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Enviado por Marcio Antonio Campos, 25/11/14 8:18:14 PM
Capa da quarta edição da revista "Quaerentibus".

Capa da quarta edição da revista “Quaerentibus”. (Foto: Reprodução)

A Quaerentibus, primeira revista latino-americana de ciência e religião, aos poucos vai se consolidando. Hoje foi divulgado o número 4, com data de outubro de 2014. A única ressalva que podemos fazer é essa escorregada com a periodicidade. Lembro que, quando foi anunciada, lá em 2011, a revista deveria ser semestral. O primeiro número foi praticamente um piloto; quando a coisa começou mesmo pra valer, o intervalo foi respeitado entre os números 2 e 3, respectivamente de junho e dezembro do ano passado. Desta vez, demorou um pouquinho mais. Esperamos que seja apenas um probleminha temporário.

Ao contrário da edição anterior, desta vez temos um artigo em português. É “Comparando os objetivos e métodos da ciência e religião na formação de professores”, de Alexandre Bagdonas e Cibelle Celestino Silva, ambos da Universidade de São Paulo.

Para baixar o PDF da Quaerentibus 4, é só clicar aqui. Se você quer ver também as outras três revistas, é só clicar aqui para ter acesso aos números anteriores.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/11/14 5:29:42 PM

Dias atrás, conversamos aqui no blog sobre o 1.º Congresso Brasileiro de Design Inteligente, realizado em Campinas. Os participantes divulgaram, ao fim do evento, um manifesto que trata particularmente do ensino do Design Inteligente (e, de passagem, do criacionismo) nas escolas.

Participantes do Congresso Brasileiro de Design Inteligente

Participantes do Congresso Brasileiro de Design Inteligente rejeitam, pelo menos por enquanto, o ensino do DI nas escolas. (Foto: Rafael Sousa/Divulgação)

 

Segue a íntegra do texto:

Manifesto público da Sociedade Brasileira do Design Inteligente – TDI-Brasil – sobre o ensino da Teoria da Evolução e da Teoria do Design Inteligente nas escolas e universidades públicas e privadas

A TDI-Brasil declara, como sua política educacional, não ser favorável, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais.

Nossa posição se fundamenta na opinião atual da Academia, que ainda não acata em sua maioria a TDI e o seu ensino, posição essa que nós da TDI-Brasil, como acadêmicos, devemos acatar.

Outro fundamento de nossa posição contrária ao ensino da TDI nas escolas é a não existência, no quadro educacional atual, de professores capacitados para corretamente ensinar os postulados da TDI.

Entendemos, porém, que os alunos têm o direito constitucional de ser informados que há uma disputa já instalada na academia entre a teoria da evolução (TE) e a TDI quanto à melhor inferência científica sobre nossas origens. Inclusive há outras correntes acadêmicas, além da TDI, que hoje questionam a validade da TE oferecendo uma terceira via.

Quanto ao ensino da TE, a TDI-Brasil defende que este ensino seja feito, porém, de uma forma honesta e imparcial, tanto nos livros didáticos quanto na exposição dos professores em salas de aula. Defendemos que sejam eliminados exemplos fraudulentos ou equivocados atualmente presentes em livros didáticos, e que sejam expostas as deficiências graves que a TE apresenta, e que se agravam a cada dia frente às descobertas científicas mais recentes – o que hoje não ocorre.

Quanto ao criacionismo, na sua versão religiosa e filosófica, por causa de seus pressupostos filosóficos e teológicos, entendemos que deva ser ensinado e discutido, junto com as evidências científicas que porventura o corroborem, em aulas de Filosofia e Teologia, dando a estas disciplinas o seu devido valor no debate sobre as nossas origens.

Chama a atenção, neste momento em que vemos a tentativa de colocar o criacionismo no currículo escolar, que o manifesto rejeita o ensino do DI nas escolas, invocando inclusive a posição minoritária dos seus defensores dentro do mundo acadêmico (posso estar enganado, mas nesse aspecto eles parecem se distanciar de seus colegas norte-americanos). Outro argumento, o de que haveria pouquíssimos professores em condições de ensinar o DI de forma correta, é também usado pelos criacionistas contrários à inclusão desta doutrina nas aulas.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 14/11/14 10:29:02 AM

No post anterior, dei minha própria opinião sobre o projeto que pretende implantar o ensino do criacionismo nas escolas da rede pública do Paraná. Enquanto escrevia, entrei em contato com alguns dos principais defensores e divulgadores do criacionismo no país para ouvir a opinião deles.

"A criação dos animais", afresco de Rafael no Palácio Apostólico, Vaticano.

“A criação dos animais”, afresco de Rafael no Palácio Apostólico, Vaticano.

O jornalista e mestre em Teologia Michelson Borges é um dos principais divulgadores do criacionismo no Brasil e mantém um site que é referência sobre o tema. Por e-mail, ele me explicou que é contrário ao projeto. Reproduzo na íntegra o que ele escreveu ao Tubo:

Se a proposta for a de se ensinar criacionismo nas aulas de Ciências, não considero isso adequado, já que os criacionistas bíblicos não negam que sua cosmovisão, obviamente, tem fundamentos religiosos, embora também se valham do método científico para fazer suas pesquisas. E posso mencionar aqui, como exemplo desse esforço científico, o Geoscience Research Institute, localizado no câmpus da Universidade de Loma Linda, na Califórnia. Criacionistas (pelo menos os que eu conheço) defendem o Estado laico e a separação entre igreja e Estado, que deve se refletir também nas salas de aula de escolas públicas. Outro motivo para essa objeção é o fato de que dificilmente se poderão encontrar muitos professores conhecedores das propostas criacionistas e do modelo como um todo, o que poderá gerar distorções durante a exposição do assunto – algo que frequentemente já tem ocorrido nas matérias veiculadas na grande imprensa. O mais desejável, na verdade, seria o ensino crítico do evolucionismo, destacando seus aspectos científicos sem omitir suas insuficiências epistêmicas e seu conteúdo filosófico, especialmente quando se refere à origem da vida. De minha parte, não veria problemas no ensino do Design Inteligente, já que se trata de uma teoria sem fundamentação teológica.

Ainda na quarta-feira, também fiz contato com a Sociedade Criacionista Brasileira, que até o momento não respondeu. Cinco anos atrás, o blog entrevistou um dos membros da SCB, o biólogo Tarcísio Vieira. Reproduzo aqui a pergunta final da longa entrevista, que ajuda a conhecer melhor o que pensam os criacionistas. Mas ressalto que ainda espero um retorno da SCB para saber se a posição atual deles ainda é a mesma expressa em 2009 por Vieira.

Diante das inconsistências apontadas pelo senhor na teoria evolucionista, o criacionismo também deveria ter espaço nas escolas?

Conhecedores da laicidade de nosso Estado, os simpatizantes do criacionismo bíblico que estejam realmente familiarizados com a questão não argumentam em favor da inserção do criacionismo nos currículos escolares e universitários nas escolas públicas, uma vez que, como discorrido acima, o criacionismo não é uma teoria científica e está associado ao conhecimento religioso.

A SCB, por meio de seu presidente, também se manifesta totalmente contra o ensino do criacionismo nas escolas e universidades públicas. Além da questão da laicidade do Estado, temos a escassez de profissionais devidamente versados em criacionismo bíblico advindos de nossas universidades, pois todos os cursos universitários apresentam em sua grade curricular propostas para o ensino apenas das teses evolucionistas. Consequentemente, não há formação de profissionais devidamente conhecedores do modelo criacionista e muito menos aptos a defender suas teses.

Não existe interesse, ao contrário do que é divulgado pela mídia, de que as teses defendidas pelo modelo criacionista substituam a teoria da evolução ensinada nas escolas e universidades; isto é absurdo! Obviamente, não há nenhuma oposição ao ensino do modelo criacionista em escolas que se denominam confessionais, uma vez que há abertura constitucional para isto. Mas as teorias de evolução também devem ser ensinadas.

O blog segue aberto para manifestações de outros criacionistas a respeito do projeto de lei que tramita na Assembleia Legislativa do Paraná (o texto do projeto e sua justificativa estão aqui).

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 12/11/14 6:05:24 PM

A essa altura, os leitores da Gazeta do Povo já estão por dentro do projeto do deputado Artagão Júnior que pede o ensino do criacionismo nas escolas da rede estadual paranaense. Demos reportagem, assinada pelo Paulo Galvez, e o Rogerio Galindo também fez seu comentário no blog Caixa Zero.

Fui atrás do texto. A íntegra do projeto de lei e da justificativa é muito vaga, com uma série de lacunas. Para começar, nem o texto legal, nem sua justificativa informam se o criacionismo seria ensinado nas aulas de Ciências ou nas de Ensino Religioso (que, como podemos ver, tem até um site específico dentro do portal da Secretaria de Estado da Educação). O projeto também não diz exatamente que tipo de criacionismo será ensinado, se aquele de Terra jovem, segundo o qual o universo tem pouco mais de 6 mil anos (a corrente defendida por grupos como o Answers in Genesis), ou se o criacionismo de Terra antiga, que aceita o consenso científico sobre a idade do universo e do planeta, mas contesta a teoria da evolução como explicação para a variedade da vida na terra (um exemplo desse pensamento é o do grupo Reasons to Believe).

Isso faz diferença? Certamente. Criacionismo, e me desculpem os leitores criacionistas, não é ciência (e não coloco nenhum demérito nisso, pois não sou cientificista); é uma explicação de cunho religioso/metafísico para a origem do universo, da vida, do ser humano etc. Jamais deveria ser ensinado em aulas de Ciências. E nas aulas de Ensino Religioso, pode? Aí eu já acho tolerável. Mas, como estamos falando da rede pública, acho que numa situação dessas seria preciso também abrir espaço para as cosmogonias de outras religiões, ainda que minoritárias em nosso país.

deputado estadual Artagão Júnior

O deputado Artagão Júnior explicou que caberá à Secretaria de Estado da Educação definir em que disciplina será ensinado o criacionismo, caso seu projeto de lei seja aprovado. (Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo)

Para tirar as dúvidas, conversei com o deputado autor do projeto. Ele me explicou que deixou em aberto a disciplina em que o criacionismo seria inserido para que a decisão fosse da Secretaria de Estado da Educação, em regulamentação posterior, até porque nem todas as escolas da rede estadual têm aulas de Ensino Religioso. Artagão Júnior também não mostrou preferência por ensinar o criacionismo nesta ou naquela disciplina, mas gostaria que ele fosse explicado aos alunos na mesma época em que as aulas de Ciências tratassem da teoria da evolução, para que os dois conceitos chegassem aos estudantes de forma simultânea.

Quanto à vertente do criacionismo, se de Terra jovem ou de Terra antiga, o deputado também não defendeu nenhuma corrente específica. “As definições podem ser ajustadas, inclusive para contemplar as interpretações que forem mais populares”, afirmou. Perguntei a ele qual era sua convicção pessoal sobre a idade do universo, e Artagão Júnior disse não ter os elementos para dizer com toda a certeza se o universo tem 6 mil anos, 14 bilhões de anos ou outra idade qualquer. “Sei que há interpretações variadas para os trechos da Bíblia. Minha convicção pessoal é a de que houve uma intervenção divina na criação do universo, e meu objetivo com o projeto é inserir esses conteúdos para promover o debate a respeito do tema”, concluiu.

Dito isso, vamos destrinchar o texto. A definição de criacionismo que está no projeto de lei, para começar, é bem vaga: “noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo o universo e de todas as coisas que o compõe” (sic). Mas reconhecer Deus como criador do universo e de tudo o que nele há não necessariamente é ser criacionista. Um evolucionista cristão, por exemplo, certamente entende que Deus criou o universo e é a causa primeira de tudo o que existe, ainda que não tenha diretamente feito, por atos criadores específicos, todas as coisas. O que caracteriza o criacionismo é a interpretação literal dos relatos da criação contidos no Gênesis, com a consequente negação da teoria da evolução como explicação para a variedade da vida na Terra.

O artigo 2º e a justificativa do projeto deixam mais claro o caráter do criacionismo como explicação alternativa à evolução, mas ainda assim há barbeiragens. A justificativa começa falando do cientificismo, “que muito nos ajuda”, embora eu tenha a impressão de que o deputado quis dizer que é a ciência, e não o cientificismo, que muito nos ajuda, porque logo a seguir ele vai fazer uma crítica ao cientificismo por rejeitar qualquer conhecimento não comprovável em laboratório. A meu ver, essa crítica é o único trecho feliz da justificativa.

Dali em diante, é uma confusão atrás da outra. O evolucionismo é definido como a afirmação de que “a vida originou-se de uma ‘célula primitiva’ que se pôs em movimento pelo ‘Big Ban’” (sic, de novo). Como o Big Bang entrou na dança é um mistério para mim. Aliás, é preciso ressaltar que nem o Big Bang, nem a evolução, trazem a resposta para o surgimento da vida na Terra a partir da matéria inorgânica. O Big Bang é uma explicação de como surgiu o universo; a evolução é uma explicação de como, a partir da forma primordial de vida orgânica, se desenvolveu a variedade que observamos hoje. Mas Darwin nunca entrou no mérito de como houve a passagem da matéria inorgânica para a orgânica.

O projeto, a seguir, diz que a maioria da população brasileira é criacionista. Bom, o que eu achei a respeito foi uma pesquisa Datafolha de 2010 que colocava o apoio ao criacionismo em apenas 25%. Quase 60% defendiam a evolução, mas considerando que Deus guia os processos evolutivos. Aí é que está. Se o deputado quis dizer que a maioria simplesmente acredita em um Deus criador, ele está certo; mas, como já vimos, isso não basta para caracterizar o criacionismo.

Artagão Júnior ainda incluiu a Igreja Católica no rolo, como defensora do criacionismo. Isso está simplesmente errado. A Igreja Católica, obviamente, afirma a existência de um Deus criador. Mas ela não defende que o mundo foi criado há 6 mil anos e cada animal foi diretamente criado por Deus, ou que as espécies evoluíram como proposto por Darwin. A Igreja se limita a afirmar se essa ou aquela teoria científica é compatível com a fé católica. E o papa Francisco acabou de reafirmar (pois outros antes dele já disseram a mesma coisa) que a evolução é plenamente compatível com o Catolicismo. Isso, é claro, não significa um endosso oficial a essa ou aquela teoria. Um católico pode defender o evolucionismo, o criacionismo ou o Design Inteligente sem estar caindo em heresia ou cometendo pecado nenhum. Cabe à ciência, e não à Igreja, definir qual das explicações é a verdadeira.

E o deputado infelizmente ainda se deixou levar pela lorota que associa evolução e ateísmo, mentira propagada tanto por ateus militantes quanto por fundamentalistas religiosos e na qual muita gente de boa vontade acaba acreditando. O próprio exemplo de pessoas de fé que são grandes defensoras da evolução desmente o argumento de Artagão Júnior. Aqui mesmo no blog vivemos falando dessas pessoas.

Por fim, a justificativa traz um enorme non sequitur (tipo de falácia em que a conclusão não deriva das premissas) ao associar o ensino do criacionismo às liberdades fundamentais garantidas pela Constituição. Desde quando “ensinar apenas o evolucionismo nas escolas é ir contra a liberdade de crença de nosso povo”? Alguém por acaso está sendo impedido de acreditar no criacionismo? Desde quando alguém está sendo privado de algum direito por causa de convicção filosófica ou política? Até onde eu sei, no Brasil não é proibido falar de criacionismo ou defendê-lo. O argumento da liberdade de culto não tem nenhuma relação com o ensino de uma doutrina não científica em uma sala de aula.

Por enquanto é isso. No próximo post teremos a opinião de alguns criacionistas sobre o projeto.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 03/11/14 11:33:59 AM

No dia 14, em Campinas (SP), terá início o 1.º Congresso Brasileiro de Design Inteligente, cujo nome, bom, é autoexplicativo. E, se você olhar o elenco do evento, verá que não é exatamente um negócio qualquer; tem a participação de alguns cientistas respeitados, como Marcos Eberlin, da Unicamp. A Folha de S.Paulo publicou uma reportagem sobre o tema, assinada pelo Reinaldo Lopes, que também mantém o ótimo blog Darwin e Deus.

Congresso de Design Inteligente ocorrerá em Campinas daqui a duas semanas. (Imagem: Divulgação)

Congresso de Design Inteligente ocorrerá em Campinas daqui a duas semanas. (Imagem: Divulgação)

E, quando o Reinaldo foi divulgar a reportagem que tinha feito em seu perfil pessoal no Facebook, surgiu a discussão, que podemos resumir no primeiro comentário, do Salvador Nogueira: “você teve coragem de gastar papel na Folha com isso aí? Propaganda indireta para os picaretas”. A partir daí, rolou uma conversa com argumentos ótimos de ambos os lados, e envolvendo pesos-pesados do jornalismo científico como o próprio Nogueira e o Maurício Tuffani, ambos também blogueiros do UOL/Folha. Recomendo que vocês leiam os argumentos de ambos (o post pode ser visto por qualquer um que tenha cadastro no Facebook. “Minha vida é um livro aberto. Por isso que eu sofro tanto com leitor troll”, brincou o Reinaldo quando perguntei a ele se o post era fechado…)

E aí deixo meu humilde palpite. Concordo que não é qualquer bobagem que merece divulgação na imprensa. Mas acontece que o Design Inteligente (e este congresso em particular) não é “qualquer bobagem”. É um movimento consolidado nos Estados Unidos e que está ganhando terreno no Brasil, queiramos ou não (o Salvador Nogueira acredita que eles não são tão fortes assim, mas, agora que tiveram divulgação em um jornal de alcance nacional, seu crescimento virou uma profecia autorrealizável). Trazê-lo a público é parte da função da imprensa, o que a reportagem fez bem ao dar espaço também às contestações ao DI; afinal, o consenso científico em defesa da evolução é estrondoso e tem evidências muito sólidas em seu favor. Pode ser que as pessoas acabem se rendendo ao canto de sereia? Sim, pode. É um risco que se corre. Mas muitos outros, que não estavam cientes dessa movimentação dos defensores do DI, podem ver a reportagem e se animar a buscar elementos para rebatê-lo.

Vejo aqui um paralelo com as críticas a Bill Nye por ter participado de um debate com o criacionista Ken Ham, pois isso significaria dar “credibilidade” ou “divulgação” a algo que não mereceria nenhuma das duas coisas. Nye se justificou explicando que quer chamar a atenção para o estado da educação em ciência nos EUA. Se pensarmos que mais cedo ou mais tarde pode haver pressão para que o DI seja ensinado nas escolas ao lado da evolução também no Brasil (os Estados Unidos já têm uma coleção de decisões judiciais sobre esse tema), o alerta faz sentido.

Na discussão de Facebook sobrou até para os nazistas. “Não se deveria também noticiar sobre um congresso de nazistas sob o pretexto de que estão crescendo”, escreveu alguém (Olha a Lei de Godwin aí, gente!). Bom, vamos analisar a afirmação. Será mesmo que, se houvesse um recrudescimento do nazismo, não deveríamos divulgá-lo? Tenho cá minhas dúvidas. Esse tipo de argumento parece partir do pressuposto de que toda divulgação é propaganda positiva. Bom, o New York Times publicou recentemente longa matéria sobre o crescimento do antissemitismo na Europa. Leiam e avaliem se isso deveria ter sido publicado (afinal, pode ser que alguém se anime com esse negócio e resolva aderir) ou não. Eu acho que deveria. A chave está não tanto no fato de falar ou não do que se considera uma ameaça, mas na maneira como se fala (mas, pelamordedeus, não estou comparando criacionistas ou defensores do DI a nazistas!).

Enfim, sou pela divulgação. Mas não pela mera divulgação propagandística. É preciso mostrar o que o movimento propõe, qual sua representatividade, e mostrar que há contestações muito bem fundamentadas a ele. E isso a reportagem fez.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/10/14 3:42:07 PM

Ontem o papa Francisco falou à Pontifícia Academia de Ciências, e inaugurou um busto do papa emérito Bento XVI. Seu discurso já está pipocando na imprensa aqui e ali, mas, sinceramente, prefiro apenas dar o link da íntegra de sua fala, pois infelizmente os sites e jornais cobrem muito mal o tema, como pudemos ver na recente Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, então o risco de imprecisões é grande (no momento em que escrevo esse post, por exemplo, a reportagem da Folha de S.Paulo sobre a fala do papa tem um erro grosso ao colocar um “humanos” onde o papa fala apenas de “todos os seres”).

O papa Francisco na inauguração do busto de Bento XVI nas instalações da Pontifícia Academia de Ciências (Foto: Reuters/L'Osservatore Romano).

O papa Francisco na inauguração do busto de Bento XVI nas instalações da Pontifícia Academia de Ciências (Foto: Reuters/L’Osservatore Romano).

Dois temas têm chamado a atenção. Um deles é a maneira como Francisco se referiu à teoria da evolução:

Quando lemos no Gênesis a narração da Criação, corremos o risco de imaginar que Deus foi um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim! Ele criou os seres e deixou que se desenvolvessem segundo as leis internas que Ele mesmo inscreveu em cada um, para que progredissem e chegassem à própria plenitude. E deu a autonomia aos seres do universo, assegurando ao mesmo tempo a sua presença contínua, dando o ser a todas as realidades. E assim a criação foi em frente por séculos e milênios, até se tornar aquela que hoje conhecemos, precisamente porque Deus não é um demiurgo nem um mago, mas o Criador que dá a existência a todos os seres. (…) A evolução na natureza não se opõe à noção de Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.

O papa não cita Darwin nominalmente em nenhum momento do discurso, mas, sinceramente, nem é necessário. A noção dos processos evolutivos está plenamente contida na descrição. E, com essa última frase, Francisco “resgata” a evolução da militância ateísta, lembrando um fato básico: a evolução explica como chegamos à variedade da vida que observamos hoje, mas não explica, e nem pretende explicar, como surgiu a vida, ou por que existe algo e não o nada, no fim das contas. Uma paulada naqueles que usam a evolução para justificar o ateísmo, enquanto se reforça a noção cristã de um Deus que sustenta a criação com Sua vontade, em vez de simplesmente dar um pontapé inicial e se retirar do gramado para simplesmente assistir ao jogo.

Mais adiante, o papa falará especificamente do ser humano:

Ao contrário, no que se refere ao homem, nele há uma mudança e uma novidade. Quando, no sexto dia da narração do Gênesis, chega a criação do homem, Deus confere ao ser humano outra autonomia, uma autonomia diferente daquela da natureza, que é a liberdade. E diz ao homem que dê um nome a todas as criaturas e progrida ao longo da história. Torna-o responsável da criação, também para que domine a Criação e a desenvolva, e assim até ao fim dos tempos.

Como sabemos desde o início do pontificado, o tema do cuidado pelo meio ambiente é muito caro ao papa Francisco.

E, entre esses dois trechos, ainda houve uma citação – aí, sim, explícita – ao Big Bang.

O início do mundo não é obra do caos, que deve a sua origem a outrem, mas deriva diretamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje se põe na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a.

Pois é. Justamente essa última frase é que me deixou com a pulga atrás da orelha. Não só a mim, mas a outros amigos que leram o discurso e entendem um pouco do assunto. Afinal, o Big Bang é o início deste universo, mas não necessariamente é o momento em que, do nada, surgiu o ser (este, sim, o momento que exige um criador). Isso me lembra o episódio envolvendo o papa Pio XII, que já contei aqui em outra ocasião. Podemos dar o benefício da dúvida ao pontífice e imaginar que Francisco usou esse “exige” pensando realmente na necessidade de um criador para que o universo surja do nada. Mas a associação desse momento ao Big Bang é que pode causar alguma perplexidade.

Agora, convenhamos, nada disso é novidade, e quem tratar esse discurso do papa Francisco como mais uma “revolução” na Igreja, que “agora aceita a evolução e o Big Bang”, não passa de um grande picareta. Afinal, como estamos cansados de saber, um dos pioneiros do Big Bang foi inclusive um padre: Georges Lemaître, jesuíta como Francisco. E, quanto à evolução, nunca houve condenação formal. Pelo contrário: Pio XII, na Humani Generis, disse não haver incompatibilidade com o Catolicismo, e tanto São João Paulo II quanto Bento XVI (especialmente quando ainda era cardeal) fizeram referências favoráveis à evolução, especialmente no famoso discurso de 1996.

Mesmo não sendo novidade, é ótimo ver um papa, ainda mais alguém tão querido e popular quanto Francisco, reforçando essa compatibilidade entre ciência e fé. Isso pode desarmar aqueles católicos que ainda têm restrições de cunho religioso, especialmente no que diz respeito à evolução.

(Atualizado em 31/10, às 12h30: o link do discurso, que originalmente remetia à versão em italiano, agora direciona para a tradução oficial do Vaticano em português. Por isso, os trechos em itálico também foram alterados; antes eram uma tradução minha, agora são a versão oficial em nosso idioma)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 27/10/14 11:55:25 AM

Ótima notícia, especialmente para os leitores que estão no meio acadêmico: depois do projeto Ciência e Religião na América Latina, promovido pelo Centro Ian Ramsey para Ciência e Religião, da Universidade de Oxford, agora a instituição conseguiu um novo financiamento para outro projeto de três anos. “Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina” tem um aporte financeiro da Fundação John Templeton e será tocado basicamente pela mesma turma do projeto anterior.

Vista da cidade de Oxford

A Universidade de Oxford renova seu interesse na pesquisa sobre ciência e fé na América Latina. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Ciência e Religião na América Latina envolveu a organização de congressos e concursos de monografias, além de um questionário para se entender o estado atual da pesquisa sobre o tema na região (e que rendeu um relatório interessantíssimo). Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina me parece ter um foco ainda mais acadêmico. Partindo de três grandes temas (a origem e o conceito da vida; cérebro, mente e a pessoa humana; o lugar da pessoa no cosmos), o projeto consiste basicamente no financiamento de projetos de pesquisa e em bolsas para um intercâmbio de especialistas: professores e pós-graduandos latino-americanos indo para outras regiões do mundo, e gente de fora vindo lecionar ou dar conferências na América Latina. Mas também está contemplada a tradução para o português e o espanhol de algumas obras-chave sobre o assunto, bem como a criação de recursos audiovisuais para o público geral.

Ignacio Silva e Fern Elsdon-Baker

O argentino Ignacio Silva (na foto, em conversa com Fern Elsdon-Baker durante o workshop final do projeto Ciência e Religião na América Latina, em 2013) é um dos coordenadores do novo programa do Centro Ian Ramsey. (Foto: Juan Ignacio Guerra)

Se você tem interesse em alguma dessas bolsas ou projetos de pesquisa, não perca tempo e clique aqui para saber quais são as oportunidades disponíveis, os requisitos e toda a burocracia de inscrição. Por enquanto o site só tem a versão em inglês, mas em breve haverá tradução para português e espanhol.

(Aviso: A Fundação John Templeton e o Centro Ian Ramsey bancaram a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 14/10/14 4:19:37 PM

Hoje é o dia! Hilary Marlow, do Instituto Faraday para Ciência e Religião, da Universidade de Cambridge, vem à PUCPR para uma conferência, às 19 horas. Ela também participou do curso Faraday-Kuyper, que ocorreu na semana passada, em São Paulo. E respondeu, por e-mail, a algumas perguntinhas rápidas do blog.

Hilary Marlow no curso Faraday-Kuyper, em São Paulo.

Hilary Marlow no curso Faraday-Kuyper, em São Paulo. (Foto: Gustavo Assi)

Qual a sua avaliação sobre o evento de São Paulo?

O curso que terminou no domingo foi uma experiência estimulante e agradável. Tivemos cerca de 80 participantes das mais diversas áreas, ciências naturais, engenharia, medicina, ciências sociais, humanidades… e o debate foi intenso. Fiquei especialmente surpresa ao ver que a maioria dos participantes tinha menos de 35 anos. Não é o que costuma acontecer nos seminários que promovemos no Reino Unido.

Há outras diferenças, seja em relação ao evento em si, ou ao diálogo entre ciência e fé no mundo anglo-saxônico e no Brasil?

Em muitos aspectos o curso me lembrou dos eventos que organizamos no Reino Unido, com pessoas de muitas tradições religiosas (a maioria, no entanto, cristã) e profissões querendo aprender, entender e discutir o tema. A grande diferença foi mesmo o idioma, e os brasileiros são muito animados quando começam a falar todos juntos! Para muitos, essa foi a primeira vez que eles depararam com vários dos temas que tratamos, e tiveram a chance de falar disso em um ambiente aberto e ponderado. Mas ainda me parece que esse diálogo, no Brasil, está apenas começando.

Qual a sua opinião sobre a repentina mudança de local do curso, com a USP alegando que sediar o curso violaria o princípio da laicidade do Estado?

Foi lamentável, mas talvez não surpreendente que a USP tenha decidido não receber o curso. Mas o Mackenzie cuidou muito bem de nós, foi um local incrível.

A julgar pelo que aconteceu até agora, qual a chance de termos novos eventos do Faraday no Brasil?

Nós recebemos muitos pedidos de vários países, então é complicado dizer se e quando teremos outros cursos aqui no futuro. Mas eu tenho gostado muito de fazer parte desse grupo do Faraday que veio até o Brasil, e adoraria ter a chance de retornar ao seu maravilhoso país.

E um videozinho

Denis Alexander, que também veio para São Paulo, gravou um curto vídeo sobre a compatibilidade entre evolução e fé:

Inscrições encerradas, mas pode rolar um jeitinho

O número de inscritos para a palestra de Hilary Marlow já superou a capacidade do auditório da PUCPR, mas quem topar ficar em pé lá no fundão e entender bem inglês a ponto de não precisar de aparelhos de tradução simultânea pode arriscar aparecer lá na hora. É a boa e velha epiqueia aristotélica (o nome elegante do jeitinho brasileiro) em ação.

Mas, caso o overbooking seja realmente grave e nem todo mundo possa assistir à palestra, o Instituto Ciência e Fé da universidade já avisou que pelo menos o áudio da palestra estará disponível posteriormente. Quanto ao vídeo, é uma possibilidade que depende mais de questões contratuais que técnicas, pelo que apurei.

Não perca a palestra do Instituto Faraday em Curitiba! (Imagem: Divulgação)

Não perca a palestra do Instituto Faraday em Curitiba! (Imagem: Divulgação)

(Aviso: o Instituto Faraday, citado neste post, deu ao blogueiro uma bolsa para participar de um curso na Universidade de Cambridge, em 2011)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 08/10/14 10:45:55 AM

Quando pensamos em “religião na aula de Ciências”, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a tentativa de ensinar o criacionismo lado a lado com a teoria da evolução, como se fossem meras explicações rivais para a variedade da vida na Terra, ignorando as evidências em favor da evolução e desconsiderando que o criacionismo parte de premissas totalmente não científicas. Até aí muitos (sei que não todos) estamos de acordo. Mas, e quando é ao contrário?

professor em sala de aula

Se achamos errado usar a aula de Ciências para falar de criacionismo, também não deveria ser errado usar a mesma aula para falar de ateísmo? (Foto: Jeramey Jannene/iStockphoto)

No dia 28 de setembro, um domingo, o New York Times publicou um artigo do professor David Barash, da Universidade de Washington (o site do jornal publicou o artigo na véspera). No texto, Barash diz que, sempre que começa o ano letivo acadêmico, ele tem uma conversinha com seus alunos. Pelo que entendi, ele dá aula de Comportamento Animal, e a evolução é um fator onipresente nesse campo. “É irresponsável ensinar Biologia sem a evolução”, ele diz. Até aí, tudo bem, porque é isso mesmo. Acontece que a “conversinha” é sobre como não dá para conciliar crença religiosa com a evolução. Ele resolveu falar disso aos alunos ao perceber que alguns deles ficavam desconfortáveis com a questão da evolução diante de suas convicções de fé. Inicialmente, Barash achava que isso era problema de cada um. Mas, como o desconforto parece aumentar em vez de regredir, ele resolveu fazer esse sermão logo de cara, no início das aulas.

Ficamos sabendo, pelo artigo, que Barash e Stephen Jay Gould já quebraram o pau em público porque aquele discorda totalmente dos Magistérios Não Interferentes. E aí Barash começa a explicar por que discorda dos MNI, e a coisa começa a degringolar. Ele diz que, à medida que a ciência da evolução progrediu, ela acabou com dois importantes elementos da fé. O primeiro seria o argumento da complexidade, que exigiria um criador sobrenatural. Pode até ser, mas quem disse que a complexidade é um elemento inerente a toda fé religiosa, ou mesmo a todo o Cristianismo? E o segundo é o que Barash chama de “ilusão da centralidade”, referindo-se ao papel especial do ser humano na criação. É aquela mesma lenga-lenga que os ateístas dizem começar com Copérnico e terminar com Darwin: que a ciência tirou o homem do pedestal em que se encontrava, acreditando ser imagem e semelhança de Deus, quando na verdade ele é só um animal como os outros e cujo planeta nem é o centro do universo, etc. etc. etc. Esse discurso rasteiro ignora completamente aquilo que faz o homem especial, e que não tem nada a ver com suas características físicas, como já dissemos aqui inúmeras vezes. “Nenhuma característica sobrenatural foi algum dia encontrada no Homo sapiens“, diz Barash, como se o sobrenatural pudesse ser apreendido pela ciência, e como se ausência de evidência fosse evidência de ausência (o professor precisa ler mais Carl Sagan). “Somos naturais como podemos ser e indistinguíveis do resto do mundo vivente tanto no nível das estruturas quanto no de seus mecanismos psicológicos”, acrescenta. De fato, mas isso não diz absolutamente nada conclusivo sobre a inexistência de realidades sobrenaturais.

Depois de fazer umas considerações nada científicas sobre a questão da dor e como ela se relaciona com a evolução, Barash termina dizendo que sempre encerra sua palestra dizendo que, se alguém quiser manter sua fé religiosa sem abrir mão do que há de mais moderno em ciência evolucionária, precisará fazer um tremendo contorcionismo mental. Ou seja, na prática, embora o professor Barash não diga isso em seu artigo, o que ele faz é defender em sala de aula o ateísmo ou, pelo menos, o agnosticismo, duas posições tão “não científicas” quando qualquer crença religiosa.

Aí eu pergunto: se achamos errado promover o criacionismo em aula de Ciências, usar a ciência para promover o ateísmo/agnosticismo em sala de aula também não é igualmente errado? Até mesmo o ateu militante Jerry Coyne acha que sim. Coyne diz concordar com tudo o que Barash escreveu (não surpreende), mas acha que ele deveria parar de falar de religião (ou contra ela, dá na mesma) em sala de aula. “Meu trabalho é ensinar ciência, não discutir as crenças religiosas de meus alunos, nem mostrar como a ciência se opõe a elas, nem dizer a eles que eles podem ter Darwin e Jesus”, diz Coyne, sugerindo a Barash que deixe de lado a sua palestra inaugural. “Se os estudantes me perguntam ‘professor Coyne, como isso se relaciona com a religião, na sua opinião?’, eu digo a eles que, se querem discutir isso, ficarei feliz de marcar uma conversa em minha sala”, acrescenta. Melhor assim.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 02/10/14 11:00:03 AM

Lembram do curso Faraday que estava previsto para ocorrer na Escola Politécnica da USP, agora entre 9 e 12 de outubro? Pois é, teve de mudar de local quase na última hora. Depois de tudo acertado, divulgação feita, preparativos em curso, a organização avisou, no site do evento, que agora ele ocorrerá na Universidade Mackenzie, em São Paulo.

vista aérea da Cidade Universitária da USP

Discutir a relação entre ciência e fé: bom o suficiente para Cambridge e Oxford, mas não para a USP. (Foto: Jorge Maruta/Jornal da USP)

Segundo o próprio site do curso, a USP (mais precisamente, pelo que apurei, a diretoria da Escola Politécnica) teria vetado a realização por se tratar de “atividade religiosa”, além de entender que “a realização do curso em seu câmpus ‘fere a laicidade de Estado’”. A Poli, por meio de sua assessoria de imprensa, deu outra justificativa. “A diretoria da Escola Politécnica da USP informa que a realização do Curso Faraday-Kuyper nas dependências da Escola não foi possível pois, na mesma data, será realizada a Virada Científica da USP, evento de grande porte do qual a Escola participará e que utilizará os espaços solicitados”, escreveu a assessoria.

A apuração do blog descobriu que estava tudo certo entre os organizadores do curso e a universidade, sem nenhum tipo de questionamento, até que começou a divulgação do evento, com cartazes sendo colados nos mais diversos espaços, como murais de faculdades e pontos de ônibus dentro da Cidade Universitária (sei que funciona assim porque estudei na USP). Aí é que começou o problema. Alguém, não está claro se foi aluno ou professor, nem se é da Poli ou de outra faculdade, viu e não gostou, encaminhando uma denúncia à ouvidoria da USP. A partir daí, os organizadores foram obrigados a “se explicar” a algumas instâncias da Poli e da universidade, que, como se diz popularmente, sentaram em cima do processo. Diante da demora para resolver a questão, em 26 de setembro os organizadores decidiram desistir da USP e procurar outra instituição para garantir a realização do curso na data prevista, até porque há convidados vindo do exterior. Só depois disso (quando Inês já era morta, ou seja, o curso não ocorreria na Poli de qualquer maneira) é que veio uma resposta da Poli, com duas alegações para que o curso não ocorresse lá: coincidência de datas com um outro evento, como a assessoria de imprensa da faculdade havia dito ao Tubo, e o caráter “religioso” do evento, o que feriria a laicidade do Estado. Quanto a essa segunda justificativa, a assessoria de imprensa da Poli disse não saber de nada.

Só posso lamentar que a USP (como eu disse, universidade na qual eu me formei em Jornalismo) tenha uma visão tão míope do que seja a laicidade do Estado, pois o curso Faraday-Kuyper não privilegia nenhuma confissão religiosa, nem faz proselitismo religioso. Uma simples olhada na programação indicaria que, sim, é um evento acadêmico, e não “religioso” como teria alegado a Poli. Aliás, a organização já havia tomado o cuidado de realizar fora do câmpus a única parte do curso que tem um caráter religioso, o culto do dia 12. A universidade, inclusive, já sediou outros eventos de ciência e religião no passado. E não deixa de ser irônico que o curso ainda apareça no site da USP, classificado como, adivinhem?, “evento científico” (aproveitem enquanto não tiram do ar).

Taí o print screen que não me deixa mentir. Imagem captada às 13h33 desta terça-feira. (Imagem: Reprodução)

Taí o print screen que não me deixa mentir. Imagem captada às 13h33 desta terça-feira. (Imagem: Reprodução)

E agora o detalhe do quadro onde se lê que o curso é um "evento científico". (Imagem: Reprodução).

E agora o detalhe do quadro onde se lê que o curso é um “evento científico”. (Imagem: Reprodução).

Também é uma pena que a USP não tenha se espelhado no exemplo de duas das principais universidades do mundo, Cambridge e Oxford, que têm até mesmo centros de pesquisa sobre a relação entre ciência e fé. Mas não fico totalmente surpreso. O preconceito antirreligioso da academia na América Latina foi inclusive citado no relatório final do projeto “Ciência e Religião na América Latina”, da Universidade de Oxford. E me recordo do caso do VI Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião, do qual participei em 2011, que deveria ter ocorrido na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), mas que também precisou mudar de local na última hora devido à hostilidade de alguns professores, que assinaram manifestos e chegaram inclusive a insinuar que a integridade física dos participantes estaria em risco caso o congresso ocorresse na Unam. Felizmente, a Universidade Panamericana se prontificou a receber o evento.

Mas em Curitiba está tudo confirmadíssimo!

Os curitibanos não têm o que temer. A PUCPR vai receber uma palestra de Hilary Marlow no dia 14. Vocês já fizeram sua inscrição?

Não perca a palestra do Instituto Faraday em Curitiba! (Imagem: Divulgação)

Não perca a palestra do Instituto Faraday em Curitiba! (Imagem: Divulgação)

(Aviso: o Instituto Faraday, citado neste post, deu ao blogueiro uma bolsa para participar de um curso na Universidade de Cambridge, em 2011)

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