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Tubo de Ensaio

Enviado por Marcio Antonio Campos, 08/04/15 10:24:30 AM

Apareceu hoje no meu feed de notícias do Facebook um gráfico interessantíssimo, compartilhado por um amigo; trata-se do que ficou conhecido como The evolutionary tree of religion (clique no link para ver em tamanho grande). É basicamente uma história das religiões, explicada graficamente para mostrar em que tempo surgiram e quais foram suas influências (em alguns trechos, pode soar meio simplista por ignorar esta ou aquela influência). Não é um trabalho recentíssimo, parece-me que é do meio do ano passado.

A visão de mundo cristã foi fundamental para o desenvolvimento do método científico. (Ilustração: Joel Mozart)

A visão de mundo cristã foi fundamental para o desenvolvimento do método científico. (Ilustração: Joel Mozart)

Andei buscando outras referências na internet sobre o gráfico e vi que o pau estava comendo solto a respeito dos mais diferentes aspectos desse trabalho, inclusive aquele que eu queria destacar aqui. Vejam ali na parte superior do ramo verde-claro. Vocês encontrarão o “Método Científico”. Muitos acharam estranho que ele (e a “Mecânica Quântica” também) estivesse em um mapa/gráfico que descreve as religiões do mundo. E houve duras críticas não só ao fato de o “Método Científico” aparecer, como também ao fato de ele estar descrito como derivado do Cristianismo (com influência também do Islã). A primeira objeção, vá lá, até faz sentido, porque para mim também soa muito peculiar a presença do “Método Científico” ali. Mas a segunda crítica só pode ser motivada por desconhecimento. Afinal, foi, sim, a visão de mundo cristã, sua convicção de Deus criou a natureza segundo leis que podiam ser verificadas e estudadas, que permitiu que o método científico pudesse emergir.

Alguns meses depois, o responsável pelo mapa lançou uma versão 2.0, bem mais completa no que se refere à diversidade de religiões no mundo (aparecem, por exemplo, as religiões afrobrasileiras, que não estavam no primeiro mapa), mas ainda com algumas imprecisões (o Catolicismo não surgiu em 1054; a Igreja Católica existe desde o século 1.º, o que ocorreu em 1054 foi a separação dos ortodoxos). O fato é que o “Método Científico” sumiu de lá. O autor, perguntado a respeito no Facebook, prometeu um mapa similar, mas desta vez sobre filosofia e ciência.

Galápagos

Não se esqueçam: vai até o dia 30 deste mês o prazo para integrantes da comunidade acadêmica enviarem sua inscrição para concorrer às bolsas que cobrirão viagem e hospedagem dos participantes de um workshop nas Ilhas Galápagos! Confiram aqui todas as informações.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 06/04/15 11:17:16 AM

Ontem os cristãos comemoraram a Páscoa, a ressurreição de Cristo. É a principal festa cristã, mais importante que o Natal, pois o centro da fé cristã, como afirma São Paulo numa de suas cartas, é a ressurreição. E, obviamente, é o evento que atrai mais ceticismo por parte daqueles que não acreditam. A hipótese de se descobrir o corpo de Jesus já foi explorada pela ficção (existe um filme com o Antonio Banderas no papel de um padre jesuíta que vai a Israel investigar uma ossada que tem todas as características relacionadas a Jesus), por “documentários” como O túmulo esquecido de Jesus, de Simcha Jacobovici e James Cameron (que o arqueólogo Jonathan Reed chamou de “archeoporn”) e por historiadores como Thomas de Wesselow, autor de O Sinal, um livro que, curiosamente, defende a autenticidade do Sudário de Turim negando a historicidade da ressurreição.

ressurreição de Cristo, de Rafael

“A Ressurreição de Cristo”, de Rafael: evento central do Cristianismo desafia os céticos. (Imagem: Reprodução)

Como a ressurreição é vista como um evento que desafia a racionalidade, muitos se perguntam como é que um cientista pode acreditar nesse tipo de coisa. Por isso, achei interessante ler no Christian Post um relato de uma mesa-redonda (eu não chamaria de “debate”, por não haver exatamente duas posições antagônicas) dentro de um evento realizado pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), que tem um departamento exclusivo dedicado ao “diálogo sobre ciência, ética e religião”.

O tema da ressurreição foi trazido por um rabino presente na audiência, que ainda citou uma ocasião em que ouviu um presbiteriano dizer que entendia a ressurreição de Cristo de forma metafórica, no que foi confirmado pelo pastor (de fato, há teólogos protestantes que vêm negando a ressurreição física de Jesus; o principal deles, que eu me lembre, é o luterano alemão Rudolf Bultmann). “A ressurreição é um evento anticientífico em que as leis da natureza são suspensas. Então, não deveria surpreender que historicamente haja tensão entre ciência e religião na comunidade cristã”, disse o rabino.

Os integrantes da mesa saíram-se bem na resposta. Walter Kim, de Boston, lembrou que a ressurreição não nega as leis da natureza; pelo contrário, ela as pressupõe, pois só se pode crer que elas possam ser suspensas em algum momento se antes há a convicção de que a natureza possui leis. “A constatação de um milagre depende de uma visão de mundo que pressupõe a regularidade e a exatidão científicas”, afirmou Kim. Para ele, a pergunta central que a ressurreição lança não é se um cientista pode crer nesse tipo de evento, mas se o mundo natural, e o seu conhecimento proporcionado pela ciência, são as únicas realidades existentes. “A resposta cristã é ‘não’. A ressurreição de Cristo indica que, embora a regularidade do universo seja algo para se estudar, não é a única coisa a se estudar”, completou Kim.

Um outro conferencista recomendou a leitura de uma palestra de Tom Wright, ex-bispo anglicano de Durham. Em 2007, ele foi a Cambridge e falou exatamente sobre a possibilidade de um cientista crer na ressurreição de Cristo. Também recomendo a leitura. Wright explora o que significa “crer”, pergunta se um cientista deve ter uma abordagem “científica” para tudo na vida e explora os questionamentos relativos a uma ressurreição material, física de Cristo. Wright examina a crença na ressurreição entre os judeus e a compara com a fé cristã, mostrando as mutações que levaram de uma a outra, e no fim dá sua opinião sobre como o historiador e o cientista podem se posicionar a respeito disso.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 25/03/15 5:47:05 PM

Bombou na blogosfera católica e nas mídias sociais o vídeo da visita do papa Francisco a Nápoles, no fim de semana passado. Tudo porque, em um encontro com o clero da cidade, o pontífice foi abençoar os presentes com a relíquia supostamente contendo o sangue de São Januário, bispo da cidade morto durante perseguições ao Cristianismo nos primeiros séculos da era cristã. E o sangue coagulado se liquefez. Confiram o vídeo do evento todo (se quiserem pular direto para o episódio em questão, ele começa com 1 hora e 5 minutos de vídeo):

O que há de peculiar no que ocorreu sábado é que o milagre tem “dias certos” para ocorrer: na festa litúrgica do santo, em 19 de setembro; em 16 de dezembro; e no sábado anterior ao primeiro domingo de maio. No entanto, não é a primeira vez que isso ocorre na presença de um papa fora desses dias específicos: há relatos sobre a liquefação ocorrendo em 1848, quando o papa Pio IX segurou o relicário.

O problema todo com esse milagre em particular é que a Arquidiocese de Nápoles se recusa a permitir testes com o conteúdo do relicário porque isso poderia causar danos irreparáveis. Então, tudo o que se pode fazer são análises sem contato com o material. Algumas delas detectaram a presença de hemoglobina, mas há quem afirme que é possível replicar o efeito com outras substâncias que imitam sangue ou que compartilham pelo menos alguns componentes que também estão presentes no sangue humano. Um desafio para os céticos, no entanto, é a “imprevisibilidade” do fenômeno: algumas vezes, a liquefação se produz quase que imediatamente; em outras, pode demorar horas ou mesmo dias; e, de vez em quando, simplesmente não acontece (o que os napolitanos veem como sinal de desastre iminente). Isso independe da temperatura ambiente e do modo de manipular o relicário. Tratei um pouco do assunto aqui no blog em 2008.

Francisco é o segundo papa em cujas mãos o suposto sangue de São Januário se liquefaz fora dos dias em que isso costuma acontecer. O primeiro foi Pio IX, no século 19. (Foto: Tony Gentile/Reuters)

Francisco é o segundo papa em cujas mãos o suposto sangue de São Januário se liquefaz fora dos dias em que isso costuma acontecer. O primeiro foi Pio IX, no século 19. (Foto: Tony Gentile/Reuters)

Eu, particularmente, não veria problema em permitir que se colhesse uma amostra para testes. Convenhamos, o relicário é apenas um recipiente feito de vidro e metal; pode ser refeito, se necessário. E, se o seu conteúdo é realmente milagroso, que tipo de “dano” poderia ocorrer? Talvez haja alguma preocupação com a repetição de fatos como o desrespeito aos protocolos do famoso teste de carbono-14 feitos no Sudário de Turim (isso é mera especulação minha; não consta que alguém em Nápoles tenha usado esse caso para justificar a posição da arquidiocese), mas até aí há meios de prevenir que algo semelhante aconteça novamente.

Novidades no blog

Vocês devem ter percebido duas mudanças no visual do Tubo de Ensaio. A primeira está do lado direito da tela. Há um campo de busca específico para o blog, e logo abaixo está uma lista de tags mais populares. O blog é dividido em seções, que são os assuntos mais amplos (como “livros” ou “criação, evolução e Design Inteligente”), listados logo acima do título do post. As tags normalmente se referem a temas mais específicos tratados nos textos, o que pode incluir também nomes de pessoas, instituições ou eventos. Clicando em uma dessas tags, vocês podem ver o que já foi publicado no blog a respeito do tema em questão (por exemplo, todos os textos sobre o papa Francisco).

A outra mudança está no fim do post: são quatro recomendações de posts. Em “relacionadas”, as sugestões normalmente (mas nem sempre) são sobre tema semelhante ao do post que vocês estão lendo; “últimas do blog”, como o nome diz, são as quatro postagens mais recentes.

No entanto, nem todos os posts do blog já foram corretamente indexados. É um trabalho de formiguinha que está sendo feito aos poucos, pois são mais de 500 postagens feitas desde setembro de 2008. Até agora, estão devidamente classificados todos os posts de setembro de 2012 até hoje. Os textos anteriores ainda não têm tags nem estão alocados nas seções do blog. Aos poucos isso vai sendo feito.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/03/15 1:03:46 PM

Temos tido uns dias especialmente corridos aqui, mas espero que vocês não tenham esquecido de se inscrever no seminário de bioética que começa depois de amanhã, e que os leitores envolvidos com o mundo acadêmico estejam preparando sua papelada para uma das bolsas para a viagem a Galápagos.

Para não deixar vocês completamente abandonados, queria dividir três vídeos criados pela Fundação BioLogos que achei muito bons. Como vocês sabem, a BioLogos prioriza o trabalho com as comunidades evangélicas para que saibam abraçar as descobertas da ciência moderna. Então, estamos falando, nesse caso específico, de levar a ciência para pessoas de fé, e não de levar a fé para pessoas de ciência. Por isso os vídeos tratam de como lidar com o tema nas igrejas e com os jovens cristãos. Tem, sim, um pouco de divulgação do trabalho da própria entidade, do tipo “estamos fazendo isso”, “queremos aquilo”, bom, espero que isso possa atiçar a curiosidade dos leitores do Tubo que desejam trabalhar o tema em suas próprias comunidades de fé.

O conteúdo eu deixo para vocês avaliarem por conta própria. Só queria destacar aqui um aspecto “marginal”, que é o fato de os grupos que promovem a harmonia entre ciência e fé (ou, neste caso, mais especificamente entre evolução e fé) estarem aprimorando a parte técnica/visual de seus conteúdos. Criacionistas e ateus militantes vinham ganhando de goleada nesse sentido, em parte porque dispõem de mais recursos financeiros, mas agora me parece que a diferença já não é tão grande assim.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 04/03/15 12:03:41 PM

A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) vai receber, entre os dias 20 a 22 de março, o Seminário da Comissão de Bioética da CNBB, realizado conjuntamente com a VI Jornada Interdisciplinar de Pesquisa em Teologia e Humanidades (JOINTH), da própria PUCPR. Neste ano, o tema principal é o 20.º aniversário da encíclica Evangelium Vitae, do papa João Paulo II, que reforçou o ensinamento católico no campo da bioética, além de tratar de novos desafios éticos que começavam a aparecer naquela época. A encíclica e o conceito de dignidade humana são os temas da maioria dos artigos, exposições e apresentações que ocorrerão ao longo dos três dias de evento.

Cardeal Willem Eijk

O cardeal holandês Willem Eijk fará a conferência de abertura do Seminário de Bioética, no dia 20 de março. (Foto: Arquidiocese de Utrecht/Divulgação)

Os palestrantes incluem convidados nacionais e também internacionais, como o padre italiano Livio Melina, presidente do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, de Roma, e o cardeal holandês Willem Eijk, que, além de arcebispo de Utrecht, é médico e membro da Pontifícia Academia para a Vida. Eijk fará a conferência de abertura, no dia 20.

A capacidade máxima do evento é de 280 pessoas, e ainda há vagas. O custo de inscrição é R$ 50 e é preciso fazer um cadastro no site da CNBB. O preço cobre apenas a participação no seminário; outros custos, como transporte e hospedagem para quem não é de Curitiba, ficam por conta do participante.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 26/02/15 11:37:04 AM

Semana passada terminou o leilão de uma carta de Albert Einstein escrita a um colega físico, professor da Universidade La Sapienza, em Roma. Acabou arrematada por US$ 75 mil; o leiloeiro wwwe estar feliz, pois o lance inicial era de apenas US$ 5 mil, mas ainda assim é bem menos que os milhões pedidos em uma outra carta de Einstein vendida pouco mais de dois anos atrás.

Albert Einstein em 1921, anos antes de escrever a carta leiloada recentemente.

Albert Einstein em 1921, anos antes de escrever a carta leiloada recentemente. (Foto: Ferdinand Schmutzer)

Escrevendo em italiano (idioma que Einstein conhecia, por ter vivido por um tempo na Itália) a Giovanni Giorgi, Einstein diz compartilhar das críticas feitas por Giorgi aos experimentos de um outro físico, que pretendia demonstrar a existência do éter. “Deus criou o mundo com mais elegância e inteligência”, afirma o alemão (no original, Dio ha creato il mondo con più eleganza e intelligenza). No caso, “mais elegância e inteligência” na comparação com a teoria que Einstein e Giorgi estão criticando.

O próprio site do leiloeiro explica esse trecho: “A discussão sobre Deus como criador também é fascinante. Embora não acreditasse em uma dividade pessoal, Einstein não tinha restrição a falar de Deus em um contexto científico quando discutia interpretações divergentes da física quântica. Em 1929, ele disse que acreditava ‘no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia de tudo o que existe’ e, em 1950, escreveu que ‘se há algo em mim que pode ser chamado de religioso, é a ilimitada admiração pela estrutura do mundo, naquilo que nossa ciência pode revelar’. É essa concepção de Deus que aparece nesta carta, com a ideia de um mundo projetado com ‘inteligência e elegância’ correspondendo a essas noções de harmonia estrutural. Eram essas estruturas harmônicas, as coisas no âmago da criação, que Einstein, como físico, esperava desvendar e descrever em sua busca por conhecimento, criando uma ponte entre o científico e o espiritual”. Uma descrição da espiritualidade peculiar de Einstein pode ser encontrada no livro Galileo goes to jail and other myths about science and religion. É o mito 21, com texto de Matthew Stanley.

Mas e a outra carta, então, na qual Einstein escrevia que “A palavra Deus é, para mim, nada mais que a expressão e o produto de fraquezas humanas“? Bom, existem quase 30 anos de diferença entre uma e outra. É tempo mais que suficiente para alguém mudar de ideia sobre qualquer assunto. Só não me façam como alguém (wwwia ter guardado o link, mas não me ocorreu na hora) que estava comentando no Facebook o leilão dessa carta em italiano e escreveu, no Facebook, que agora tinha certeza de que a carta de 1954 era uma farsa produzida por neoateus…

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 25/02/15 11:24:39 AM

Poucos lugares no mundo são mais icônicos para as discussões a respeito da vida na Terra que as Ilhas Galápagos, esse arquipélago situado a quase mil quilômetros de distância do Equador, país ao qual pertence. O local foi importantíssimo nas pesquisas de Charles Darwin e que levaram o britânico ao desenvolvimento da teoria da evolução pela seleção natural.

tartaruga em galápagos

“Estou esperando você em Galápagos para o workshop sobre a origem e o conceito de vida!” (Foto: David Adam Kess/Wikimedia Commons)

E é lá que a Universidade de Oxford (por meio do Ian Ramsey Centre for Science and Religion) e a Universidade San Francisco de Quito (por meio do Instituto Galápagos de Artes e Ciências) vão realizar o primeiro workshop do projeto Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina, com financiamento da Fundação John Templeton. O evento, com o tema “A origem e o conceito de vida”, ocorrerá de 17 a 21 de agosto deste ano. “Os principais temas do workshop serão a origem e a noção de vida, a vida extraterrestre, diferentes tipos de vida e diferentes perspectivas sobre a definição de vida”, segundo o site do workshop.

Se você é estudante de pós-graduação, pós-doutorando ou pesquisador até o quinto ano em uma posição permanente em uma universidade na América Latina, então está qualificado para ser um dos 28 “jovens acadêmicos” que terão a oportunidade de participar do workshop e interagir com especialistas latino-americanos e europeus no campo da ciência e da religião. Os selecionados receberão uma bolsa para cobrir as despesas de viagem e hospedagem em Galápagos. As inscrições já estão abertas e vão até 30 de abril (para ajudar a lembrar, pense que é o mesmo prazo da entrega da declaração do Imposto de Renda). Mas fique muito atento, especialmente aos itens 3 e 4 da carta de convocação, para não enviar uma inscrição incompleta e perder essa chance. Entre os documentos exigidos estão cartas de recomendação do orientador ou da instituição, currículo e resumo do projeto a ser desenvolvido durante o evento. Tudo em inglês!

(Aviso: A Fundação John Templeton e o Centro Ian Ramsey bancaram a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 11/02/15 11:11:10 AM

A emissora britânica BBC tem um projeto chamado Pop Up, em que um time de jornalistas vai percorrer os Estados Unidos, pulando de cidade em cidade e fazendo reportagens curtas em vídeo. Agora eles estão no Arizona, onde se localiza o Observatório Vaticano, tema da matéria de Matt Danzico. Como o WordPress não permite a incorporação de vídeos da BBC, você tem de clicar aqui para assistir.

O telescópio do Observatório Vaticano no Arizona

O telescópio do Observatório Vaticano no Arizona: padres a serviço da ciência desde o século 16. (Foto: Divulgação/Observatório Vaticano)

Padres no meio do deserto fazendo observações astronômicas? Puxa vida! No começo, o repórter tentou dar uma valorizada na “descoberta”: afinal, nem mesmo um amigo, jornalista especializado em ciência, da revista Popular Science, tinha ouvido falar disso. Na verdade, acho que Danzico acabou fazendo seu amigo pagar um mico. Sério que nem ele, nem colegas que cobrem especificamente a área de astronomia, tinham ouvido falar do Observatório Vaticano? Mesmo depois das inúmeras aparições do irmão Guy Consolmagno na mídia norte-americana?

O vídeo dá uma ideia razoável, considerando a curta duração da reportagem, da história da instituição e do tipo de trabalho que os membros do Observatório realizam. Vários deles são entrevistados e têm a chance de dizer o que estão fazendo. Um dos astrônomos tem inclusive a chance de dizer umas palavrinhas sobre a relação entre ciência e fé, sobre um eventual conflito entre o que diz a Bíblia e o que eles pesquisam no observatório, e cita Nicolau de Cusa, que um século antes de Giordano Bruno já havia levantado a ideia de outros mundos habitados (ele foi nomeado cardeal oito anos depois de publicar a obra em que tratava desse tema).

O que destoou um pouco foi a participação do astrofísico e ateu militante Lawrence Krauss. Ele aparece do nada jogando algumas afirmações genéricas, algumas fruto de puro achismo (como a de que “os melhores cientistas são ateus”), e só entra no tópico quando afirma que o Observatório Vaticano nunca foi uma instituição de ponta (pode não ser verdade agora, mas é uma afirmação questionável quando se considera a época em que ele foi fundado), mas que não faz ciência nonsense, e enquanto os padres não deixarem sua “mitologia” interferir na ciência, ele não se incomoda. Talvez o jornalista quisesse acrescentar algum contraponto e Krauss estava disponível para falar algumas besteiras…

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 29/01/15 5:34:11 PM

Na terça-feira, o físico Charles Townes morreu na Califórnia, aos 99 anos. Seu trabalho abriu as portas para uma série infindável de comodidades modernas. Afinal, sua pesquisa permitiu o surgimento do laser, e foi graças a ela que Townes recebeu o Nobel de Física.

Embora ele seja mundialmente conhecido por essa contribuição, Townes também contribuiu para o diálogo entre ciência e religião, fato ignorado pela maioria dos obituários e brevemente mencionado em outros, como esse do NYT cujo link inicia este post. Em 1966, bem antes de o tema se tornar um tópico de discussão acalorada, ele já havia escrito o artigo “A convergência da ciência e da religião” para a revista Think, publicada pela IBM. Nela, Townes faz uma recapitulação da história recente da ciência, iniciando na época em que se acreditava no seu poder de explicar absolutamente tudo, e mostra diferenças e paralelos entre ciência e fé, ressaltando estes últimos e afirmando que a convergência é “inevitável”.

Desde a década de 60 Charles Townes já tratava da integração entre ciência e fé

Desde a década de 60 Charles Townes já tratava da integração entre ciência e fé. (Foto: Elena Zhukova/UC, Berkeley/Divulgação)

Vejam também a entrevista concedida por ele em 2005 ao site da Universidade da Califórnia, Berkeley, na qual ele foi professor por décadas. Nela, o físico trata do diálogo entre ciência e fé, das questões éticas, das limitações da ciência e de outros temas, como o ensino do design inteligente nas escolas. Naquele mesmo ano, Townes ganhou o Prêmio Templeton.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 20/01/15 7:00:59 PM

Nova é uma série de documentários sobre ciência que está no ar desde 1974 na PBS, o canal público norte-americano de televisão. Temos de aplaudir o simples fato de um programa televisivo desse gênero se manter vivo por quatro décadas. Não sei se todos os episódios estão disponíveis em DVD, mas outro dia encontrei à venda na internet um programa exibido em outubro de 2002: é Galileo’s battle for the heavens, baseado no livro A filha de Galileu, da escritora norte-americana Dava Sobel. Comprei o meu na Amazon, mas o próprio site da PBS tem uma transcrição completa do episódio.

capa do DVD de "Galileo's battle for the heavens"

“Galileo’s battle for the heavens” foi originalmente exibido em 2002. (Imagem: Divulgação)

Com duas horas de duração, o programa é um documentário que mescla entrevistas de especialistas (como o jesuíta Guy Consolmagno, a própria Dava Sobel, o astrônomo Owen Gingerich, além de outros historiadores e cientistas) com dramatizações de episódios da vida de Galileu e de sua primeira filha, Virginia Gamba, que depois entrou em um convento e se tornou a irmã Maria Celeste (nome com um duplo sentido um tanto apropriado, ressalta Dava Sobel). Achei um tanto estranho ver Simon Callow, o ator que interpreta Galileu, recitando para a câmera trechos das cartas e outros escritos de seu personagem, mas o que importa mesmo é a descrição da vida do astrônomo, suas teorias e seu processo inquisitorial.

E, nesse quesito, o documentário vai bem. Não digo que vai muuuuuito bem, mas é uma descrição razoavelmente fiel, melhor do que a média do que lemos e vemos sobre Galileu por aí. Os entrevistados, por exemplo, mostram o contrassenso que era, na época de Copérnico e Galileu, dizer que a Terra se movia em altas velocidades pelo espaço, algo totalmente contrário ao senso comum, pois wwweríamos “perceber” esse movimento. A personalidade arrogante de Galileu, que lhe rendeu muitos inimigos desnecessariamente, também é mencionada. Os entrevistados deixam claro que Galileu nunca se viu como adversário da Igreja; era um bom católico que desejava manter a Igreja na vanguarda da ciência. E a descrição feita da famosa carta à grã-duquesa Cristina de Toscana, que levou ao processo de 1616, é correta ao mostrar como o texto vai muito além da astronomia para entrar em temas de teologia e interpretação bíblica.

Galileu é interpretado pelo ator britânico Simon Callow.

Galileu é interpretado pelo ator britânico Simon Callow. (Foto: Divulgação)

Mas é justamente aí que aparece uma das lacunas do filme: ele não explica o contexto da Contrarreforma, que reservou exclusivamente ao clero católico o direito de interpretar a Escritura e, se necessário, propor novas interpretações. E foi justamente isso (e não a mera defesa do heliocentrismo) que causou problemas a Galileu. Também percebi exageros na descrição do geocentrismo como dogma católico, e na maneira como tanto a Inquisição quanto Roberto Belarmino foram retratados. O cardeal é descrito como uma pessoa que até teve, no passado, interesse por temas científicos, mas com o tempo foi ficando cada vez mais “bitolado”. Só de passagem é mencionada sua carta a Antonio Foscarini na qual Belarmino revela, sim, uma abertura à possibilidade de reconsiderar a visão geocêntrica se houvesse uma prova irrefutável. Menos mal que o documentário também lembra que Galileu estava errado ao apresentar as marés como essa prova.

Quanto ao processo de 1633, que resultou na condenação de Galileu, o documentário também tem muitos acertos. O primeiro e maior deles é lembrar que a condenação resultou, principalmente, da desobediência de Galileu às ordens recebidas em 1616. O filme mostra como Urbano VIII se mostrou mais aberto à possibilidade de Galileu publicar suas obras, desde que tratasse o heliocentrismo como hipótese, e os especialistas reconhecem que o Diálogo era uma defesa explícita do modelo copernicano, inclusive colocando argumentações de Urbano VIII na boca do personagem Simplício (mas o filme me parece entrar no terreno da especulação ao dizer que o papa nunca chegou realmente a ler o Diálogo, contentando-se com o que ouviu falar a respeito da obra). A parte de contextualização que faltou na descrição dos acontecimentos de 1616 aparece agora, com Dava Sobel explicando as dificuldades pelas quais Urbano VIII passava e que o impediam de ser condescendente com seu antigo amigo astrônomo. Por fim, o documentário termina de uma forma mais tranquila, descrevendo as demais colaborações de Galileu para a ciência, e encerrando com a reabilitação do astrônomo em 1992, pelo papa João Paulo II.

Enfim, como eu disse, está acima da média, e está ok para quem procura um produto audiovisual sobre o tema. Mas o que eu sigo recomendando mesmo é o livro de Annibale Fantoli Galileu: pelo copernicanismo e pela Igreja, que inclusive aborda muitos aspectos ignorados pelo documentário da PBS, como a existência de outros modelos planetários na época de Copérnico e Galileu.

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