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Tubo de Ensaio

Enviado por Marcio Antonio Campos, 16/09/16 11:22:26 AM

O blog volta hoje de um duplo recesso, olímpico-parental, falando de Katharine Park. Já a mencionamos aqui: foi ela quem escreveu o capítulo de Galileo goes to jail em que se desmente o mito de que a Igreja proibia a dissecação de corpos na Idade Média. Recentemente tropecei em um artigo interessante de uma publicação da própria Universidade Harvard, onde Park leciona. Não é novo, é de 2011, mas conta a história de como ela acabou se tornando a destruidora de um mito tão forte.

Dissecação de um cadáver

Esqueça as lendas sobre cientistas buscando corpos clandestinamente para escapar da Inquisição: a dissecação era prática conhecida e autorizada pela Igreja medieval. (Imagem: reprodução)

Tudo começou em Florença, para onde a historiadora havia ido buscar fontes para sua pesquisa. E ali ela encontrou o relato de um homem de uma família rica, que pedia a autópsia de sua esposa recentemente falecida. Aquilo, conta Park, desafiava as lendas que ela sempre tinha ouvido sobre pioneiros da medicina que precisavam surrupiar corpos para abri-los às escondidas, para escapar da vigilância das autoridades eclesiásticas. E a partir daí ela foi encontrando mais e mais histórias, na sua maioria envolvendo autópsias e dissecações de mulheres, por uma razão: o desejo de entender os mecanismos da reprodução humana. “O útero e o corpo feminino eram o último segredo médico”, afirma. Por isso os procedimentos costumavam começar pelo aparelho reprodutor, exceto no caso das mulheres com fama de santidade, em que se examinava primeiro o coração à procura de algum sinal extraordinário que confirmasse fisicamente essa fama. E, em todos os casos, sem a menor oposição da Igreja.

“Toda vez que leio algo no New York Times sobre Leonardo da Vinci precisando esconder o fato de que ele estava dissecando corpos, e toda vez que ouço um guia de turismo na Itália contando essas histórias, isso acaba comigo. Não sei como me livrar desse mito”, encerra a historiadora. Park pode dormir com a consciência tranquila, porque fez um ótimo trabalho; não é culpa dela que o mito continue rodando por aí.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 27/07/16 11:21:11 AM

Como na semana passada eu resolvi aderir à treta e ser meio destrutivo com um evento que vai ocorrer aqui em Curitiba, hoje serei mais construtivo e recomendarei um congresso que vale muito a pena: é a I Conferência Nacional Cristãos na Ciência, em novembro, em São Paulo.

John Walton, autor de livros sobre a interpretação dos capítulos iniciais do Gênesis

John Walton, autor de livros sobre a interpretação dos capítulos iniciais do Gênesis, virá para o evento da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência em novembro. (Foto: Reprodução/YouTube)

As inscrições já começaram e ainda estão no lote promocional, e a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência trouxe um elenco digno dos cursos e eventos de que participei lá na Inglaterra: Alister McGrath participará por meio de vídeo, mas também tem Ard Louis, Ted Davis, Andrew Briggs e John Walton. Este último é autor de The lost world of Genesis One e de The lost world of Adam and Eve: Genesis 2–3 and the Human Origins Debate, e um dos principais objetivos da conferência é discutir a leitura e a interpretação dos três primeiros capítulos do Gênesis, além de tratar de modelos de diálogo entre ciência e fé. Dá pra ir sem medo!

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 21/07/16 11:18:42 AM

Todo mundo conhece a atriz Mayim Bialik do seriado The Big Bang Theory, em que ela interpreta Amy Farrah Fowler. Atriz e personagem têm algo em comum: ambas são neurocientistas. E Mayim professa uma variante do Judaísmo ortodoxo (seu ex-marido, que era mórmon, inclusive se converteu antes do casamento), aderindo a diversos costumes rituais judaicos, como os relativos à alimentação, estudando as escrituras e divulgando a religião em vídeos.

E, para responder às inevitáveis perguntas sobre como pode uma neurocientista ser também uma pessoa religiosa, Mayim produziu este vídeo aqui:

(A página brasileira de Facebook Mayim Fans colocou legendas, você pode ver aqui)

A atriz Mayim Bialik, de The Big Bang Theory

Mayim Bialik é neurocientista e judia ortodoxa.

É um vídeo muito bom, em que a atriz desmistifica algumas noções de Deus muito caras aos criadores de espantalho neoateístas como, por exemplo, o Deus antropomorfizado que funciona muito bem nas tirinhas do Laerte como recurso humorístico, mas que sabemos ser bem diferente do que realmente é a divindade. Ela ainda defende de forma muito enfática que não há nada de bizarro ou de esquizofrênico em aceitar todos os postulados da ciência e ainda crer em Deus.

Mayim fala de “relacionamento com Deus”, dando a impressão de que sua concepção de Deus é justamente aquela judaico-cristã, de uma divinidade pessoal, não distante de nós; mas no início, quando descreve o que Deus não é em sua opinião, parece recusar a ideia de uma divindade que responda às nossas orações, por exemplo, o que já destoa um pouco até mesmo da fé que ela professa. À medida que o vídeo segue, pelo menos para mim parece que Mayim encontra Deus menos no “relacionamento pessoal” com Ele e mais na contemplação da grandiosidade da natureza. Ainda no início ela até diz que “Deus é a gravidade” e “a força centrífuga”, o que obviamente Deus não é. Confundir criatura (as leis que regem o universo) com seu autor é bem complicado. Mas posteriormente ela vai se corrigindo e colocando as coisas em seu devido lugar. Seria interessante saber o que Mayim pensa sobre a tal “Teologia Natural” de que já falamos aqui no blog em outras oportunidades, pois o pensamento mostrado no vídeo parece se aproximar dessa corrente de pensamento.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 19/07/16 3:36:59 PM

Tenho um amigo, que também foi meu professor de Física muitos anos atrás, que diz ter calafrios sempre que vê alguma coisa com o adjetivo “quântico”. Fico pensando no que ele diria ao saber de um evento que ocorrerá em Curitiba e que está sendo bastante divulgado: o I Congresso Internacional Felicidade, Prosperidade, Abundância e Física Quântica, marcado para novembro na Ópera de Arame e realizado pela Escola Brasileira de Ciências Holísticas.

Duas das estrelas do evento são o líder religioso Sri Prem Baba e o físico e “ativista quântico” (olha aí!) Amit Goswami. Ambos são descritos como referências na “conciliação” ou “construção de pontes” entre ciência e espiritualidade. Pois então: o minicurrículo de Sri Prem Baba no site do congresso diz que ele “desenvolveu um método de autoconhecimento chamado Caminho do Coração”, para que “possamos ser canais do amor divino através da manifestação dos nossos dons e talentos”. Tem sua beleza, e pode até ser que sirva mesmo para algumas ou muitas pessoas. Mas não tem absolutamente nada de ciência aí.

Amit Goswami, PhD em Física e "ativista quântico"

Amit Goswami, PhD em Física e “ativista quântico”, estará em Curitiba em novembro para um congresso.

Caso mais complicado é o de Goswami, que liga física quântica e desenvolvimento espiritual (veja aqui os sites dele em inglês e português), e já escreveu livros com os sugestivos títulos de Economia Quântica, Criatividade Quântica e O ativismo quântico pode salvar a civilização. Um “sequestro” de um campo sério da ciência para outras finalidades, dizem dois físicos com quem conversei.

“A física quântica foi desenvolvida no começo do século 20 para explicar os fenômenos físicos que acontecem no mundo microscópico. Os físicos eram capazes de explicar fenômenos físico-químicos e radioativos em nível macroscópico com leis empíricas, mas faltavam leis mais fundamentais, que partissem de primeiros princípios, para explicar tais fenômenos. A física quântica preencheu essa lacuna, dando explicações elegantes para os fenômenos macroscópicos a partir de princípios físicos para o mundo microscópico”, explica o astrofísico Alexandre Zabot, professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Basicamente, física quântica é isso (e já não é pouca coisa). “Fenômenos psíquicos, curas de doenças ou bem-estar do ser humano jamais foram objeto de trabalho dos físicos”, acrescenta Zabot.

Existe, sim, em minha opinião, um anseio natural das pessoas pelo transcendente. O problema é usar esse anseio para promover “conciliações” entre ciência e fé que são totalmente forçadas. E, nesta época em que o discurso científico é altamente respeitado, praticamente um pilar da sociedade atual, ele corre o risco de ser capturado. “Esse evento me parece bem revelador de um fenômeno muito comum: o uso das hard sciences para ‘justificar’ qualquer bobagem”, explica Laerte Sodré Júnior, diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. “Infelizmente é a esse papel que se presta o Amit Goswani: com seus livros, vende bobagens fantasiadas de ciência e, pelo visto, conseguiu sócios no Brasil”, continua o doutor em Astronomia, que até tentou dar uma chance a Goswami: “Comecei a ver um filme com ele, mas desisti depois de dois minutos, tal o nível de enganação”. Zabot arremata: “É uma boa atitude de prudência duvidar da honestidade de pessoas que prometem soluções mágicas usando instrumentos criados para outros fins. Especialmente quando cobram tão caro [a inscrição do congresso custa de R$ 799 a R$ 999, e a organização afirma que se o valor arrecadado superar o custeio do evento, o excedente irá para programas sociais]. O simples fato de haver físicos com doutorado entre eles não lhes dá a credibilidade necessária, pois a comunidade científica não apoia essas doutrinas exóticas”.

Enfim, o congresso tem lá outras palestras e outros temas que não me dizem respeito (embora eu tenha ficado com a pulga atrás da orelha com uma palestra envolvendo neurociências) e, como eu disse, até podem ser de grande valia para quem vai ao evento. Meu problema é com essa mistureba entre física quântica e espiritualidade. Quem acompanha o blog sabe que eu defendo o diálogo, a cooperação e a conciliação entre ciência e fé, mas sem subverter (ou até perverter, por mais forte que isso soe) nem uma, nem outra.

(Um mea culpa: sim, o recesso do blog demorou mais do que deveria; era para ter durado só o mês de maio, quando estive de férias. Peço desculpas, e já aviso que vem outro recesso aí, coincidindo com os Jogos Olímpicos. Até lá, vamos tentar dar um gás no blog.)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 05/05/16 9:19:01 AM

Claro que está repercutindo muito a informação de que, se Dilma Rousseff realmente for afastada pelo Senado nos próximos dias, o novo ministro da Ciência e Tecnologia será um pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus que, ainda por cima, é criacionista.

Um desastre em vários sentidos. Mas não porque o sujeito seja religioso, como insinuou o presidente nacional do PSB, para quem ciência e religião não devem andar juntas. Há vários motivos para questionar a indicação de Marcos Pereira, mas o fato de ele ser religioso não deveria, de maneira alguma, estar entre eles. Aliás, foi a mesma coisa que eu disse aqui quando se lançou o nome de Gabriel Chalita para a mesmíssima pasta, no início de 2013. Gente religiosa, e que não esconde sua fé, tem feito ótimos trabalhos no comando de órgãos de Estado, como é o caso de Francis Collins no National Institutes of Health norte-americano. Mas existe uma diferença fundamental aqui: Collins é também cientista, e um dos melhores em sua área. Nas mídias sociais, Pereira se defendeu dizendo que não é preciso ser da área para assumir um ministério, e deu exemplos como os de Fernando Henrique Cardoso, que não era economista e foi ministro da Fazenda (ótimo, aliás) e José Serra, que não era médico e foi ministro da Saúde. Mas ambos tinham experiência prévia como gestores. Qual é a experiência de Pereira?

Sim, considero absurdo ter no comando de um Ministério de Ciência e Tecnologia alguém que nega um pilar básico da biologia, que é a Teoria da Evolução. E ainda por cima se diz criacionista por ser cristão, ao afirmar “eu, como cristão, acredito na teoria do criacionismo”, como se ser criacionista fosse uma consequência necessária de ser cristão, o que é um erro grotesco.

(aliás, o jornalista Fernando Rodrigues também escorrega feio quando define o criacionismo como uma “teoria baseada na Bíblia segundo a qual o mundo teria sido criado por Deus a partir do nada”. Criacionismo não é isso; ele se define principalmente por ser uma negação da Teoria da Evolução, especialmente na sua vertente de “Terra jovem”, que nega não só a biologia, mas também a geologia e a astronomia a respeito da idade da Terra e do universo)

Pereira garante que, se for ministro, não vai misturar as coisas. Mas o país precisa realmente pagar pra ver? Não seria melhor colocar um cientista de prestígio, com capacidade de gestão e que demonstre respeito pela religião?

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, acha que Galileu foi queimado por acreditar que Terra era redonda. (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

E, para não ficarmos apenas no ministério futuro, temos também, no ministério presente, Aloizio Mercadante, que anda revoltado com projetos de lei que tentam livrar as escolas do proselitismo político-ideológico e das tentativas de impor certa engenharia social tão ao gosto da esquerda. Ao anunciar que o governo iria à Justiça contra um projeto aprovado no estado de Alagoas, o ministro soltou a seguinte pérola: “Não podemos voltar ao tempo da Inquisição, em que Galileu Galilei foi queimado porque achava que a Terra era redonda, e a fé não [achava]”. Alguém pode dizer ao quase ex-ministro que Galileu morreu de velhice, em sua casa, tendo inclusive recebido os últimos sacramentos? E que sua condenação não teve nada a ver com a esfericidade da Terra, que era dada como certa por praticamente todo o mundo ocidental bem antes de Galileu?

Pois é, leitores, estamos bem de ministros, atuais e futuros…

(Aviso: o blog entra em férias e volta no começo de junho)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 13/04/16 2:40:14 PM

Na noite de segunda-feira, o astrofísico Marcelo Gleiser dividiu o palco do Tuca com o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura desde 2007 e intelectual respeitadíssimo. É biblista de formação, mas suas palestras e escritos revelam uma ampla cultura geral que se manifesta, por exemplo, na facilidade que tem para ligar elementos da cultura universal com temas religiosos. Antes do encontro no Tuca, pude conversar com o cardeal Ravasi sobre a relação entre Igreja e ciência.

Para o cardeal Gianfranco Ravasi, ainda é preciso construir subsídios para que os padres possam conversar com seus fiéis sobre ciência e religião. (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

Para o cardeal Gianfranco Ravasi, ainda é preciso construir subsídios para que os padres possam conversar com seus fiéis sobre ciência e religião. (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

Por que os católicos deveriam se importar com a relação entre ciência e religião?

Por causa de uma característica da cultura contemporânea que repete a de outros tempos. No passado, entre várias disciplinas do saber humano, havia algumas que emergiam e se tornavam proeminentes. Foi assim com a filosofia nos séculos 18 e 19, e com a arte antes disso. Nesta nossa época, quem domina é a ciência, considerada hoje uma das principais e fundamentais formas de conhecimento, decisiva para a própria história da humanidade. Isso não há como negar. Mas também existe um risco: o de que a ciência simplifique ou reduza as outras modalidades de conhecimento que são igualmente importantes – a arte, que já mencionamos; a poesia, o amor, o conhecimento prático – ao ponto de tornar-se exclusiva. A ciência responde à pergunta “o que acontece?”, mostra-nos o cenário em que tudo se desenrola. Mas também precisamos nos perguntar “por que acontece?” e “qual o sentido disso tudo?” Por isso, é indispensável que, ao lado da ciência (que reconhecemos como importante, obviamente), estejam também outras modalidades “radicais” de conhecimento que lidem com as questões fundamentais.

Essa ambição de exclusividade difere a ciência dos outros saberes proeminentes do passado?

A ciência – ou, melhor dizendo, alguns cientistas – sofre, de fato, essa tentação. Mas, sendo ainda mais precisos, a tentação se manifesta de forma mais evidente na técnica, quando ela transforma os meios em fins. A verdadeira ciência é consciente de quão complexa é a realidade. Einstein, por exemplo, tinha uma forte sensibilidade religiosa, mística, à sua maneira. Já a técnica, que deveria ser instrumento, é invertida para se tornar o princípio dominante. Pergunta-se “é possível fazer isto?”, mas de um ponto de vista puramente material, não ético.

E, pelo menos no que diz respeito à Igreja Católica, o “conflito” se dá não com descobertas científicas, mas justamente com certas técnicas que violam a dignidade humana.

Exatamente. Até parece que a Igreja se oporia, por exemplo, ao uso da penicilina – eu não concordo, por exemplo, com as Testemunhas de Jeová, que por razões religiosas vetam o uso de técnicas médicas que beneficiam o homem sem causar outros danos. O verdadeiro problema é com certa técnica que não se interessa pela dimensão ética, isto é, que se vê como ilimitada, que não quer saber da reflexão que pergunta “isto é certo?” Um exemplo típico é o caso de Oppenheimer [Julius Robert Oppenheimer, físico americano integrante do Projeto Manhattan]. Ele estava estudando o átomo e viu que a técnica tornava possível produzir uma bomba atômica. Ele é cientista, e é também humano. Diz: “esta é uma possibilidade” – e é algo enorme, no sentido de dar ao homem tal capacidade de destruir –, e o que ele decide? Mais tarde, ele se tornaria um objetor de consciência. Tomou uma atitude de verdadeiro cientista. Então, o conflito aparece quando a técnica, sozinha, tenta se impor sobre todo o resto ignorando a ética. A verdadeira ética – não o moralismo, que é sua deturpação – não é um peso. Ela recorda que temos diante de nós o homem em sua plenitude, sempre, não só um amontoado de células ou órgãos, mas uma pessoa. Se eu tivesse de distinguir o essencial da ética, é isso: recordar o caráter pessoal do indivíduo. E a pessoa não se resume ao físico, à matéria.

Gianfanco Ravasi e Marcelo Gleiser no Átrio dos Gentios

Ravasi e Gleiser no Átrio dos Gentios: ambos falaram da importância de reconhecer os limites da ciência e evitar as pretensões de exclusividade. (Foto: Cassiano Rosário)

Na abertura do Átrio, o senhor falou da importância de aprender a escutar. O que os religiosos deveriam aprender a ouvir dos cientistas?

Antes de mais nada, é preciso aprender a respeitar a ciência. O caso Galileu foi um exemplo de como não se pode forçar uma disciplina do modo como foi feito. Em segundo lugar, os religiosos devem compreender que a realidade humana inclui uma dimensão experimental. A carne, a corporeidade, a “fisicalidade” se ligam com a realidade cotidiana que é o objeto de estudo do cientista. O próprio cristianismo afirma isso, pois é a religião do divino feito carne: o Logos, o Verbo se fez homem. Sob essa luz, é preciso aprender a amar muito a corporeidade, amar a matéria; um exemplo disso foi Teilhard de Chardin. Não somos maniqueus que odeiam a matéria.

E como os padres podem transmitir a suas comunidades uma compreensão mais adequada da relação entre ciência e fé?

Esse é um percurso ainda complicado. Os poucos teólogos e especialistas que são competentes em ambos os campos precisam agir não tanto como estamos aqui, agora, em grandes eventos internacionais, mas preparando subsídios para utilização quotidiana assim como existem materiais para tantas outras áreas, como a pastoral e a catequese. Ainda precisamos criar uma maneira de trabalhar esse assunto. Há muito o que fazer, porque existem as grandes pesquisas sobre ciência e fé, mas também há o lugar-comum, as informações erradas que se ouve na escola… o aspecto didático-catequético a esse respeito precisa ser desenvolvido.

Cardeal Gianfranco Ravasi na abertura do Átrio dos Gentios em Curitiba

Na manhã de segunda-feira, em seu discurso na abertura do Átrio dos Gentios, Ravasi falou da importância de saber ouvir quem vem de campos diferentes e tem perspectivas diversas das nossas. (Foto: Cassiano Rosário)

Publicamente, o papa Francisco não fala muito sobre ciência e fé, exceto por aquele famoso discurso sobre a evolução e o Big Bang. Dentro do Vaticano, como ele trata o trabalho envolvendo ciência e religião?

O nosso trabalho é dedicado à cultura, e o conceito de cultura que adotamos não é aquele iluminista do século 18, que consistia na aristocracia do pensamento. Então, o trabalho do Vaticano com ciência e fé não poderia se resumir ao Observatório Vaticano ou à Pontifícia Academia de Ciências, que são, sim, importantes. Também buscamos a dimensão pastoral, que o papa Francisco sempre enfatiza e encoraja. Então, assim como no Pontifício Conselho para a Cultura temos um conceito mais antropológico e transversal de cultura, interessando-nos por economia, pela cultura dos jovens, das mulheres, pela linguagem, pelas comunicações, temos o exemplo do Átrio dos Gentios, que é a aplicação pastoral do diálogo com os não crentes e também com o mundo da ciência.

Mas não é só isso, certo? O Pontifício Conselho para a Cultura já tem uma parceria de anos com uma fundação para a pesquisa com células-tronco adultas…

Sim, e na próxima semana teremos nosso terceiro congresso internacional sobre medicina regenerativa, que inclui também a pesquisa com células-tronco. Desta vez trataremos de doenças raras em crianças, enfermidades que estão fora do radar da indústria farmacêutica porque a pesquisa que não interessa do ponto de vista econômico. Contaremos, inclusive, com a presença do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. A próxima etapa será a neurociência.

Disso não se fala tanto. Esse silêncio não ajuda a perpetuar a mitologia que existe sobre a relação entre ciência e Igreja?

Sim, o caso Galileu mesmo é o caso acabado dessa mitologia; dizem que a Igreja quase o matou de fome, que o colocou na cadeia, enfim, um monte de mentiras. Quanto a esses eventos, talvez a divulgação não seja tanta porque essa conversa se dá em um nível que, se não é exatamente um nível de pesquisa, é certamente bastante qualificado, mais dirigido à comunidade científica, e por isso não necessariamente chega ao grande público.

(Leia também a entrevista com Marcelo Gleiser feita durante o Átrio dos Gentios)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 12/04/16 5:03:57 PM

O Tuca, na PUCPR, esteve lotado na noite de segunda-feira para o diálogo entre o astrofísico Marcelo Gleiser e o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. O evento fechou o primeiro dia do Átrio dos Gentios, que ocorre na universidade até quarta-feira. Tive a felicidade de fazer parte da mesa deste diálogo, mas pude conversar mais longamente com Gleiser e com Ravasi antes que eles fossem ao palco do Tuca. Na entrevista, o astrofísico conta por que, sendo um não crente, ele se importa com o diálogo entre ciência e religião, explica suas críticas ao ateísmo militante e ao princípio antrópico, e dá detalhes de seu novo projeto: um instituto para promover a interação entre ciência e filosofia. Um trabalho que talvez Gleiser tenha de conciliar com futuros compromissos no Vaticano. “O cardeal Ravasi me disse que indicaria meu nome para um conselho”, contou. A Pontifícia Academia de Ciências, talvez? “Aceitaria com certeza!”

Marcelo Gleiser é crítico do ateísmo militante, que erra no conteúdo e na estratégia de divulgação de suas ideias. (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

Marcelo Gleiser é crítico do ateísmo militante, que erra no conteúdo e na estratégia de divulgação de suas ideias. (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

Por que participar deste diálogo entre ciência e fé?

Porque, ao contrário de outros cientistas que se recusam a ter esse tipo de conversa, acho que ela é absolutamente essencial por vários motivos. Eu tenho até um livro com o frei Betto, melhor exemplo que isso não dá. As pessoas têm uma visão muito distorcida da ciência, da religião e da relação entre ambas. Elas imediatamente colocam ciência e fé como antípodas em confronto constante. Minha visão é um pouco mais histórico-cultural. Vejo a ciência como uma manifestação do esforço humano em se engajar com o mistério da existência. E a religião é, também, uma manifestação do esforço humano em se engajar com o mistério da existência. Tanto uma quanto outra, de certa forma, vêm da mesma fonte. Recusar-se a conversar é recusar-se a olhar para um lado da nossa vida, da existência humana, que faz parte de quem nós somos. É uma conversa perfeitamente natural.

Tanto Criação imperfeita quanto A ilha do conhecimento trazem críticas ao ateísmo militante. O problema dessa corrente é de conteúdo ou de estratégia?

O problema é duplo. Quanto à estratégia, ninguém ganha nada com a violência verbal, com o abuso, com a falta de humildade e de compreensão. Isso é, talvez, algo que esses militantes ateístas possam aprender com alguns líderes religiosos: não apenas a respeitar as diferenças de opinião, mas também a compartilhar o conhecimento humano de uma forma mais humilde. Há uma posição militante, radical – eu diria “evangélica” – do ateísmo dos “quatro cavaleiros do apocalipse” [Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris e o falecido Christopher Hitchens], se bem que Harris está melhorzinho agora, ele descobriu que a espiritualidade não é algo necessariamente ligado à religião institucionalizada.

Jerry Coyne poderia tomar o lugar do Harris?

Não creio. Coyne para mim é um fantoche, só repete o que os outros falam. Charles Darwin tinha Thomas Henry Huxley, que até foi apelidado de “o buldogue de Darwin”? Coyne é o buldogue do Dawkins.

E quanto ao conteúdo do ateísmo militante?

O ateísmo, se ele é definido daquela forma radical, é o “acreditar em não acreditar”. Isso é uma inconsistência lógica que vai contra a definição do método científico, que é obter – ou tentar obter – alguma evidência empírica para basear seus argumentos. Acreditar em não acreditar é destruir imediatamente qualquer esperança de uma evidência empírica, é repetir o erro que você está criticando.

É preciso ter fé para dizer “Deus não existe”?

A ciência não consegue “desprovar” a existência de algo; ela só é capaz de comprovar a existência. Esse tipo de argumento do ateísmo militante cientificamente não faz sentido. Você pode dizer, como Carl Sagan dizia, acho que citando um antropólogo da UCLA, que “ausência de evidência não é evidência de ausência”. Sagan aplicava essa frase à busca por vida extraterrestre: o fato de que não a achamos ainda não significa que ela não exista. Mas podemos usar o raciocínio para qualquer outra divindade – não apenas o Deus judaico-cristão – ou seres estranhos/mitológicos. Podemos dizer que é “altamente improvável” ou “altamente surpreendente” que algo assim exista, mas não conseguimos provar que não exista. Então podemos, sim, ver em afirmações como “Deus não existe” um ato de fé, pois não há nenhuma evidência que apoie essa convicção. O que é fé, de uma certa forma? Você tem evidências, mas não são, digamos, evidências científicas.

O agnosticismo, então, seria uma posição mais intelectualmente honesta?

Venho de família judaica, e há pessoas que me chamam de ateu, o que é um grande erro. Não sou ateu. Quando me perguntam o que eu sou, imediatamente respondo que a única posição que considero consistente com o método científico é o agnosticismo – termo, aliás, que foi criado por Thomas Huxley, de quem falamos há pouco. Acho que Dawkins precisava ler mais Huxley, ele tem coisas bem interessantes sobre o assunto.

O importante nisso tudo é que as pessoas entendam que existem diferenças absolutamente fundamentais entre a metodologia científica e a fé religiosa, mas não dá para seguir esse caminho cego e unilateral do evangelismo ateu.

No diálogo travado na PUCPR, Gleiser e o cardeal Ravasi advertiram para duas pretensões errôneas: a de que a ciência, mais cedo ou mais tarde, terá todas as respostas; e a de que a ciência é o único modo válido de conhecimento. (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

No diálogo travado na PUCPR, Gleiser e o cardeal Ravasi advertiram para duas pretensões errôneas: a de que a ciência, mais cedo ou mais tarde, terá todas as respostas; e a de que a ciência é o único modo válido de conhecimento. (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

Sua crítica ao princípio antrópico afirma que as constantes e parâmetros da natureza são uma criação humana – eventuais civilizações extraterrestres, por exemplo, poderiam ter constantes e parâmetros diferentes dos nossos. Como essa “arbitrariedade” se relaciona com a objetividade com que a ciência pretende descrever o universo?

São coisas diferentes. As constantes da natureza são uma espécie de alfabeto, e é com elas que escrevemos as equações que descrevem a natureza. A ciência, para mim, é uma narrativa construída – mas não no sentido pós-modernista do termo. Quando digo que ela é construída, me refiro ao fato de que nós, humanos, olhamos para a natureza meio cegos, meio míopes; só vemos parte do que está lá fora. O que conseguimos enxergar nós tentamos explicar com a ciência. À medida que vamos construindo métodos para descrever o que está acontecendo, o que se vê em experiências e observações, vamos criando uma linguagem que expressa o que estamos descobrindo, e essa linguagem precisa dessas constantes da natureza. Um exemplo: não há dúvida de que o fato de a força da gravidade ter uma constante “g”, que se aplica tanto entre o Sol e a Terra quanto entre dois buracos negros que vão se chocar a bilhões de anos-luz daqui, diz que existe uma uniformidade em como a natureza se manifesta através do espaço. Isso é o que faz a ciência possível. Se isso não fosse verdade, nós não conseguiríamos falar nada sobre o que acontece fora daqui. O fato de que a natureza tenha uma certa uniformidade torna isso possível.

A confusão do princípio antrópico é achar que essas constantes estão dizendo alguma coisa sobre escolhas. Quando você vai construir uma casa, tem várias opções arquitetônicas. Mas os defensores do princípio antrópico creem que o fato de o universo ter sido construído de forma a ter essas constantes da natureza faz com que esse universo seja uma escolha. Isso implica duas opções. Na primeira, a opção religiosa, você vai dizer “essa é a escolha do designer cósmico”, ou seja, Deus construiu um universo com um certo propósito – que propósito? Pode ser, por exemplo, a vida humana, ou vida inteligente –, e por isso a natureza tinha de agir de uma certa forma, e para isso ela tinha de ter essas constantes. Se essas constantes são um pouquinho diferentes, kaputt, vai tudo embora. A opção que não passa pela religião se baseia no seguinte raciocínio: existem essas constantes, e elas poderiam ter outros valores. Portanto, nosso universo não pode ser o único; deve haver um multiverso lá fora, e nosso universo passa a ser uma aberração dentre todos os outros universos que existem. Afinal, há um intervalo muito pequeno para essas constantes de modo que possamos existir, é uma situação de raridade estatística.

Mas há uma terceira opção, que é a minha: nem existe um designer cósmico, nem somos uma raridade estatística dentro de um multiverso, mas simplesmente somos seres humanos limitados que vivemos cercados pelo mistério, e nesse mistério buscamos entender o que está acontecendo da melhor forma possível. As constantes da natureza são esse alfabeto que constrói essa linguagem com a qual descrevemos a natureza. Não existe nada de misterioso nela. É óbvio que, se essas constantes fossem outras, se a relação entre a carga do elétron e a carga do próton (ou a massa do elétron e a massa do próton) fosse diferente, o Sol não existiria, nós não existiríamos. Mas é óbvio que estamos aqui porque essas coisas são assim. O valor das constantes é uma questão a posteriori. Descobrimos isso e agora estamos querendo justificar esse valor de alguma forma. Pode até ser possível essa justificativa, mas acho que não precisamos nem puxar para um lado, nem para o outro.

Em Criação imperfeita, há uma frase que me intriga: “Um mundo assimétrico não pode ser obra de um Deus perfeito”. Isso não é encurtar demais o braço de Deus? Se é justamente a assimetria que tornou possíveis tantas coisas, como seu livro explica, Deus não poderia ter criado um universo assimétrico?

Esse é o argumento de que Deus pode tudo, de todas as maneiras.

É, estamos correndo o risco de ser um pouco voluntaristas aqui.

Então, dentro desse argumento da onipotência divina, tudo é possível. Mas aí não há argumento. Se tudo é possível, sim, dentro dessas várias possibilidades existe o universo assimétrico. Mas, se você olhar para a história da teologia, você vê que a ideia predominante é a da perfeição divina, com a criação refletindo essa perfeição do criador. É interessante entender: se Deus realmente construiu tudo, por que ele criou certas assimetrias ou certos problemas de design que são desagradáveis? Tempos atrás escrevi uma coluna para a Folha de S.Paulo que terminava dizendo “coitado do besouro”, porque se ele cai de cabeça para baixo ele morre, não consegue desvirar. O Deus dos besouros não pode ser um Deus muito simpático. Os pobres dos besouros deveriam ter uma chance.

As descrições da divindade em Criação imperfeita e A ilha do conhecimento costumam ser a do “Deus das lacunas” ou do “Deus relojoeiro” de William Paley e da antiga teologia natural britânica. Não há, mesmo, outras possibilidades?

Uma coisa que confunde muito as pessoas, e também a mim, é a ideia do infinito. É um mistério. Uma vez meu filho me perguntou quanto era “infinito mais infinito”, e eu respondi “infinito”. E zero mais zero? É zero. Ele continuou: “então zero e infinito são os dois únicos números que, somados a si mesmos, dão o mesmo valor?” E eu disse: “E um é o oposto do outro: o zero é nada, o infinito é tudo. Mas o infinito não é um número, é uma ideia”. E é uma ideia profundamente complexa que se estende não só na matemática, mas na imaginação humana. O que complica a discussão sobre a natureza divina é isso. Estávamos falando de onipotência, de tudo ser possível. Eu me lembro de quando escrevi o livro com o frei Betto; estávamos falando sobre isso e eu perguntei “mas e então, qual a saída?” Ele respondeu que via Deus como amor, como a manifestação do amor divino, cósmico; as pessoas carregam isso, todas as criaturas carregam isso de alguma forma, isso é a fagulha divina que nós todos temos. Eu acho essa uma imagem muito bonita, mas não vejo necessidade de chamar esse sentimento de Deus. Podemos chamar de amor. O paradoxo, para mim, está na atribuição desses “superpoderes” que constituem um confronto essencial com a ideia de racionalidade no mundo.

O mais novo projeto de Marcelo Gleiser é um instituto que promoverá o diálogo entre ciência e filosofia. (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

O mais novo projeto de Marcelo Gleiser é um instituto que promoverá o diálogo entre ciência e filosofia. (Foto: Pedro Serápio/Gazeta do Povo)

Seus livros entram sem medo nenhum em temas filosóficos…

Eu sou membro da Academia Brasileira de Filosofia, e A ilha do conhecimento é essencialmente um livro sobre epistemologia, sobre a natureza do conhecimento. Fiquei muito feliz quando alguns filósofos americanos de renome disseram que gostaram das minhas ideias, porque em geral eles têm essa atitude de “não pise no meu pé”. Estou entrando cada vez mais por esse caminho.

E por que criar um instituto para fomentar o diálogo entre ciência e filosofia?

A ideia fundamental é a seguinte: existem certas questões que hoje estão na fronteira científica, mas que já fazem parte de um diálogo humanista há milênios. E hoje não podem ser respondidas nem por uma, nem por outra. Pensemos no livre arbítrio. Há cientistas neurocognitivos e até físicos trabalhando nisso, mas também há filósofos e teólogos. Então, para se ter uma visão coerente – eu gosto de falar em “complementar” – é preciso reconhecer que existe uma complementariedade no saber e que tanto a ciência quanto as humanidades têm muito a aprender umas com as outras.

Como será o trabalho desse instituto?

Começaremos em julho, e é uma ideia que eu queria trazer pro Brasil. Teremos diálogos públicos em grandes cidades americanas, começando por Nova York, com um cientista e um humanista, ou líder espiritual, ambos de renome – eventualmente haverá um livro com as transcrições desses debates. No primeiro deles, o neurocientista Antonio Damasio e o filósofo David Chalmers vão falar sobre o mistério da consciência humana. Teremos também um programa de fellows, com pesquisadores famosos e iniciantes tentando trabalhar as interfaces entre ciência e humanidades. E, ainda, dois grandes cursos on-line, um ministrado por mim, sobre A ilha do conhecimento e com tradução em português, e o outro sobre livre arbítrio, produzido por um neurocientista que também é muito filosófico.

O financiamento para esse instituto é da Fundação John Templeton, para a qual o ateísmo militante torce o nariz. Como é trabalhar com essa organização?

Temos dois grupos de cientistas. Há muitos físicos muito famosos que ganham bolsas da Templeton. São do mundo inteiro, mas especialmente americanos e britânicos. E há os que não querem nem saber disso, porque a Templeton tem uma história cristã. Bobagem. Uma bolsa gigantesca como essa que recebi não teve praticamente nenhuma exigência por parte da fundação. Nisso eles são totalmente liberais. É claro que eles querem que haja um componente espiritual. Bom, eu sou uma pessoa espiritual, faço ciência porque sou uma pessoa espiritual. Acho sensacional que uma fundação com uma base religiosa esteja bancando projetos não apenas em física, mas em várias outras áreas, projetos que governos jamais financiariam, pois são pesquisas de alto risco e governos só financiam pesquisas de baixo risco. Não vejo o menor problema em trabalhar com a Templeton. Se acontecer algo mais adiante, posso repensar, mas atualmente nossa relação é muito boa.

(Aviso: A Fundação John Templeton, citada neste post, ajudou a bancar a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 01/04/16 12:43:40 PM

Em muitos debates sobre ciência e religião, sempre tem alguém que pensa estar arrasando e dando a paulada definitiva com a pergunta “mas quem criou Deus?”, esquecendo que uma das características de Deus é justamente ser o incriado, a causa primeira de tudo o que há. Esse tipo de tosquice podemos descartar sem dó. Mas existe um certo Deus que foi, sim, criado. Isso ficou claro para quem pôde participar dos encontros que a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência está realizando em várias cidades brasileiras (confira a agenda no site deles). Estive no evento de Curitiba e, em uma das palestras, o Guilherme de Carvalho nos trouxe um ponto de vista interessantíssimo sobre a origem de um velho conhecido nosso, o “Deus das lacunas”. E seu criador é, por incrível que possa parecer, a teologia natural inglesa.

A analogia do "Deus relojoeiro" de William Paley deu origem a uma visão complicada da relação entre Deus e o universo.

A analogia do “Deus relojoeiro” de William Paley deu origem a uma visão complicada da relação entre Deus e o universo. (Foto: Samuel Alves Rosa/Free Images)

A teologia natural – ou seja, a busca por Deus a partir dos atributos da natureza – já existia bem antes dos ingleses; o próprio termo já tinha sido usado na época dos romanos. Mas foram mesmo os ingleses que a levaram ao ápice, especialmente graças ao trabalho de William Paley, autor de uma obra chamada justamente Teologia Natural. É nela que está a famosa história do relojoeiro: se você encontra um relógio no meio do mato, deve presumir que algo tão intrincado e que funciona tão bem não surgiu, ou se montou, espontaneamente: houve alguém que trabalhou ali, um designer, um criador. Ora, se é assim com um relógio, não seria assim também com a natureza?

Esse é um resumo simples da analogia, mas é suficiente para demonstrar aonde queremos chegar. O problema do relojoeiro é que ele, depois de montar o relógio, lhe dá a corda e sai completamente de cena. Não sobra nenhum sinal dele. No máximo, o que o relojoeiro vai fazer é consertar o relógio quando ele apresenta algum defeito, ou dar mais corda quando ela estiver no fim. Se Deus é o “relojoeiro do universo”, como pretendiam os teólogos naturais ingleses, Ele não pode ser visto quando o universo está funcionando bem; na verdade, só ficamos sabendo que há um “relojoeiro” nas intervenções extraordinárias. Ora, o que é isso senão o conceito de “Deus das lacunas”, aquela divindade que surge como explicação para as grandes questões para as quais (ainda) não há uma resposta da ciência? Guilherme de Carvalho ainda acrescenta que é justamente essa mentalidade que levou ao Design Inteligente, segundo o qual Deus está nas modificações extraordinárias e some no ordinário.

Charles Darwin tinha sido leitor de William Paley, e Carvalho diz que o naturalista inglês, ao perder a fé, deixou de acreditar nesse Deus de Paley. Afinal, Darwin havia descoberto que o relógio não foi simplesmente feito e largado na floresta, como na analogia de Paley. O relógio do universo estava, na verdade, se fazendo a si mesmo. O salto que Darwin não deu foi concluir que as leis que permitiam ao universo construir a si mesmo, essas, sim, vinham de um criador. Aqui não nos cabe indagar os porquês de Darwin; basta saber que ele nos revelou um mundo bem mais fascinante que aquele proposto por Paley. Carvalho ainda citou John Newman – clérigo anglicano que depois se tornou cardeal católico –, para quem talvez tivéssemos mesmo que perder a fé neste Deus mostrado por Paley e seus colegas.

Isso não significa que não deva haver uma teologia natural; significa apenas que aquela corrente específica da teologia natural inglesa, que podemos chamar também de “physical theology“, ou “teologia física”, tinha seus méritos, mas seus perigos. E um deles foi justamente imaginar a relação de Deus como o mundo como a de um engenheiro mecânico, ou um relojoeiro. “O problema é que a própria relação de Deus com o mundo, nessa visão, se torna também mecânica. Isso pode ser usado como metáfora parcial, mas, quando se torna a nossa definição teológica central, então pode mesmo ser outro Deus, como argumentou Newman”, acrescenta Carvalho.

Então, o que precisamos é de uma nova teologia natural (e os ingleses, sempre eles, já estão trabalhando nisso), uma que tenha Deus como pressuposto, ponto de partida, e não como ponto final ou conclusão. Em vez de a natureza conduzir à graça, ver que a natureza está contida na graça. Isso nos permite ver o famoso trecho do Salmo 18(19) segundo o qual “Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” de uma outra forma.

glaciar Perito Moreno (Argentina)

Na “nova teologia natural”, não se parte da grandiosidade da natureza para se concluir a existência de Deus; a natureza é um elemento que ajuda a refletir sobre a grandeza de Deus. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Enquanto eu ouvia a palestra, lembrei de um trecho de Os quatro amores, de C.S.Lewis, que parece se encaixar no que estamos dizendo aqui. Lewis diz:

Se você adota a natureza como mestra, ela lhe ensina exatamente as lições que você decidiu aprender antecipadamente; em outras palavras, a natureza não ensina (…) devemos aprender nossa teologia ou filosofia em outros lugares (supreendentemente, muitas vezes nós as aprendemos com teólogos e filósofos). (…) A natureza nunca me ensinou que existe um Deus de glória e infinita majestade. Tive que aprender isso de outras maneiras. Mas a natureza deu à palavra “glória” um significado para mim. (…) Uma filosofia verdadeira pode, às vezes, validar uma experiência da natureza, mas uma experiência da natureza não pode validar uma filosofia. A natureza não confirma nenhuma proposição teológica ou metafísica (ao menos não do modo de que estamos tratando), mas ajuda a demonstrar o que essa proposição significa. E isso, dentro das premissas cristãs, não é acidental. Pode-se esperar que a glória criada nos forneça indícios da glória incriada; uma é derivada da outra e a reflete de algum modo. De algum modo. Mas talvez não de um modo tão simples e direto quando poderíamos supor num primeiro momento.

O que Lewis está dizendo é que não podemos descartar a natureza – ela, como afirmou o escritor, nos dá indícios da “glória incriada” e a reflete. Mas não é um caminho em linha reta do criado para o incriado. Há a necessidade de uma teologia natural. Mas uma que saiba ver a ação de Deus no ordinário, no funcionamento regular do universo, e não nas intervenções extraordinárias.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 24/03/16 12:13:03 PM

O debate sobre ciência e religião (assim como, arrisco dizer, inúmeros outros debates) é campo fértil para rótulos que “ajudem” a identificar de que lado as pessoas estão. Alguns desses rótulos são autoimpostos, outros são criados por estudiosos do tema, e há sempre aqueles lançados pelos adversários. “Acomodacionista”, por exemplo, é usado para designar aqueles, religiosos ou não, que defendem a compatibilidade, em maior ou menor grau, entre ciência e fé. Ateus militantes (olha outro rótulo aí) adoram usá-lo como insulto, especialmente contra outros ateus ou agnósticos que não compartilham do seu desprezo pela religião. Os alvos parecem não se incomodar tanto assim, embora eu considere que no termo está embutida a ideia de que seria necessária alguma gambiarra intelectual para “acomodar” ideias opostas entre si.

jungle monkey

Precisamos mesmo colocar um adjetivo em “evolução” para dar a entender que vemos propósito nos processos evolutivos? (Foto: kimji/FreeImages.com)

O rótulo da vez é “evolução teísta”. A expressão serve para designar a adesão à Teoria da Evolução, mas considerando também que todo o processo tem a participação divina, seja no desenho das leis da seleção natural, seja em algum tipo de “direcionamento” para que as coisas tomassem o rumo que tomaram (ou seja, na direção de seres inteligentes e conscientes capazes de um relacionamento pessoal com a divindade).

A professora Stacy Trasancos não gosta do termo, assim como outros católicos que defendem com unhas e dentes a evolução. Para ela, a expressão tem problemas, como ser redundante: “Pense: se você tem fé, já está implícito que você vê todos os processos físicos e biológicos como tendo sido criados e mantidos por Deus”, ela diz. Além disso, o adjetivo deixa implícita a possibilidade de existir uma “evolução ateísta“, ou seja, a ideia de que Deus não esteja envolvido na criação das leis da natureza.

No fim, evolução é evolução e ponto final. “Vamos deixar de fora os adjetivos desnecessários e tratar a ciência evolucionária como uma ciência física e biológica. Recuse-se a tratá-la como algo além disso. Julgue-a pelos seus méritos científicos ou pela falta deles”, diz Stacy. No fim, a discussão foi parar até na Forbes.

Ontem à noite, gravei um podcast com o André Brandalise e o Reinaldo Lopes e acabamos tratando um pouquinho do tema sem entrar nos rótulos. Uma das perguntas que levantamos era a da possibilidade de haver um propósito na evolução. Eu acho que há, mas isso não tem nada a ver com o trabalho dos cientistas que pesquisam os processos evolutivos. Quando eu afirmo que há um propósito na evolução, ou que as leis da seleção natural foram criadas por Deus, estou fazendo afirmações filosóficas e teológicas. Assim como quem nega qualquer propósito na evolução também está entrando no campo da filosofia, por mais que relute em admitir isso. Nesse sentido, acho que Stacy está certa: a evolução deve ser avaliada do ponto de vista puramente científico. Considerações de cunho filosófico ou teológico são pertinentes, mas não “alteram” a ciência da evolução a ponto de justificar que lhe tasquemos um adjetivo.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 11/03/16 7:42:22 PM

A PUCPR divulgou a programação completa do Átrio dos Gentios, que ocorrerá de 11 a 13 de abril em Curitiba, e abriu as inscrições para o evento. Além do que já havíamos antecipado aqui no blog, já estão confirmados uma sessão comentada do filme Seleção Natural e um encontro entre o astrofísico Alexandre Zabot e o professor Marcelo Mira, ambos no primeiro dia do evento, aquele que terá ciência e religião como tema e se encerra com o encontro entre Marcelo Gleiser e o cardeal Gianfranco Ravasi. Outro evento que destaco é o que abre o terceiro dia do Átrio, com a participação de Cristóvão Tezza e Marcelo Coelho, nomes de peso que não estavam confirmados quando do evento que lançou o Átrio, dias atrás.

Cardeal Gianfranco Ravasi

O cardeal italiano Gianfranco Ravasi participará de vários dos eventos que compõem o Átrio dos Gentios. (Foto: AFP)

A inscrição é gratuita e os interessados podem escolher quantos eventos quiserem, de acordo com a disponibilidade e o interesse de cada um. Eu, se fosse você, correria para garantir presença!

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