um Giordano Bruno mártir da ciência, quando a verdade estava bem distante.

 

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Prêmio Top Blog, obrigado pelos votos!
Tubo de Ensaio mais uma vez (pelo quarto ano seguido, para sermos mais exatos) ficou entre os 100 blogs mais votados na categoria “Religião/blogs profissionais” do prêmio Top Blog e a votação terminou em 10 de março. Queria agradecer aos leitores pelos votos e pela divulgação que vocês fizeram, tanto na primeira quanto na segunda fase. Em 2010 e 2011, o Tubo venceu a categoria “Religião/blogs profissionais” pelo voto popular, e no dia 20 de março saberemos se o blog estará entre os finalistas, seja pelo voto popular, seja pela avaliação do júri acadêmico.

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