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Tubo de Ensaio

Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/06/15 2:55:31 PM

Já está no ar a íntegra, em português e diversos outros idiomas, da encíclica Laudato Si’, a primeira escrita integralmente pelo papa Francisco (lembremo-nos de que Lumen Fidei foi um trabalho a quatro mãos, iniciado por Bento XVI), e que trata da questão ambiental, que aparece nos discursos do papa argentino praticamente desde o início do seu pontificado.

Apresentação da nova encíclica no Vaticano: pela primeira vez um papa dedica um documento inteiro a questões ambientais. (Foto: Max Rossi/Reuters)

Apresentação da nova encíclica no Vaticano: pela primeira vez um papa dedica um documento inteiro a questões ambientais. (Foto: Max Rossi/Reuters)

Há quem questione a escolha do tema. Por que um papa escreveria sobre o meio ambiente? Respondo com outra pergunta: por que não? Uma das primeiras coisas que, no relato da criação, Deus pede ao homem é que cuide daquilo que Deus criou. Francisco faz a diferenciação entre a postura correta, do homem como “guardião” da criação, daquela de “proprietário dominador” (2, 66 e 67 – os números sempre serão referência aos parágrafos da encíclica), e defende a tradição judaico-cristã da acusação surgida nos anos 60 do século passado, de que as religiões monoteístas justificariam a degradação ambiental em contraste com outras religiões que, ao divinizar os elementos da natureza, favoreceriam sua preservação (67). Além disso, escrever sobre o meio ambiente é importante porque, na tradição cristã, a criação revela o criador (12, 85 a 87), outro motivo pelo qual se deve preservá-la.

Não li ainda muitas análises sobre a encíclica, mas minha impressão é a de que elas vão se concentrar no capítulo 1, que faz um diagnóstico dos problemas ambientais, recorrendo ao consenso (ou, em alguns casos, não tão consenso assim) científico sobre temas como mudanças climáticas; ou vão priorizar os capítulos finais, que trazem as prescrições do papa em diversos níveis. Ainda não vi manchetes do tipo “Papa manda desligar o ar condicionado”, mas não descartaria algo assim… (ou, pior, “Papa diz que usar ar condicionado é pecado”). Meu objetivo aqui não é tanto fazer uma análise linear da encíclica, de cabo a rabo, mas destacar algumas ideias que a norteiam.

O cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz

O cardeal Peter Turkson, de Gana, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, ajudou a escrever a encíclica e esteve na entrevista coletiva de lançamento. (Foto: Max Rossi/Reuters)

O centro da encíclica é, sem dúvida, o capítulo 3, justamente aquele que, creio eu, receberá menos destaque na cobertura jornalística. Ali o papa defenderá que a crise ecológica é, antes de mais nada, resultado de uma crise moral que se manifesta em vários aspectos. Um deles é a “confiança cega nas soluções técnicas”, o primado da tecnologia. Desde o início da encíclica Francisco já vinha tocando no tema (14, 19, 60, 78), mas o desenvolverá melhor neste capítulo (102 a 114), inclusive denunciando a mentalidade do might makes right, a noção de que o fato de algo ser tecnicamente viável também o torna moralmente lícito (105). O antropocentrismo desordenado (115 a 121) e o relativismo moral e ético, que, ironicamente, absolutiza as vontades e convicções individuais desprezando a busca pela verdade objetiva (6, 75, 122, 123), também são alvo das críticas do papa.

Mas, se o antropocentrismo desordenado é um erro, também o é reduzir o papel do ser humano a ponto de fazer do meio ambiente um fim em si mesmo (118). Francisco, em continuidade com o pensamento de Bento XVI, recorda em vários pontos que o homem tem uma dignidade especial (43, 65, 69, 81 – aqui com um aceno simpático à teoria da evolução), e já posso ouvir gente chamando o papa de “especista” por isso. O mesmo ser humano cujo comportamento é causa de problemas ambientais também é o responsável por buscar as soluções (53, 58, 60, 118), e o papa não defende uma noção de que o planeta deve permanecer intocado; pelo contrário, valoriza o trabalho humano que transforma a natureza (124 a 129) e lembra que a pesquisa biotecnológica, se bem conduzida, beneficia a humanidade (130 a 135).

É por causa desse papel especial do ser humano dentro da criação que Francisco faz questão de apontar a hipocrisia daqueles que se dizem defensores do meio ambiente, mas tratam o ser humano como criatura de segunda categoria (91), favorecendo o antinatalismo (50), o aborto (120, 123) e a pesquisa com embriões humanos (117, 136). Lembram do que eu escrevi ontem aqui no blog, sobre a animação dos cientistas por ter uma “aprovação moral” do papa para os alertas ambientais? Pois bem, vejamos se essa parte será recebida da mesma maneira por esses mesmos cientistas…

E é só à luz do capítulo 3 da encíclica que será possível compreender os capítulos seguintes, em que o papa oferece prescrições práticas nos mais diversos níveis: no capítulo 4, tratará da dimensão comunitária, com ênfase no planejamento urbano; no capítulo 5, aborda o âmbito político-institucional, incluindo tratados e conferências internacionais; e, no capítulo 6, faz um apelo à consciência de cada indivíduo para que repense comportamentos e pequenas ações diárias que contribuem com a degradação ambiental. Sem essa base oferecida pelo capítulo 3, os pedidos do papa soarão como ingênuos ou utópicos.

Desde o início do seu pontificado, Francisco falou diversas vezes sobre o cuidado com o meio ambiente.

Desde o início do seu pontificado, Francisco falou diversas vezes sobre o cuidado com o meio ambiente. (Foto: Max Rossi/Reuters)

É no capítulo 5 que Francisco dedica três parágrafos à relação entre ciência e religião. Esses vão transcritos abaixo:

199. Não se pode sustentar que as ciências empíricas expliquem completamente a vida, a essência íntima de todas as criaturas e o conjunto da realidade. Isto seria ultrapassar indevidamente os seus confins metodológicos limitados. Se se reflete dentro deste quadro restrito, desaparecem a sensibilidade estética, a poesia e ainda a capacidade da razão perceber o sentido e a finalidade das coisas. Quero lembrar que “os textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora que abre sempre novos horizontes (…). Será razoável e inteligente relegá-los para a obscuridade, só porque nasceram no contexto duma crença religiosa?” Realmente, é ingênuo pensar que os princípios éticos possam ser apresentados de modo puramente abstrato, desligados de todo o contexto, e o fato de aparecerem com uma linguagem religiosa não lhes tira valor algum no debate público. Os princípios éticos que a razão é capaz de perceber sempre podem reaparecer sob distintas roupagens e expressos com linguagens diferentes, incluindo a religiosa.

200. Além disso, qualquer solução técnica que as ciências pretendam oferecer será impotente para resolver os graves problemas do mundo se a humanidade perde o seu rumo, se esquece as grandes motivações que tornam possível a convivência social, o sacrifício, a bondade. Em todo caso, será preciso fazer apelo aos crentes para que sejam coerentes com a sua própria fé e não a contradigam com as suas ações; será necessário insistir para que se abram novamente à graça de Deus e se nutram profundamente das próprias convicções sobre o amor, a justiça e a paz. Se às vezes uma má compreensão dos nossos princípios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos reconhecer que então fomos infiéis ao tesouro de sabedoria que devíamos guardar. Muitas vezes os limites culturais de distintas épocas condicionaram esta consciência do próprio patrimônio ético e espiritual, mas é precisamente o regresso às respectivas fontes que permite às religiões responder melhor às necessidades atuais.

201. A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a estabelecerem diálogo entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade. De igual modo é indispensável um diálogo entre as próprias ciências, porque cada uma costuma fechar-se nos limites da sua própria linguagem, e a especialização tende a converter-se em isolamento e absolutização do próprio saber. Isto impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente. Torna-se necessário também um diálogo aberto e respeitador dos diferentes movimentos ecologistas, entre os quais não faltam as lutas ideológicas. A gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que “a realidade é superior à ideia”.

Como sempre, recomendo a leitura integral do texto do papa Francisco. Não apenas para os católicos, que, por compartilhar da mesma fé que guia o papa, encontrarão muito material para reflexão, mas também para todos os que se preocupam com o meio ambiente, independentemente de religião, pois os conselhos do papa transcendem filiações religiosas.

Um detalhe que passou despercebido: um dos cientistas apontados como consultores do papa para a redação da encíclica, Hans Schellnhuber, foi indicado por Francisco para integrar a Pontifícia Academia de Ciências. A nomeação saiu ontem.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 17/06/15 3:13:11 PM

O blogueiro esteve em férias de maio até o começo de junho, e volta em uma semana que não poderia ser mais animada para o nosso tema: amanhã será divulgado o texto oficial da encíclica Laudato si’ (“Louvado seja”, não em latim, mas em italiano antigo, o idioma em que São Francisco de Assis compôs o seu Cântico das Criaturas), do papa Francisco, sobre o meio ambiente. Ela já rendeu uma confusão considerável entre os jornalistas no Vaticano depois que Sandro Magister divulgou o que parece ser uma versão quase final do texto e teve sua credencial revogada. Por via das dúvidas, espero o texto definitivo amanhã no site do Vaticano.

O papa Francisco chega à Praça de São Pedro para uma audiência

O papa Francisco chega à Praça de São Pedro para uma audiência: comunidade científica aguarda com ansiedade nova encíclica (Foto: Giampiero Sposito/Reuters)

No Estadão, ficamos sabendo que a comunidade científica aguarda com ansiedade o texto por uma razão bem simples: o papa pode tratar do tema como uma questão moral, coisa que os cientistas não podem fazer, e isso daria mais respaldo aos alertas feitos sobre a degradação do meio ambiente.

A respeito disso, um amigo, cientista, comentou algo bem interessante: no fim das contas, todos querem saber o que a Igreja pensa sobre determinado assunto, e adoraria que ela se amoldasse ao pensamento deles, como uma criança desobediente ou levada que mesmo assim espera a aprovação dos pais. Parece que agora a mesma comunidade científica que não dá a mínima para considerações morais quando se trata de destruir embriões, por exemplo, vai jogar confete no papa, mas quando ele voltar a falar da dignidade da pessoa humana desde a concepção até a morte natural, veremos muito cientista olhando para o lado e fingindo que não tem nada a ver com isso.

Esperemos para ver o que virá amanhã. Da parte da cobertura jornalística, espero (infelizmente) uma quantidade considerável de baboseira sobre como Francisco é o papa que está reconciliando Igreja e ciência, e não descarto que algumas reportagens tratem como inédita a preocupação ambiental por parte de um papa, ignorando tudo que os antecessores de Francisco já disseram e escreveram sobre o tema. Não foi a mesma coisa quando Francisco falou do Big Bang e da evolução?

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 23/04/15 12:17:05 PM

A Igreja do Nazareno (Church of the Nazarene), nos Estados Unidos, tem oito instituições de ensino nos Estados Unidos, e está no centro de uma controvérsia após o reitor de uma das faculdades, a Northwest Nazarene University (NNU), ter demitido por e-mail um de seus professores, o teólogo Tom Oord, enquanto ele estava no Havaí, de folga.

thomas oord

Tom Oord é teólogo e defende a conciliação entre evolução e Cristianismo. Há quem diga que isso levou à sua demissão de uma universidade protestante. (Foto: Divulgação)

O motivo oficialmente alegado foi corte de custos. No entanto, há quem esteja convencido de que o problema é outro: Oord é um firme defensor da teoria da evolução e de sua conciliação com o Cristianismo, entendendo os processos de seleção natural como a maneira escolhida por Deus para criar a variedade de vida na Terra, e isso teria motivado sua demissão. Para os criacionistas e adversários de Oord, isso estaria em conflito com a profissão de fé da universidade, segundo a qual a Bíblia, divinamente inspirada, “contém toda a verdade necessária para a fé e a vida cristã”. Questão de interpretação, pois não vejo problema nenhum em considerar a Escritura verdadeira e divinamente inspirada e aceitar a evolução. Mas há quem veja nisso uma heresia.

Oord tem outras opiniões mais controversas, como a de que Deus não conhece o futuro. Karl Giberson, outro defensor da evolução e que já foi colega de Oord em outra das faculdades da Igreja do Nazareno, o Eastern Nazarene College, explica o caso em um artigo e mostra que a defesa da evolução já motivou a saída de outros professores, inclusive o próprio Giberson. Dias atrás, o reitor da NNU aparentemente recuou da decisão em uma carta endereçada à universidade após ter recebido uma espécie de “voto de desconfiança”. Pediu desculpas pela deselegância de demitir alguém por e-mail durante a folga do demitido, e disse que a demissão está temporariamente suspensa.

Não é uma situação fácil. Eu acredito no direito de uma instituição de ensino confessional a agir para que, dentro de seus muros, seus ensinamentos sejam respeitados. Como católico, por exemplo, acho absurdo que escolas e universidades católicas aceitem tranquilamente que alguns de seus professores defendam o aborto ou insultem o papa, como já vi acontecer por aí. Mas no caso da evolução temos dois problemas. O primeiro é de ordem geral: convenhamos, a evolução é a melhor explicação que há para a variedade de vida na Terra. É algo básico para entender a biologia. O segundo problema diz respeito à Igreja do Nazareno: a profissão de fé da denominação é vaga o suficiente para acomodar uma visão que concilie evolução e fé cristã, então pelo menos neste aspecto não haveria por que condenar Oord.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 20/04/15 8:44:05 PM

Começou ontem, em Turim, uma nova exposição do Santo Sudário, que vai até 24 de junho, por ocasião do bicentenário do nascimento de São João Bosco. O papa Francisco não esteve presente no primeiro dia de exposição; ele tem viagem programada para Turim nos dias 21 e 22 de junho. Mesmo assim, ele falou do Sudário no Regina Coeli de ontem, na Praça de São Pedro: “Começa hoje, em Turim, a solene exibição do Santo Sudário. Também eu, se Deus quiser, irei venerá-lo no próximo dia 21 de junho. Desejo que esse ato de veneração nos ajude a todos a encontrar em Jesus Cristo o Rosto misericordioso de Deus, e a reconhecê-lo no rosto dos irmãos, especialmente os que mais sofrem”.

O Sudário está em exibição na Catedral de Turim até o fim de junho. (Foto: Giorgio Perottino/Reuters)

O Sudário está em exibição na Catedral de Turim até o fim de junho. (Foto: Giorgio Perottino/Reuters)

O Sudário é certamente um dos mais intrigantes objetos que desafiam a ciência e a fé, e por isso já falamos muito dele aqui no blog. Por isso, a tag Sudário de Turim reúne todos os posts do blog que tratam desse pano tão famoso: é só clicar aqui. Destaco a resenha do livro O Sinal, de Thomas de Wesselow; uma análise do documentário A verdadeira face de Jesus, do History Channel; e o relato de minha visita à exposição “Quem é o Homem do Sudário”, que esteve em Curitiba anos atrás.

Aliás, falando nessa exposição, ela ainda está correndo o Brasil. Atualmente, está em Feira de Santana, na Bahia, no Boulevard Shopping, e fica lá até 3 de maio.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 08/04/15 10:24:30 AM

Apareceu hoje no meu feed de notícias do Facebook um gráfico interessantíssimo, compartilhado por um amigo; trata-se do que ficou conhecido como The evolutionary tree of religion (clique no link para ver em tamanho grande). É basicamente uma história das religiões, explicada graficamente para mostrar em que tempo surgiram e quais foram suas influências (em alguns trechos, pode soar meio simplista por ignorar esta ou aquela influência). Não é um trabalho recentíssimo, parece-me que é do meio do ano passado.

A visão de mundo cristã foi fundamental para o desenvolvimento do método científico. (Ilustração: Joel Mozart)

A visão de mundo cristã foi fundamental para o desenvolvimento do método científico. (Ilustração: Joel Mozart)

Andei buscando outras referências na internet sobre o gráfico e vi que o pau estava comendo solto a respeito dos mais diferentes aspectos desse trabalho, inclusive aquele que eu queria destacar aqui. Vejam ali na parte superior do ramo verde-claro. Vocês encontrarão o “Método Científico”. Muitos acharam estranho que ele (e a “Mecânica Quântica” também) estivesse em um mapa/gráfico que descreve as religiões do mundo. E houve duras críticas não só ao fato de o “Método Científico” aparecer, como também ao fato de ele estar descrito como derivado do Cristianismo (com influência também do Islã). A primeira objeção, vá lá, até faz sentido, porque para mim também soa muito peculiar a presença do “Método Científico” ali. Mas a segunda crítica só pode ser motivada por desconhecimento. Afinal, foi, sim, a visão de mundo cristã, sua convicção de Deus criou a natureza segundo leis que podiam ser verificadas e estudadas, que permitiu que o método científico pudesse emergir.

Alguns meses depois, o responsável pelo mapa lançou uma versão 2.0, bem mais completa no que se refere à diversidade de religiões no mundo (aparecem, por exemplo, as religiões afrobrasileiras, que não estavam no primeiro mapa), mas ainda com algumas imprecisões (o Catolicismo não surgiu em 1054; a Igreja Católica existe desde o século 1.º, o que ocorreu em 1054 foi a separação dos ortodoxos). O fato é que o “Método Científico” sumiu de lá. O autor, perguntado a respeito no Facebook, prometeu um mapa similar, mas desta vez sobre filosofia e ciência.

Galápagos

Não se esqueçam: vai até o dia 30 deste mês o prazo para integrantes da comunidade acadêmica enviarem sua inscrição para concorrer às bolsas que cobrirão viagem e hospedagem dos participantes de um workshop nas Ilhas Galápagos! Confiram aqui todas as informações.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 06/04/15 11:17:16 AM

Ontem os cristãos comemoraram a Páscoa, a ressurreição de Cristo. É a principal festa cristã, mais importante que o Natal, pois o centro da fé cristã, como afirma São Paulo numa de suas cartas, é a ressurreição. E, obviamente, é o evento que atrai mais ceticismo por parte daqueles que não acreditam. A hipótese de se descobrir o corpo de Jesus já foi explorada pela ficção (existe um filme com o Antonio Banderas no papel de um padre jesuíta que vai a Israel investigar uma ossada que tem todas as características relacionadas a Jesus), por “documentários” como O túmulo esquecido de Jesus, de Simcha Jacobovici e James Cameron (que o arqueólogo Jonathan Reed chamou de “archeoporn”) e por historiadores como Thomas de Wesselow, autor de O Sinal, um livro que, curiosamente, defende a autenticidade do Sudário de Turim negando a historicidade da ressurreição.

ressurreição de Cristo, de Rafael

“A Ressurreição de Cristo”, de Rafael: evento central do Cristianismo desafia os céticos. (Imagem: Reprodução)

Como a ressurreição é vista como um evento que desafia a racionalidade, muitos se perguntam como é que um cientista pode acreditar nesse tipo de coisa. Por isso, achei interessante ler no Christian Post um relato de uma mesa-redonda (eu não chamaria de “debate”, por não haver exatamente duas posições antagônicas) dentro de um evento realizado pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), que tem um departamento exclusivo dedicado ao “diálogo sobre ciência, ética e religião”.

O tema da ressurreição foi trazido por um rabino presente na audiência, que ainda citou uma ocasião em que ouviu um presbiteriano dizer que entendia a ressurreição de Cristo de forma metafórica, no que foi confirmado pelo pastor (de fato, há teólogos protestantes que vêm negando a ressurreição física de Jesus; o principal deles, que eu me lembre, é o luterano alemão Rudolf Bultmann). “A ressurreição é um evento anticientífico em que as leis da natureza são suspensas. Então, não deveria surpreender que historicamente haja tensão entre ciência e religião na comunidade cristã”, disse o rabino.

Os integrantes da mesa saíram-se bem na resposta. Walter Kim, de Boston, lembrou que a ressurreição não nega as leis da natureza; pelo contrário, ela as pressupõe, pois só se pode crer que elas possam ser suspensas em algum momento se antes há a convicção de que a natureza possui leis. “A constatação de um milagre depende de uma visão de mundo que pressupõe a regularidade e a exatidão científicas”, afirmou Kim. Para ele, a pergunta central que a ressurreição lança não é se um cientista pode crer nesse tipo de evento, mas se o mundo natural, e o seu conhecimento proporcionado pela ciência, são as únicas realidades existentes. “A resposta cristã é ‘não’. A ressurreição de Cristo indica que, embora a regularidade do universo seja algo para se estudar, não é a única coisa a se estudar”, completou Kim.

Um outro conferencista recomendou a leitura de uma palestra de Tom Wright, ex-bispo anglicano de Durham. Em 2007, ele foi a Cambridge e falou exatamente sobre a possibilidade de um cientista crer na ressurreição de Cristo. Também recomendo a leitura. Wright explora o que significa “crer”, pergunta se um cientista deve ter uma abordagem “científica” para tudo na vida e explora os questionamentos relativos a uma ressurreição material, física de Cristo. Wright examina a crença na ressurreição entre os judeus e a compara com a fé cristã, mostrando as mutações que levaram de uma a outra, e no fim dá sua opinião sobre como o historiador e o cientista podem se posicionar a respeito disso.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 25/03/15 5:47:05 PM

Bombou na blogosfera católica e nas mídias sociais o vídeo da visita do papa Francisco a Nápoles, no fim de semana passado. Tudo porque, em um encontro com o clero da cidade, o pontífice foi abençoar os presentes com a relíquia supostamente contendo o sangue de São Januário, bispo da cidade morto durante perseguições ao Cristianismo nos primeiros séculos da era cristã. E o sangue coagulado se liquefez. Confiram o vídeo do evento todo (se quiserem pular direto para o episódio em questão, ele começa com 1 hora e 5 minutos de vídeo):

O que há de peculiar no que ocorreu sábado é que o milagre tem “dias certos” para ocorrer: na festa litúrgica do santo, em 19 de setembro; em 16 de dezembro; e no sábado anterior ao primeiro domingo de maio. No entanto, não é a primeira vez que isso ocorre na presença de um papa fora desses dias específicos: há relatos sobre a liquefação ocorrendo em 1848, quando o papa Pio IX segurou o relicário.

O problema todo com esse milagre em particular é que a Arquidiocese de Nápoles se recusa a permitir testes com o conteúdo do relicário porque isso poderia causar danos irreparáveis. Então, tudo o que se pode fazer são análises sem contato com o material. Algumas delas detectaram a presença de hemoglobina, mas há quem afirme que é possível replicar o efeito com outras substâncias que imitam sangue ou que compartilham pelo menos alguns componentes que também estão presentes no sangue humano. Um desafio para os céticos, no entanto, é a “imprevisibilidade” do fenômeno: algumas vezes, a liquefação se produz quase que imediatamente; em outras, pode demorar horas ou mesmo dias; e, de vez em quando, simplesmente não acontece (o que os napolitanos veem como sinal de desastre iminente). Isso independe da temperatura ambiente e do modo de manipular o relicário. Tratei um pouco do assunto aqui no blog em 2008.

Francisco é o segundo papa em cujas mãos o suposto sangue de São Januário se liquefaz fora dos dias em que isso costuma acontecer. O primeiro foi Pio IX, no século 19. (Foto: Tony Gentile/Reuters)

Francisco é o segundo papa em cujas mãos o suposto sangue de São Januário se liquefaz fora dos dias em que isso costuma acontecer. O primeiro foi Pio IX, no século 19. (Foto: Tony Gentile/Reuters)

Eu, particularmente, não veria problema em permitir que se colhesse uma amostra para testes. Convenhamos, o relicário é apenas um recipiente feito de vidro e metal; pode ser refeito, se necessário. E, se o seu conteúdo é realmente milagroso, que tipo de “dano” poderia ocorrer? Talvez haja alguma preocupação com a repetição de fatos como o desrespeito aos protocolos do famoso teste de carbono-14 feitos no Sudário de Turim (isso é mera especulação minha; não consta que alguém em Nápoles tenha usado esse caso para justificar a posição da arquidiocese), mas até aí há meios de prevenir que algo semelhante aconteça novamente.

Novidades no blog

Vocês devem ter percebido duas mudanças no visual do Tubo de Ensaio. A primeira está do lado direito da tela. Há um campo de busca específico para o blog, e logo abaixo está uma lista de tags mais populares. O blog é dividido em seções, que são os assuntos mais amplos (como “livros” ou “criação, evolução e Design Inteligente”), listados logo acima do título do post. As tags normalmente se referem a temas mais específicos tratados nos textos, o que pode incluir também nomes de pessoas, instituições ou eventos. Clicando em uma dessas tags, vocês podem ver o que já foi publicado no blog a respeito do tema em questão (por exemplo, todos os textos sobre o papa Francisco).

A outra mudança está no fim do post: são quatro recomendações de posts. Em “relacionadas”, as sugestões normalmente (mas nem sempre) são sobre tema semelhante ao do post que vocês estão lendo; “últimas do blog”, como o nome diz, são as quatro postagens mais recentes.

No entanto, nem todos os posts do blog já foram corretamente indexados. É um trabalho de formiguinha que está sendo feito aos poucos, pois são mais de 500 postagens feitas desde setembro de 2008. Até agora, estão devidamente classificados todos os posts de setembro de 2012 até hoje. Os textos anteriores ainda não têm tags nem estão alocados nas seções do blog. Aos poucos isso vai sendo feito.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/03/15 1:03:46 PM

Temos tido uns dias especialmente corridos aqui, mas espero que vocês não tenham esquecido de se inscrever no seminário de bioética que começa depois de amanhã, e que os leitores envolvidos com o mundo acadêmico estejam preparando sua papelada para uma das bolsas para a viagem a Galápagos.

Para não deixar vocês completamente abandonados, queria dividir três vídeos criados pela Fundação BioLogos que achei muito bons. Como vocês sabem, a BioLogos prioriza o trabalho com as comunidades evangélicas para que saibam abraçar as descobertas da ciência moderna. Então, estamos falando, nesse caso específico, de levar a ciência para pessoas de fé, e não de levar a fé para pessoas de ciência. Por isso os vídeos tratam de como lidar com o tema nas igrejas e com os jovens cristãos. Tem, sim, um pouco de divulgação do trabalho da própria entidade, do tipo “estamos fazendo isso”, “queremos aquilo”, bom, espero que isso possa atiçar a curiosidade dos leitores do Tubo que desejam trabalhar o tema em suas próprias comunidades de fé.

O conteúdo eu deixo para vocês avaliarem por conta própria. Só queria destacar aqui um aspecto “marginal”, que é o fato de os grupos que promovem a harmonia entre ciência e fé (ou, neste caso, mais especificamente entre evolução e fé) estarem aprimorando a parte técnica/visual de seus conteúdos. Criacionistas e ateus militantes vinham ganhando de goleada nesse sentido, em parte porque dispõem de mais recursos financeiros, mas agora me parece que a diferença já não é tão grande assim.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 04/03/15 12:03:41 PM

A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) vai receber, entre os dias 20 a 22 de março, o Seminário da Comissão de Bioética da CNBB, realizado conjuntamente com a VI Jornada Interdisciplinar de Pesquisa em Teologia e Humanidades (JOINTH), da própria PUCPR. Neste ano, o tema principal é o 20.º aniversário da encíclica Evangelium Vitae, do papa João Paulo II, que reforçou o ensinamento católico no campo da bioética, além de tratar de novos desafios éticos que começavam a aparecer naquela época. A encíclica e o conceito de dignidade humana são os temas da maioria dos artigos, exposições e apresentações que ocorrerão ao longo dos três dias de evento.

Cardeal Willem Eijk

O cardeal holandês Willem Eijk fará a conferência de abertura do Seminário de Bioética, no dia 20 de março. (Foto: Arquidiocese de Utrecht/Divulgação)

Os palestrantes incluem convidados nacionais e também internacionais, como o padre italiano Livio Melina, presidente do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, de Roma, e o cardeal holandês Willem Eijk, que, além de arcebispo de Utrecht, é médico e membro da Pontifícia Academia para a Vida. Eijk fará a conferência de abertura, no dia 20.

A capacidade máxima do evento é de 280 pessoas, e ainda há vagas. O custo de inscrição é R$ 50 e é preciso fazer um cadastro no site da CNBB. O preço cobre apenas a participação no seminário; outros custos, como transporte e hospedagem para quem não é de Curitiba, ficam por conta do participante.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 26/02/15 11:37:04 AM

Semana passada terminou o leilão de uma carta de Albert Einstein escrita a um colega físico, professor da Universidade La Sapienza, em Roma. Acabou arrematada por US$ 75 mil; o leiloeiro deve estar feliz, pois o lance inicial era de apenas US$ 5 mil, mas ainda assim é bem menos que os milhões pedidos em uma outra carta de Einstein vendida pouco mais de dois anos atrás.

Albert Einstein em 1921, anos antes de escrever a carta leiloada recentemente.

Albert Einstein em 1921, anos antes de escrever a carta leiloada recentemente. (Foto: Ferdinand Schmutzer)

Escrevendo em italiano (idioma que Einstein conhecia, por ter vivido por um tempo na Itália) a Giovanni Giorgi, Einstein diz compartilhar das críticas feitas por Giorgi aos experimentos de um outro físico, que pretendia demonstrar a existência do éter. “Deus criou o mundo com mais elegância e inteligência”, afirma o alemão (no original, Dio ha creato il mondo con più eleganza e intelligenza). No caso, “mais elegância e inteligência” na comparação com a teoria que Einstein e Giorgi estão criticando.

O próprio site do leiloeiro explica esse trecho: “A discussão sobre Deus como criador também é fascinante. Embora não acreditasse em uma dividade pessoal, Einstein não tinha restrição a falar de Deus em um contexto científico quando discutia interpretações divergentes da física quântica. Em 1929, ele disse que acreditava ‘no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia de tudo o que existe’ e, em 1950, escreveu que ‘se há algo em mim que pode ser chamado de religioso, é a ilimitada admiração pela estrutura do mundo, naquilo que nossa ciência pode revelar’. É essa concepção de Deus que aparece nesta carta, com a ideia de um mundo projetado com ‘inteligência e elegância’ correspondendo a essas noções de harmonia estrutural. Eram essas estruturas harmônicas, as coisas no âmago da criação, que Einstein, como físico, esperava desvendar e descrever em sua busca por conhecimento, criando uma ponte entre o científico e o espiritual”. Uma descrição da espiritualidade peculiar de Einstein pode ser encontrada no livro Galileo goes to jail and other myths about science and religion. É o mito 21, com texto de Matthew Stanley.

Mas e a outra carta, então, na qual Einstein escrevia que “A palavra Deus é, para mim, nada mais que a expressão e o produto de fraquezas humanas“? Bom, existem quase 30 anos de diferença entre uma e outra. É tempo mais que suficiente para alguém mudar de ideia sobre qualquer assunto. Só não me façam como alguém (devia ter guardado o link, mas não me ocorreu na hora) que estava comentando no Facebook o leilão dessa carta em italiano e escreveu, no Facebook, que agora tinha certeza de que a carta de 1954 era uma farsa produzida por neoateus…

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