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Tubo de Ensaio

Enviado por Marcio Antonio Campos, 31/07/15 7:30:13 PM

A comunidade astronômica ficou animada com a descoberta do Kepler 452b, um planeta com características semelhantes às da Terra, especialmente no sentido de reunir algumas das condições para a existência de alguma forma de vida. Aparentemente, alguns veículos de imprensa resolveram procurar o Vaticano para falar a respeito. E, nesse caso, o caminho certo é procurar os jesuítas do Observatório Vaticano, especialmente seu diretor, o padre José Funes, ou o irmão Guy Consolmagno (que geralmente fala mais à mídia de língua inglesa).

Concepção artística do Kepler 452b

Concepção artística do Kepler 452b: jornalistas foram atrás da opinião “do Vaticano” sobre vida extraterrestre, mais uma vez. (Imagem: Nasa Ames/JPL-Caltech/T. Pyle)

Ao Tg2000, jornal televisivo italiano, Funes afirmou não acreditar que encontraremos vida “em ato”. “É possível que encontremos planetas que reúnam as condições nas quais se possa desenvolver vida, planetas onde talvez esteja em curso um processo de desenvolvimento de vida. Mais que isso não podemos dizer, o único caso de um planeta que abriga vida é o nosso”. À agência France Presse, Funes explicou um pouco mais, embora pareça se contradizer em relação ao que disse na televisão italiana: nas palavras do diretor do Observatório, pode até ser que haja vida, e vida inteligente, mas jamais saberemos, por causa das grandes distâncias que nos separam de Kepler 452b.

O que realmente me incomoda nessa última reportagem não são as declarações de Funes, mas o título “Vaticano diz…”, como se houvesse alguma autoridade doutrinal nas palavras do diretor do Observatório Vaticano. Essa é a avaliação dele como especialista científico, não carrega nenhum peso moral ou de doutrina. Suspeito que tenha sido coisa da AFP, que já cometeu erros muito piores na cobertura da Igreja Católica; surpreende-me é que a Rádio Vaticana tenha usado esse palavreado.

É claro que, quando vão atrás do Vaticano para algo assim, o que os jornalistas realmente querem saber é se existe alguma implicação teológica caso um dia encontremos vida (especialmente vida inteligente) fora do nosso planeta. A esse respeito, Ruth Bancewicz publicou recentemente em seu blog um texto sobre a palestra de David Wilkinson no curso de verão do Instituto Faraday deste ano, em Cambridge. Wilkinson listou vários teólogos cristãos e suas visões sobre o tema, que passam por aspectos como a onipotência divina e o papel especial do homem na criação. O site do Faraday não tem o vídeo da palestra deste ano, mas no curso do ano passado ele falou sobre o mesmo tema. Não há link direto: para ver ou ouvir, clique aqui e ou vá até a página 54, ou digite “Wilkinson” na ferramenta de busca.

Além disso, em 2009, quando escrevi no blog sobre o multiverso, também tratei um pouco das possíveis implicações teológicas da existência de vida fora da Terra. E o Alexandre Zabot, que é da área, também tem um ótimo texto sobre vida fora da Terra cuja leitura eu recomendo muito.

(Aviso: o Instituto Faraday, citado neste post, deu ao blogueiro uma bolsa para participar de um curso na Universidade de Cambridge, em 2011)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 31/07/15 4:43:50 PM

Marquem na agenda: em 12 de agosto, às 20 horas, no Studium Theologicum de Curitiba, o pesquisador Evaristo Eduardo de Miranda, doutor em Ecologia, coordenador do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica (Gite) da Embrapa e diretor do Instituto Ciência e Fé, dará uma palestra sobre a Laudato Si’, a encíclica ambiental do papa Francisco. O evento é promovido pelo instituto, que está comemorando 20 anos em 2015, e pelo Studium.

papa Francisco em missa no Paraguai

O papa Francisco, na “Laudato Si'”, trata da questão ambiental e afirma que sua raiz está na crise moral. (Foto: Alessandro Bianchi/Reuters)

Miranda, que foi consultor na Rio-92 e já lecionou na USP, publicou, no Estadão de 25 de julho, um artigo sobre a encíclica. Não sei se a palestra seguirá pela mesma linha, mas o texto serve de aperitivo.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 30/07/15 11:27:28 AM

Mais uma oportunidade lançada pelo projeto Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina, espécie de “continuação” do projeto Ciência e Religião na América Latina, ambos do Ian Ramsey Centre for Science and Religion da Universidade de Oxford. Agora são quatro bolsas de até US$ 30 mil e outras seis bolsas de US$ 15 mil para indivíduos ou grupos de pesquisadores de instituições latino-americanas de ensino superior, interessados em projetos interdisciplinares envolvendo praticamente qualquer tema dentro do amplo guarda-chuva “Perspectivas sobre a vida, as pessoas e o cosmos”. Elenco aqui apenas algumas das possibilidades, tiradas do próprio site do projeto: A matéria tem uma propensão à vida? O cérebro, a mente e a pessoa humana: as pessoas são seus cérebros? O conceito de livre arbítrio seria redundante sob o conhecimento dos experimentos do tipo Libet e outros trabalhos contemporâneos da neurociência? Dentre os possíveis significados do termo “criação” por um Deus pessoal, qual, se algum, é o mais apropriado para entender as origens do cosmos hoje? Vejam a lista completa de temas e um link com mais informações.

Santiago, no Chile, receberá o congresso de ciência e religião em 2017.

Os responsáveis pelos projetos contemplados com bolsas apresentarão os resultados em um congresso que será realizado em Santiago, no Chile, em 2017. (Foto: Victor San Martin/Flickr/Wikimedia Commons)

Agora, atenção para os prazos! Um deles está praticamente no fim: é preciso enviar uma carta de intenções até amanhã, com algumas informações. Os projetos precisam ser enviados até 30 de setembro. Depois disso, haverá uma seleção; o resultado sai em novembro deste ano e a pesquisa propriamente dita será feita de fevereiro de 2016 a junho de 2017, quando todos os projetos deverão estar prontos. O pesquisador, ou um dos integrantes do grupo, ainda receberá ajuda para participar de um congresso em Santiago, no Chile, em julho de 2017.

(Aviso: A Fundação John Templeton, que ajuda a financiar o projeto Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina, e o Centro Ian Ramsey bancaram a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 23/07/15 11:06:29 AM

A Quaerentibus, revista on-line latino-americana de ciência e religião, lançou número novo. É a quinta edição deste que é um feliz resultado do projeto Ciência e Religião na América Latina, da Universidade de Oxford.

Capa da Quaerentibus 5

A “Quaerentibus” 5 abre com um artigo de um grupo de pesquisadores brasileiros. (Imagem: Reprodução)

O número 5, em versão PDF, pode ser lido ou baixado aqui, e neste outro link você pode consultar todas as edições anteriores da Quaerentibus.

Este novo número abre com um artigo de um grupo de pesquisadores brasileiros, que tem entre seus integrantes o Heslley Machado Silva, que conheci no workshop em Oxford, em 2013, e até já colaborou para o Tubo de Ensaio com um artigo. O grupo pegou algumas das questões do relatório britânico Rescuing Darwin e as aplicou no Brasil, acrescentando outras perguntas de elaboração própria. O artigo se dedica a analisar as respostas a uma das questões: diante da frase que descreve o criacionismo de Terra jovem, os entrevistados tinham que escolher uma resposta que variava desde o “certamente verdadeiro” até o “certamente falso” passando pelo “provavelmente falso”, “provavelmente verdadeiro” e pelo “não sei”. Foram feitos recortes por escolaridade e afiliação religiosa. Não vou estragar a surpresa, leiam os artigos vocês mesmos e descubram. Os pesquisadores ainda fazem diversas reflexões muito pertinentes sobre o ensino da evolução nas escolas, partindo principalmente dos resultados da pesquisa entre os entrevistados de maior escolaridade.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 20/07/15 12:13:10 PM

Em 2011, quando fui para a Cidade do México participar do VI Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião, conheci o professor Alexander Moreira-Almeida, do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora, e o padre Andrew Pinsent, do Centro Ian Ramsey para Ciência e Religião, da Universidade de Oxford. Ambos fazem um trabalho sensacional na área e por isso queria compartilhar com vocês esta entrevista em vídeo, feita dois anos atrás, quando Pinsent esteve no Brasil para um evento na UFJF. Os entrevistadores, além de Moreira-Almeida, são Valéria Borges, jornalista, e Maria Cristina Andreolli, também professora.

A conversa gira em torno de vários temas, como a origem do discurso sobre o conflito entre ciência e fé, as limitações de cada campo na compreensão da totalidade da realidade, as implicações de descobertas recentes da Física, o cuidado para não considerar como prova da existência de Deus aquilo que não o é, como fomentar o diálogo entre ciência e fé, os milagres, criacionismo e evolução, o motivo de uma universidade de ponta como Oxford se ocupar de ciência e religião, e a necessidade de melhorar o ensino de Filosofia nas escolas.

padre Andrew Pinsent

Antes de se tornar padre, Andrew Pinsent trabalhou no Cern e passou algum tempo no Brasil como consultor. (Foto: Reprodução/YouTube)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 01/07/15 7:44:14 PM

Quando escrevi sobre a encíclica ambiental do papa Francisco, a Laudato Si’, fiz dois comentários. No post sobre a expectativa em relação à divulgação do texto final, e como os cientistas estavam ansiosos por ver uma avaliação moral sobre a questão climática, comentei:

Lawrence Krauss criticou o papa Francisco por suas observações contra o antinatalismo e o aborto na encíclica "Laudato Si'"

Lawrence Krauss criticou o papa Francisco por suas observações contra o antinatalismo e o aborto na encíclica “Laudato Si'”. (Foto: Divulgação)

“Parece que agora a mesma comunidade científica que não dá a mínima para considerações morais quando se trata de destruir embriões, por exemplo, vai jogar confete no papa, mas quando ele voltar a falar da dignidade da pessoa humana desde a concepção até a morte natural, veremos muito cientista olhando para o lado e fingindo que não tem nada a ver com isso.”

Depois, no dia do lançamento do texto papal, já comentando o texto, lembrei:

“É por causa desse papel especial do ser humano dentro da criação que Francisco faz questão de apontar a hipocrisia daqueles que se dizem defensores do meio ambiente, mas tratam o ser humano como criatura de segunda categoria (91), favorecendo o antinatalismo (50), o aborto (120, 123) e a pesquisa com embriões humanos (117, 136). Lembram do que eu escrevi ontem aqui no blog, sobre a animação dos cientistas por ter uma ‘aprovação moral’ do papa para os alertas ambientais? Pois bem, vejamos se essa parte será recebida da mesma maneira por esses mesmos cientistas…”

Bom, parece que acertei na mosca. Lawrence Krauss, nosso velho conhecido aqui, o homem que não sabe o que é o “nada” (ou talvez saiba muito bem) e por isso teve de subverter o conceito para fazê-lo caber em sua ideologia, escreveu como blogueiro convidado no site da Scientific American. Primeiro, elogia a disposição do papa em usar dados científicos para fazer suas considerações sobre a necessidade de proteger o meio ambiente, mas depois passa a criticar Francisco exatamente pelos pontos que citei acima: a crítica do papa ao antinatalismo e à defesa do aborto. Para Krauss, a pregação doutrinal do papa pode comprometer toda a “parte boa” da encíclica por causa de “sua adesão a doutrinas que são baseadas em revelação, e não em ciência”. Ainda mais quando se trata de “doutrinas que emperram o verdadeiro progresso”. E Krauss usa isso para ressuscitar a velha tese de que ciência e religião são naturalmente adversárias, etc. etc. etc.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/06/15 2:55:31 PM

Já está no ar a íntegra, em português e diversos outros idiomas, da encíclica Laudato Si’, a primeira escrita integralmente pelo papa Francisco (lembremo-nos de que Lumen Fidei foi um trabalho a quatro mãos, iniciado por Bento XVI), e que trata da questão ambiental, que aparece nos discursos do papa argentino praticamente desde o início do seu pontificado.

Apresentação da nova encíclica no Vaticano: pela primeira vez um papa dedica um documento inteiro a questões ambientais. (Foto: Max Rossi/Reuters)

Apresentação da nova encíclica no Vaticano: pela primeira vez um papa dedica um documento inteiro a questões ambientais. (Foto: Max Rossi/Reuters)

Há quem questione a escolha do tema. Por que um papa escreveria sobre o meio ambiente? Respondo com outra pergunta: por que não? Uma das primeiras coisas que, no relato da criação, Deus pede ao homem é que cuide daquilo que Deus criou. Francisco faz a diferenciação entre a postura correta, do homem como “guardião” da criação, daquela de “proprietário dominador” (2, 66 e 67 – os números sempre serão referência aos parágrafos da encíclica), e defende a tradição judaico-cristã da acusação surgida nos anos 60 do século passado, de que as religiões monoteístas justificariam a degradação ambiental em contraste com outras religiões que, ao divinizar os elementos da natureza, favoreceriam sua preservação (67). Além disso, escrever sobre o meio ambiente é importante porque, na tradição cristã, a criação revela o criador (12, 85 a 87), outro motivo pelo qual se deve preservá-la.

Não li ainda muitas análises sobre a encíclica, mas minha impressão é a de que elas vão se concentrar no capítulo 1, que faz um diagnóstico dos problemas ambientais, recorrendo ao consenso (ou, em alguns casos, não tão consenso assim) científico sobre temas como mudanças climáticas; ou vão priorizar os capítulos finais, que trazem as prescrições do papa em diversos níveis. Ainda não vi manchetes do tipo “Papa manda desligar o ar condicionado”, mas não descartaria algo assim… (ou, pior, “Papa diz que usar ar condicionado é pecado”). Meu objetivo aqui não é tanto fazer uma análise linear da encíclica, de cabo a rabo, mas destacar algumas ideias que a norteiam.

O cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz

O cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, ajudou a escrever a encíclica e esteve na entrevista coletiva de lançamento. (Foto: Max Rossi/Reuters)

O centro da encíclica é, sem dúvida, o capítulo 3, justamente aquele que, creio eu, receberá menos destaque na cobertura jornalística. Ali o papa defenderá que a crise ecológica é, antes de mais nada, resultado de uma crise moral que se manifesta em vários aspectos. Um deles é a “confiança cega nas soluções técnicas”, o primado da tecnologia. Desde o início da encíclica Francisco já vinha tocando no tema (14, 19, 60, 78), mas o desenvolverá melhor neste capítulo (102 a 114), inclusive denunciando a mentalidade do might makes right, a noção de que o fato de algo ser tecnicamente viável também o torna moralmente lícito (105). O antropocentrismo desordenado (115 a 121) e o relativismo moral e ético, que, ironicamente, absolutiza as vontades e convicções individuais desprezando a busca pela verdade objetiva (6, 75, 122, 123), também são alvo das críticas do papa.

Mas, se o antropocentrismo desordenado é um erro, também o é reduzir o papel do ser humano a ponto de fazer do meio ambiente um fim em si mesmo (118). Francisco, em continuidade com o pensamento de Bento XVI, recorda em vários pontos que o homem tem uma dignidade especial (43, 65, 69, 81 – aqui com um aceno simpático à teoria da evolução), e já posso ouvir gente chamando o papa de “especista” por isso. O mesmo ser humano cujo comportamento é causa de problemas ambientais também é o responsável por buscar as soluções (53, 58, 60, 118), e o papa não defende uma noção de que o planeta deve permanecer intocado; pelo contrário, valoriza o trabalho humano que transforma a natureza (124 a 129) e lembra que a pesquisa biotecnológica, se bem conduzida, beneficia a humanidade (130 a 135).

É por causa desse papel especial do ser humano dentro da criação que Francisco faz questão de apontar a hipocrisia daqueles que se dizem defensores do meio ambiente, mas tratam o ser humano como criatura de segunda categoria (91), favorecendo o antinatalismo (50), o aborto (120, 123) e a pesquisa com embriões humanos (117, 136). Lembram do que eu escrevi ontem aqui no blog, sobre a animação dos cientistas por ter uma “aprovação moral” do papa para os alertas ambientais? Pois bem, vejamos se essa parte será recebida da mesma maneira por esses mesmos cientistas…

E é só à luz do capítulo 3 da encíclica que será possível compreender os capítulos seguintes, em que o papa oferece prescrições práticas nos mais diversos níveis: no capítulo 4, tratará da dimensão comunitária, com ênfase no planejamento urbano; no capítulo 5, aborda o âmbito político-institucional, incluindo tratados e conferências internacionais; e, no capítulo 6, faz um apelo à consciência de cada indivíduo para que repense comportamentos e pequenas ações diárias que contribuem com a degradação ambiental. Sem essa base oferecida pelo capítulo 3, os pedidos do papa soarão como ingênuos ou utópicos.

Desde o início do seu pontificado, Francisco falou diversas vezes sobre o cuidado com o meio ambiente.

Desde o início do seu pontificado, Francisco falou diversas vezes sobre o cuidado com o meio ambiente. (Foto: Max Rossi/Reuters)

É no capítulo 5 que Francisco dedica três parágrafos à relação entre ciência e religião. Esses vão transcritos abaixo:

199. Não se pode sustentar que as ciências empíricas expliquem completamente a vida, a essência íntima de todas as criaturas e o conjunto da realidade. Isto seria ultrapassar indevidamente os seus confins metodológicos limitados. Se se reflete dentro deste quadro restrito, desaparecem a sensibilidade estética, a poesia e ainda a capacidade da razão perceber o sentido e a finalidade das coisas. Quero lembrar que “os textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora que abre sempre novos horizontes (…). Será razoável e inteligente relegá-los para a obscuridade, só porque nasceram no contexto duma crença religiosa?” Realmente, é ingênuo pensar que os princípios éticos possam ser apresentados de modo puramente abstrato, desligados de todo o contexto, e o fato de aparecerem com uma linguagem religiosa não lhes tira valor algum no debate público. Os princípios éticos que a razão é capaz de perceber sempre podem reaparecer sob distintas roupagens e expressos com linguagens diferentes, incluindo a religiosa.

200. Além disso, qualquer solução técnica que as ciências pretendam oferecer será impotente para resolver os graves problemas do mundo se a humanidade perde o seu rumo, se esquece as grandes motivações que tornam possível a convivência social, o sacrifício, a bondade. Em todo caso, será preciso fazer apelo aos crentes para que sejam coerentes com a sua própria fé e não a contradigam com as suas ações; será necessário insistir para que se abram novamente à graça de Deus e se nutram profundamente das próprias convicções sobre o amor, a justiça e a paz. Se às vezes uma má compreensão dos nossos princípios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos reconhecer que então fomos infiéis ao tesouro de sabedoria que devíamos guardar. Muitas vezes os limites culturais de distintas épocas condicionaram esta consciência do próprio patrimônio ético e espiritual, mas é precisamente o regresso às respectivas fontes que permite às religiões responder melhor às necessidades atuais.

201. A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a estabelecerem diálogo entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade. De igual modo é indispensável um diálogo entre as próprias ciências, porque cada uma costuma fechar-se nos limites da sua própria linguagem, e a especialização tende a converter-se em isolamento e absolutização do próprio saber. Isto impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente. Torna-se necessário também um diálogo aberto e respeitador dos diferentes movimentos ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas. A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que “a realidade é superior à ideia”.

Como sempre, recomendo a leitura integral do texto do papa Francisco. Não apenas para os católicos, que, por compartilhar da mesma fé que guia o papa, encontrarão muito material para reflexão, mas também para todos os que se preocupam com o meio ambiente, independentemente de religião, pois os conselhos do papa transcendem filiações religiosas.

Um detalhe que passou despercebido: um dos cientistas apontados como consultores do papa para a redação da encíclica, Hans Schellnhuber, foi indicado por Francisco para integrar a Pontifícia Academia de Ciências. A nomeação saiu ontem.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 17/06/15 3:13:11 PM

O blogueiro esteve em férias de maio até o começo de junho, e volta em uma semana que não poderia ser mais animada para o nosso tema: amanhã será divulgado o texto oficial da encíclica Laudato si’ (“Louvado seja”, não em latim, mas em italiano antigo, o idioma em que São Francisco de Assis compôs o seu Cântico das Criaturas), do papa Francisco, sobre o meio ambiente. Ela já rendeu uma confusão considerável entre os jornalistas no Vaticano depois que Sandro Magister divulgou o que parece ser uma versão quase final do texto e teve sua credencial revogada. Por via das dúvidas, espero o texto definitivo amanhã no site do Vaticano.

O papa Francisco chega à Praça de São Pedro para uma audiência

O papa Francisco chega à Praça de São Pedro para uma audiência: comunidade científica aguarda com ansiedade nova encíclica (Foto: Giampiero Sposito/Reuters)

No Estadão, ficamos sabendo que a comunidade científica aguarda com ansiedade o texto por uma razão bem simples: o papa pode tratar do tema como uma questão moral, coisa que os cientistas não podem fazer, e isso daria mais respaldo aos alertas feitos sobre a degradação do meio ambiente.

A respeito disso, um amigo, cientista, comentou algo bem interessante: no fim das contas, todos querem saber o que a Igreja pensa sobre determinado assunto, e adoraria que ela se amoldasse ao pensamento deles, como uma criança desobediente ou levada que mesmo assim espera a aprovação dos pais. Parece que agora a mesma comunidade científica que não dá a mínima para considerações morais quando se trata de destruir embriões, por exemplo, vai jogar confete no papa, mas quando ele voltar a falar da dignidade da pessoa humana desde a concepção até a morte natural, veremos muito cientista olhando para o lado e fingindo que não tem nada a ver com isso.

Esperemos para ver o que virá amanhã. Da parte da cobertura jornalística, espero (infelizmente) uma quantidade considerável de baboseira sobre como Francisco é o papa que está reconciliando Igreja e ciência, e não descarto que algumas reportagens tratem como inédita a preocupação ambiental por parte de um papa, ignorando tudo que os antecessores de Francisco já disseram e escreveram sobre o tema. Não foi a mesma coisa quando Francisco falou do Big Bang e da evolução?

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 23/04/15 12:17:05 PM

A Igreja do Nazareno (Church of the Nazarene), nos Estados Unidos, tem oito instituições de ensino nos Estados Unidos, e está no centro de uma controvérsia após o reitor de uma das faculdades, a Northwest Nazarene University (NNU), ter demitido por e-mail um de seus professores, o teólogo Tom Oord, enquanto ele estava no Havaí, de folga.

thomas oord

Tom Oord é teólogo e defende a conciliação entre evolução e Cristianismo. Há quem diga que isso levou à sua demissão de uma universidade protestante. (Foto: Divulgação)

O motivo oficialmente alegado foi corte de custos. No entanto, há quem esteja convencido de que o problema é outro: Oord é um firme defensor da teoria da evolução e de sua conciliação com o Cristianismo, entendendo os processos de seleção natural como a maneira escolhida por Deus para criar a variedade de vida na Terra, e isso teria motivado sua demissão. Para os criacionistas e adversários de Oord, isso estaria em conflito com a profissão de fé da universidade, segundo a qual a Bíblia, divinamente inspirada, “contém toda a verdade necessária para a fé e a vida cristã”. Questão de interpretação, pois não vejo problema nenhum em considerar a Escritura verdadeira e divinamente inspirada e aceitar a evolução. Mas há quem veja nisso uma heresia.

Oord tem outras opiniões mais controversas, como a de que Deus não conhece o futuro. Karl Giberson, outro defensor da evolução e que já foi colega de Oord em outra das faculdades da Igreja do Nazareno, o Eastern Nazarene College, explica o caso em um artigo e mostra que a defesa da evolução já motivou a saída de outros professores, inclusive o próprio Giberson. Dias atrás, o reitor da NNU aparentemente recuou da decisão em uma carta endereçada à universidade após ter recebido uma espécie de “voto de desconfiança”. Pediu desculpas pela deselegância de demitir alguém por e-mail durante a folga do demitido, e disse que a demissão está temporariamente suspensa.

Não é uma situação fácil. Eu acredito no direito de uma instituição de ensino confessional a agir para que, dentro de seus muros, seus ensinamentos sejam respeitados. Como católico, por exemplo, acho absurdo que escolas e universidades católicas aceitem tranquilamente que alguns de seus professores defendam o aborto ou insultem o papa, como já vi acontecer por aí. Mas no caso da evolução temos dois problemas. O primeiro é de ordem geral: convenhamos, a evolução é a melhor explicação que há para a variedade de vida na Terra. É algo básico para entender a biologia. O segundo problema diz respeito à Igreja do Nazareno: a profissão de fé da denominação é vaga o suficiente para acomodar uma visão que concilie evolução e fé cristã, então pelo menos neste aspecto não haveria por que condenar Oord.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 20/04/15 8:44:05 PM

Começou ontem, em Turim, uma nova exposição do Santo Sudário, que vai até 24 de junho, por ocasião do bicentenário do nascimento de São João Bosco. O papa Francisco não esteve presente no primeiro dia de exposição; ele tem viagem programada para Turim nos dias 21 e 22 de junho. Mesmo assim, ele falou do Sudário no Regina Coeli de ontem, na Praça de São Pedro: “Começa hoje, em Turim, a solene exibição do Santo Sudário. Também eu, se Deus quiser, irei venerá-lo no próximo dia 21 de junho. Desejo que esse ato de veneração nos ajude a todos a encontrar em Jesus Cristo o Rosto misericordioso de Deus, e a reconhecê-lo no rosto dos irmãos, especialmente os que mais sofrem”.

O Sudário está em exibição na Catedral de Turim até o fim de junho. (Foto: Giorgio Perottino/Reuters)

O Sudário está em exibição na Catedral de Turim até o fim de junho. (Foto: Giorgio Perottino/Reuters)

O Sudário é certamente um dos mais intrigantes objetos que desafiam a ciência e a fé, e por isso já falamos muito dele aqui no blog. Por isso, a tag Sudário de Turim reúne todos os posts do blog que tratam desse pano tão famoso: é só clicar aqui. Destaco a resenha do livro O Sinal, de Thomas de Wesselow; uma análise do documentário A verdadeira face de Jesus, do History Channel; e o relato de minha visita à exposição “Quem é o Homem do Sudário”, que esteve em Curitiba anos atrás.

Aliás, falando nessa exposição, ela ainda está correndo o Brasil. Atualmente, está em Feira de Santana, na Bahia, no Boulevard Shopping, e fica lá até 3 de maio.

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