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Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/10/14 3:42:07 PM

Ontem o papa Francisco falou à Pontifícia Academia de Ciências, e inaugurou um busto do papa emérito Bento XVI. Seu discurso já está pipocando na imprensa aqui e ali, mas, sinceramente, prefiro apenas dar o link da íntegra de sua fala, pois infelizmente os sites e jornais cobrem muito mal o tema, como pudemos ver na recente Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, então o risco de imprecisões é grande (no momento em que escrevo esse post, por exemplo, a reportagem da Folha de S.Paulo sobre a fala do papa tem um erro grosso ao colocar um “humanos” onde o papa fala apenas de “todos os seres”).

O papa Francisco na inauguração do busto de Bento XVI nas instalações da Pontifícia Academia de Ciências (Foto: Reuters/L'Osservatore Romano).

O papa Francisco na inauguração do busto de Bento XVI nas instalações da Pontifícia Academia de Ciências (Foto: Reuters/L’Osservatore Romano).

Dois temas têm chamado a atenção. Um deles é a maneira como Francisco se referiu à teoria da evolução:

Quando lemos no Gênesis a narração da Criação, corremos o risco de imaginar que Deus foi um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim! Ele criou os seres e deixou que se desenvolvessem segundo as leis internas que Ele mesmo inscreveu em cada um, para que progredissem e chegassem à própria plenitude. E deu a autonomia aos seres do universo, assegurando ao mesmo tempo a sua presença contínua, dando o ser a todas as realidades. E assim a criação foi em frente por séculos e milênios, até se tornar aquela que hoje conhecemos, precisamente porque Deus não é um demiurgo nem um mago, mas o Criador que dá a existência a todos os seres. (…) A evolução na natureza não se opõe à noção de Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.

O papa não cita Darwin nominalmente em nenhum momento do discurso, mas, sinceramente, nem é necessário. A noção dos processos evolutivos está plenamente contida na descrição. E, com essa última frase, Francisco “resgata” a evolução da militância ateísta, lembrando um fato básico: a evolução explica como chegamos à variedade da vida que observamos hoje, mas não explica, e nem pretende explicar, como surgiu a vida, ou por que existe algo e não o nada, no fim das contas. Uma paulada naqueles que usam a evolução para justificar o ateísmo, enquanto se reforça a noção cristã de um Deus que sustenta a criação com Sua vontade, em vez de simplesmente dar um pontapé inicial e se retirar do gramado para simplesmente assistir ao jogo.

Mais adiante, o papa falará especificamente do ser humano:

Ao contrário, no que se refere ao homem, nele há uma mudança e uma novidade. Quando, no sexto dia da narração do Gênesis, chega a criação do homem, Deus confere ao ser humano outra autonomia, uma autonomia diferente daquela da natureza, que é a liberdade. E diz ao homem que dê um nome a todas as criaturas e progrida ao longo da história. Torna-o responsável da criação, também para que domine a Criação e a desenvolva, e assim até ao fim dos tempos.

Como sabemos desde o início do pontificado, o tema do cuidado pelo meio ambiente é muito caro ao papa Francisco.

E, entre esses dois trechos, ainda houve uma citação – aí, sim, explícita – ao Big Bang.

O início do mundo não é obra do caos, que deve a sua origem a outrem, mas deriva diretamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje se põe na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a.

Pois é. Justamente essa última frase é que me deixou com a pulga atrás da orelha. Não só a mim, mas a outros amigos que leram o discurso e entendem um pouco do assunto. Afinal, o Big Bang é o início deste universo, mas não necessariamente é o momento em que, do nada, surgiu o ser (este, sim, o momento que exige um criador). Isso me lembra o episódio envolvendo o papa Pio XII, que já contei aqui em outra ocasião. Podemos dar o benefício da dúvida ao pontífice e imaginar que Francisco usou esse “exige” pensando realmente na necessidade de um criador para que o universo surja do nada. Mas a associação desse momento ao Big Bang é que pode causar alguma perplexidade.

Agora, convenhamos, nada disso é novidade, e quem tratar esse discurso do papa Francisco como mais uma “revolução” na Igreja, que “agora aceita a evolução e o Big Bang”, não passa de um grande picareta. Afinal, como estamos cansados de saber, um dos pioneiros do Big Bang foi inclusive um padre: Georges Lemaître, jesuíta como Francisco. E, quanto à evolução, nunca houve condenação formal. Pelo contrário: Pio XII, na Humani Generis, disse não haver incompatibilidade com o Catolicismo, e tanto São João Paulo II quanto Bento XVI (especialmente quando ainda era cardeal) fizeram referências favoráveis à evolução, especialmente no famoso discurso de 1996.

Mesmo não sendo novidade, é ótimo ver um papa, ainda mais alguém tão querido e popular quanto Francisco, reforçando essa compatibilidade entre ciência e fé. Isso pode desarmar aqueles católicos que ainda têm restrições de cunho religioso, especialmente no que diz respeito à evolução.

(Atualizado em 31/10, às 12h30: o link do discurso, que originalmente remetia à versão em italiano, agora direciona para a tradução oficial do Vaticano em português. Por isso, os trechos em itálico também foram alterados; antes eram uma tradução minha, agora são a versão oficial em nosso idioma)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 27/10/14 11:55:25 AM

Ótima notícia, especialmente para os leitores que estão no meio acadêmico: depois do projeto Ciência e Religião na América Latina, promovido pelo Centro Ian Ramsey para Ciência e Religião, da Universidade de Oxford, agora a instituição conseguiu um novo financiamento para outro projeto de três anos. “Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina” tem um aporte financeiro da Fundação John Templeton e será tocado basicamente pela mesma turma do projeto anterior.

Vista da cidade de Oxford

A Universidade de Oxford renova seu interesse na pesquisa sobre ciência e fé na América Latina. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Ciência e Religião na América Latina envolveu a organização de congressos e concursos de monografias, além de um questionário para se entender o estado atual da pesquisa sobre o tema na região (e que rendeu um relatório interessantíssimo). Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina me parece ter um foco ainda mais acadêmico. Partindo de três grandes temas (a origem e o conceito da vida; cérebro, mente e a pessoa humana; o lugar da pessoa no cosmos), o projeto consiste basicamente no financiamento de projetos de pesquisa e em bolsas para um intercâmbio de especialistas: professores e pós-graduandos latino-americanos indo para outras regiões do mundo, e gente de fora vindo lecionar ou dar conferências na América Latina. Mas também está contemplada a tradução para o português e o espanhol de algumas obras-chave sobre o assunto, bem como a criação de recursos audiovisuais para o público geral.

Ignacio Silva e Fern Elsdon-Baker

O argentino Ignacio Silva (na foto, em conversa com Fern Elsdon-Baker durante o workshop final do projeto Ciência e Religião na América Latina, em 2013) é um dos coordenadores do novo programa do Centro Ian Ramsey. (Foto: Juan Ignacio Guerra)

Se você tem interesse em alguma dessas bolsas ou projetos de pesquisa, não perca tempo e clique aqui para saber quais são as oportunidades disponíveis, os requisitos e toda a burocracia de inscrição. Por enquanto o site só tem a versão em inglês, mas em breve haverá tradução para português e espanhol.

(Aviso: A Fundação John Templeton e o Centro Ian Ramsey bancaram a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 14/10/14 4:19:37 PM

Hoje é o dia! Hilary Marlow, do Instituto Faraday para Ciência e Religião, da Universidade de Cambridge, vem à PUCPR para uma conferência, às 19 horas. Ela também participou do curso Faraday-Kuyper, que ocorreu na semana passada, em São Paulo. E respondeu, por e-mail, a algumas perguntinhas rápidas do blog.

Hilary Marlow no curso Faraday-Kuyper, em São Paulo.

Hilary Marlow no curso Faraday-Kuyper, em São Paulo. (Foto: Gustavo Assi)

Qual a sua avaliação sobre o evento de São Paulo?

O curso que terminou no domingo foi uma experiência estimulante e agradável. Tivemos cerca de 80 participantes das mais diversas áreas, ciências naturais, engenharia, medicina, ciências sociais, humanidades… e o debate foi intenso. Fiquei especialmente surpresa ao ver que a maioria dos participantes tinha menos de 35 anos. Não é o que costuma acontecer nos seminários que promovemos no Reino Unido.

Há outras diferenças, seja em relação ao evento em si, ou ao diálogo entre ciência e fé no mundo anglo-saxônico e no Brasil?

Em muitos aspectos o curso me lembrou dos eventos que organizamos no Reino Unido, com pessoas de muitas tradições religiosas (a maioria, no entanto, cristã) e profissões querendo aprender, entender e discutir o tema. A grande diferença foi mesmo o idioma, e os brasileiros são muito animados quando começam a falar todos juntos! Para muitos, essa foi a primeira vez que eles depararam com vários dos temas que tratamos, e tiveram a chance de falar disso em um ambiente aberto e ponderado. Mas ainda me parece que esse diálogo, no Brasil, está apenas começando.

Qual a sua opinião sobre a repentina mudança de local do curso, com a USP alegando que sediar o curso violaria o princípio da laicidade do Estado?

Foi lamentável, mas talvez não surpreendente que a USP tenha decidido não receber o curso. Mas o Mackenzie cuidou muito bem de nós, foi um local incrível.

A julgar pelo que aconteceu até agora, qual a chance de termos novos eventos do Faraday no Brasil?

Nós recebemos muitos pedidos de vários países, então é complicado dizer se e quando teremos outros cursos aqui no futuro. Mas eu tenho gostado muito de fazer parte desse grupo do Faraday que veio até o Brasil, e adoraria ter a chance de retornar ao seu maravilhoso país.

E um videozinho

Denis Alexander, que também veio para São Paulo, gravou um curto vídeo sobre a compatibilidade entre evolução e fé:

Inscrições encerradas, mas pode rolar um jeitinho

O número de inscritos para a palestra de Hilary Marlow já superou a capacidade do auditório da PUCPR, mas quem topar ficar em pé lá no fundão e entender bem inglês a ponto de não precisar de aparelhos de tradução simultânea pode arriscar aparecer lá na hora. É a boa e velha epiqueia aristotélica (o nome elegante do jeitinho brasileiro) em ação.

Mas, caso o overbooking seja realmente grave e nem todo mundo possa assistir à palestra, o Instituto Ciência e Fé da universidade já avisou que pelo menos o áudio da palestra estará disponível posteriormente. Quanto ao vídeo, é uma possibilidade que depende mais de questões contratuais que técnicas, pelo que apurei.

Não perca a palestra do Instituto Faraday em Curitiba! (Imagem: Divulgação)

Não perca a palestra do Instituto Faraday em Curitiba! (Imagem: Divulgação)

(Aviso: o Instituto Faraday, citado neste post, deu ao blogueiro uma bolsa para participar de um curso na Universidade de Cambridge, em 2011)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 08/10/14 10:45:55 AM

Quando pensamos em “religião na aula de Ciências”, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a tentativa de ensinar o criacionismo lado a lado com a teoria da evolução, como se fossem meras explicações rivais para a variedade da vida na Terra, ignorando as evidências em favor da evolução e desconsiderando que o criacionismo parte de premissas totalmente não científicas. Até aí muitos (sei que não todos) estamos de acordo. Mas, e quando é ao contrário?

professor em sala de aula

Se achamos errado usar a aula de Ciências para falar de criacionismo, também não deveria ser errado usar a mesma aula para falar de ateísmo? (Foto: Jeramey Jannene/iStockphoto)

No dia 28 de setembro, um domingo, o New York Times publicou um artigo do professor David Barash, da Universidade de Washington (o site do jornal publicou o artigo na véspera). No texto, Barash diz que, sempre que começa o ano letivo acadêmico, ele tem uma conversinha com seus alunos. Pelo que entendi, ele dá aula de Comportamento Animal, e a evolução é um fator onipresente nesse campo. “É irresponsável ensinar Biologia sem a evolução”, ele diz. Até aí, tudo bem, porque é isso mesmo. Acontece que a “conversinha” é sobre como não dá para conciliar crença religiosa com a evolução. Ele resolveu falar disso aos alunos ao perceber que alguns deles ficavam desconfortáveis com a questão da evolução diante de suas convicções de fé. Inicialmente, Barash achava que isso era problema de cada um. Mas, como o desconforto parece aumentar em vez de regredir, ele resolveu fazer esse sermão logo de cara, no início das aulas.

Ficamos sabendo, pelo artigo, que Barash e Stephen Jay Gould já quebraram o pau em público porque aquele discorda totalmente dos Magistérios Não Interferentes. E aí Barash começa a explicar por que discorda dos MNI, e a coisa começa a degringolar. Ele diz que, à medida que a ciência da evolução progrediu, ela acabou com dois importantes elementos da fé. O primeiro seria o argumento da complexidade, que exigiria um criador sobrenatural. Pode até ser, mas quem disse que a complexidade é um elemento inerente a toda fé religiosa, ou mesmo a todo o Cristianismo? E o segundo é o que Barash chama de “ilusão da centralidade”, referindo-se ao papel especial do ser humano na criação. É aquela mesma lenga-lenga que os ateístas dizem começar com Copérnico e terminar com Darwin: que a ciência tirou o homem do pedestal em que se encontrava, acreditando ser imagem e semelhança de Deus, quando na verdade ele é só um animal como os outros e cujo planeta nem é o centro do universo, etc. etc. etc. Esse discurso rasteiro ignora completamente aquilo que faz o homem especial, e que não tem nada a ver com suas características físicas, como já dissemos aqui inúmeras vezes. “Nenhuma característica sobrenatural foi algum dia encontrada no Homo sapiens“, diz Barash, como se o sobrenatural pudesse ser apreendido pela ciência, e como se ausência de evidência fosse evidência de ausência (o professor precisa ler mais Carl Sagan). “Somos naturais como podemos ser e indistinguíveis do resto do mundo vivente tanto no nível das estruturas quanto no de seus mecanismos psicológicos”, acrescenta. De fato, mas isso não diz absolutamente nada conclusivo sobre a inexistência de realidades sobrenaturais.

Depois de fazer umas considerações nada científicas sobre a questão da dor e como ela se relaciona com a evolução, Barash termina dizendo que sempre encerra sua palestra dizendo que, se alguém quiser manter sua fé religiosa sem abrir mão do que há de mais moderno em ciência evolucionária, precisará fazer um tremendo contorcionismo mental. Ou seja, na prática, embora o professor Barash não diga isso em seu artigo, o que ele faz é defender em sala de aula o ateísmo ou, pelo menos, o agnosticismo, duas posições tão “não científicas” quando qualquer crença religiosa.

Aí eu pergunto: se achamos errado promover o criacionismo em aula de Ciências, usar a ciência para promover o ateísmo/agnosticismo em sala de aula também não é igualmente errado? Até mesmo o ateu militante Jerry Coyne acha que sim. Coyne diz concordar com tudo o que Barash escreveu (não surpreende), mas acha que ele deveria parar de falar de religião (ou contra ela, dá na mesma) em sala de aula. “Meu trabalho é ensinar ciência, não discutir as crenças religiosas de meus alunos, nem mostrar como a ciência se opõe a elas, nem dizer a eles que eles podem ter Darwin e Jesus”, diz Coyne, sugerindo a Barash que deixe de lado a sua palestra inaugural. “Se os estudantes me perguntam ‘professor Coyne, como isso se relaciona com a religião, na sua opinião?’, eu digo a eles que, se querem discutir isso, ficarei feliz de marcar uma conversa em minha sala”, acrescenta. Melhor assim.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 02/10/14 11:00:03 AM

Lembram do curso Faraday que estava previsto para ocorrer na Escola Politécnica da USP, agora entre 9 e 12 de outubro? Pois é, teve de mudar de local quase na última hora. Depois de tudo acertado, divulgação feita, preparativos em curso, a organização avisou, no site do evento, que agora ele ocorrerá na Universidade Mackenzie, em São Paulo.

vista aérea da Cidade Universitária da USP

Discutir a relação entre ciência e fé: bom o suficiente para Cambridge e Oxford, mas não para a USP. (Foto: Jorge Maruta/Jornal da USP)

Segundo o próprio site do curso, a USP (mais precisamente, pelo que apurei, a diretoria da Escola Politécnica) teria vetado a realização por se tratar de “atividade religiosa”, além de entender que “a realização do curso em seu câmpus ‘fere a laicidade de Estado’”. A Poli, por meio de sua assessoria de imprensa, deu outra justificativa. “A diretoria da Escola Politécnica da USP informa que a realização do Curso Faraday-Kuyper nas dependências da Escola não foi possível pois, na mesma data, será realizada a Virada Científica da USP, evento de grande porte do qual a Escola participará e que utilizará os espaços solicitados”, escreveu a assessoria.

A apuração do blog descobriu que estava tudo certo entre os organizadores do curso e a universidade, sem nenhum tipo de questionamento, até que começou a divulgação do evento, com cartazes sendo colados nos mais diversos espaços, como murais de faculdades e pontos de ônibus dentro da Cidade Universitária (sei que funciona assim porque estudei na USP). Aí é que começou o problema. Alguém, não está claro se foi aluno ou professor, nem se é da Poli ou de outra faculdade, viu e não gostou, encaminhando uma denúncia à ouvidoria da USP. A partir daí, os organizadores foram obrigados a “se explicar” a algumas instâncias da Poli e da universidade, que, como se diz popularmente, sentaram em cima do processo. Diante da demora para resolver a questão, em 26 de setembro os organizadores decidiram desistir da USP e procurar outra instituição para garantir a realização do curso na data prevista, até porque há convidados vindo do exterior. Só depois disso (quando Inês já era morta, ou seja, o curso não ocorreria na Poli de qualquer maneira) é que veio uma resposta da Poli, com duas alegações para que o curso não ocorresse lá: coincidência de datas com um outro evento, como a assessoria de imprensa da faculdade havia dito ao Tubo, e o caráter “religioso” do evento, o que feriria a laicidade do Estado. Quanto a essa segunda justificativa, a assessoria de imprensa da Poli disse não saber de nada.

Só posso lamentar que a USP (como eu disse, universidade na qual eu me formei em Jornalismo) tenha uma visão tão míope do que seja a laicidade do Estado, pois o curso Faraday-Kuyper não privilegia nenhuma confissão religiosa, nem faz proselitismo religioso. Uma simples olhada na programação indicaria que, sim, é um evento acadêmico, e não “religioso” como teria alegado a Poli. Aliás, a organização já havia tomado o cuidado de realizar fora do câmpus a única parte do curso que tem um caráter religioso, o culto do dia 12. A universidade, inclusive, já sediou outros eventos de ciência e religião no passado. E não deixa de ser irônico que o curso ainda apareça no site da USP, classificado como, adivinhem?, “evento científico” (aproveitem enquanto não tiram do ar).

Taí o print screen que não me deixa mentir. Imagem captada às 13h33 desta terça-feira. (Imagem: Reprodução)

Taí o print screen que não me deixa mentir. Imagem captada às 13h33 desta terça-feira. (Imagem: Reprodução)

E agora o detalhe do quadro onde se lê que o curso é um "evento científico". (Imagem: Reprodução).

E agora o detalhe do quadro onde se lê que o curso é um “evento científico”. (Imagem: Reprodução).

Também é uma pena que a USP não tenha se espelhado no exemplo de duas das principais universidades do mundo, Cambridge e Oxford, que têm até mesmo centros de pesquisa sobre a relação entre ciência e fé. Mas não fico totalmente surpreso. O preconceito antirreligioso da academia na América Latina foi inclusive citado no relatório final do projeto “Ciência e Religião na América Latina”, da Universidade de Oxford. E me recordo do caso do VI Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião, do qual participei em 2011, que deveria ter ocorrido na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), mas que também precisou mudar de local na última hora devido à hostilidade de alguns professores, que assinaram manifestos e chegaram inclusive a insinuar que a integridade física dos participantes estaria em risco caso o congresso ocorresse na Unam. Felizmente, a Universidade Panamericana se prontificou a receber o evento.

Mas em Curitiba está tudo confirmadíssimo!

Os curitibanos não têm o que temer. A PUCPR vai receber uma palestra de Hilary Marlow no dia 14. Vocês já fizeram sua inscrição?

Não perca a palestra do Instituto Faraday em Curitiba! (Imagem: Divulgação)

Não perca a palestra do Instituto Faraday em Curitiba! (Imagem: Divulgação)

(Aviso: o Instituto Faraday, citado neste post, deu ao blogueiro uma bolsa para participar de um curso na Universidade de Cambridge, em 2011)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 25/09/14 1:28:13 PM

Infelizmente a situação não está muito boa para quem promove o diálogo saudável entre Cristianismo e evolução nos Estados Unidos. A avaliação é de Karl Giberson, professor universitário e autor de livros sobre o tema (o mais recente é Seven glorious days: a scientist retells the Genesis creation story, e o próximo será Saving the original sinner: how Christians have used the Bible’s first man to oppress, inspire, and make sense of the world). Os leitores mais antigos do blog se lembram de uma entrevista que fiz com ele, cinco anos atrás, por e-mail. Em maio deste ano, Giberson esteve no Brasil para participar do congresso de ciência e fé organizado pela comunidade evangélica Sara Nossa Terra. Naquela ocasião, pudemos conversar mais um pouco e saber como ele (que já não tem mais vínculo com a Fundação BioLogos, da qual foi presidente) viu os avanços e retrocessos nesse debate desde 2009. Agora que o blogueiro finalmente venceu a procrastinação e transcreveu o papo, confiram a íntegra da entrevista.

Karl Giberson dá palestra em evento de ciência e fé em São Paulo

Karl Giberson usou até os Simpsons para falar sobre o cenário evangélico norte-americano e sua relação com as controvérsias a respeito da evolução. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Nós conversamos pela primeira vez cinco anos atrás. De lá para cá, houve avanços ou retrocessos na tarefa de promover a conciliação entre o Cristianismo, especialmente em sua vertente evangélica, e a evolução?

Eu posso falar sobre os Estados Unidos, e lá a situação piorou. Da última vez que fizemos uma pesquisa para avaliar se as pessoas estavam pensando que a criação e a evolução podem caminhar juntas, como num tipo de evolução teísta, o número de entrevistados que aderem a essa ideia diminuiu alguns pontos porcentuais, enquanto as visões fundamentalistas ganharam terreno. Então, a situação não melhorou. Não temos muito motivo para comemorar.

Por que isso acontece?

A dificuldade que temos nos Estados Unidos para se compreender essa questão é o fato de o país estar se tornando muito polarizado politicamente, e isso afeta muitos assuntos, não apenas a relação entre ciência e fé, mas praticamente qualquer tema que seja objeto de debate público. Parece que só existem os extremos, e ninguém no meio. Vemos isso na política, onde quem é de direita se move cada vez mais para a extrema-direita, e quem é de esquerda vai cada vez mais para a extrema-esquerda. Isso contribui para exacerbar tensões entre ciência e fé.

Na nossa primeira entrevista, o senhor disse temer que estivéssemos chegando a um ponto em que a discussão deixaria de ser uma busca pela verdade para se tornar um embate no qual o objetivo é simplesmente esmagar a parte contrária, e que isso não teria volta. Esse ponto chegou, então?

Do modo como as coisas estão hoje, para mim é inconcebível imaginar um modo como isso pode melhorar. Mesmo aqueles que estão trabalhando duro para promover a conciliação, como a Fundação BioLogos, que gastam anualmente US$ 1 milhão, US$ 2 milhões só para ajudar os evangélicos americanos a compreender e aceitar a ciência da evolução, mesmo que eles façam tudo certo, têm de brigar contra o Discovery Institute, que gasta US$ 10 milhões, US$ 15 milhões por ano; ou contra o Answers in Genesis, que gasta US$ 29 milhões por ano; ou o Reasons to Believe, de Hugh Ross, e outras organizações que tentam desacreditar a evolução. Ou seja, há provavelmente 50 vezes mais dinheiro sendo gasto para convencer os cristãos que a Bíblia e a evolução não têm como andar juntas que para promover a visão da conciliação. É muito complicado imaginar de que forma vamos virar esse jogo.

Karl Giberson deu duas palestras no evento ocorrido em São Paulo, no início de maio.

Giberson deu duas palestras no evento ocorrido em São Paulo, no início de maio. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Cinco anos atrás, a BioLogos era provavelmente a única voz importante pela conciliação entre Cristianismo e evolução. Desde então, apareceram outros atores importantes nessa mesma linha?

Não muito. O que há de positivo é que apareceu uma entidade chamada Colossian Forum, que está tentando promover um diálogo, mais ou menos como faz a BioLogos, que por sua vez se tornou bem controversa entre os evangélicos americanos. Ken Ham gasta boa parte do seu tempo atacando a BioLogos, dizendo aos cristãos que se trata de uma organização “liberal” que nega a Bíblia.

Falando em Ken Ham, qual a sua opinião sobre o recente debate entre ele e Bill Nye?

Ham mostrou no debate por que ele tem tanto sucesso no que faz. Ele apresenta esses cientistas e engenheiros que também são criacionistas, para mostrar que é possível ser um criacionista e oferecer contribuições significativas para a ciência. Esse argumento é bem poderoso, mas o que Ham não conta para as pessoas, e é algo que Nye não foi capaz de explorar, é que em muitos casos essas pessoas são engenheiros, e não cientistas; e mesmo os cientistas não são exatamente os maiorais no ramo em que atuam, eu mesmo nunca tinha ouvido falar em nenhum deles. Eles representam um grupo meio à margem da comunidade científica, e são pouquíssimos. Não deve passar de 0,1% a proporção de cientistas que concordam com essas pessoas, e mesmo assim Ham as apresenta como se fossem exemplos comuns dentro da comunidade. Nye não explorou bem esse ponto. E, só por estar em um debate com Bill Nye, Ham teve a oportunidade de passar a impressão de que se trata apenas de dois pontos de vista diferentes. Nesse sentido (e não pela riqueza ou precisão dos argumentos), me parece que Ham se beneficiou mais do debate. Também me parece, mas não posso dizer com 100% de certeza, que o debate e a visibilidade nacional gerada por ele ajudaram Ham a bancar seu projeto da Arca de Noé, então o que Bill Nye conseguiu foi dar a Ham a chance de conseguir completar os recursos para mais uma iniciativa anticientífica.

No lugar de Nye, o que o senhor teria feito de diferente?

Acho que ele deveria ter tentado raciocinar mais como um cristão, mostrando que a maneira como Ken Ham lê e interpreta a Bíblia é errada. Nye cometeu o erro que muitos acadêmicos cometem, que é o de achar que esse é um debate sobre ciência. Ele foi lá, mostrou todos os fatos e evidências a favor da evolução de um ponto de vista puramente científico, mas, convenhamos, não é muita gente que vai se convencer apenas com base nisso. Teria sido interessante que Nye desafiasse Ham no campo bíblico.

William Lane Craig disse, em entrevista ao blog, que a melhor maneira de convencer criacionistas não era tanto atacar sua compreensão da ciência, mas sua compreensão da Bíblia. É essa a estratégia adequada, então?

Exato. Não se trata ridicularizar as crenças alheias, ou Ken Ham, ou seus seguidores, mas de mostrar que eles adotaram convicções muito profundas sobre que tipo de literatura é a Bíblia, e sobre como essa literatura deve ser analisada, mas que são convicções muito minoritárias entre os cristãos, e ainda mais raras entre aqueles que se dispõem a estudar com seriedade o conteúdo das Escrituras. Não dá para pensar que Deus escondeu revelações de caráter científico nas entrelinhas do texto bíblico, mas Ken Ham acha que Deus escreveu a Bíblia tentando comunicar coisas que só o homem do século 21 entenderia. Os estudiosos dos textos sagrados não vão concordar com isso. Então, um bom modo de lidar com criacionistas e mostrar o quão excêntrica é a abordagem que eles fazem da Bíblia.

Aviso: A viagem e a hospedagem do blogueiro para o congresso citado neste post foram bancadas pela Sara Nossa Terra.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 22/09/14 4:43:53 PM

Tenho acompanhado com interesse o site Crux Now, uma iniciativa do Boston Globe para incrementar a cobertura de assuntos relativos à Igreja Católica. Mas foi um amigo, também leitor do site, que me chamou a atenção para um anúncio publicitário que aparece na página.

Anúncio de site de namoro para católicos cria antagonismo entre religião e evolução.

Anúncio de site de namoro para católicos cria antagonismo entre religião e evolução. (Imagem: Reprodução)

O Catholic Match é um site que ajuda católicos a encontrarem sua alma gêmea. Em um de seus banners publicitários, aparece a frase “cansado(a) de sair com gente que não compartilha da sua fé?” Até aí, vá lá. Afinidade religiosa ou ideológica é um aspecto importante para muita gente na hora de procurar alguém para um relacionamento sério. O problema é que, na imagem, o “antagonista” da mocinha católica é um sujeito com um “Darwin” na camiseta.

Como se o catolicismo e a teoria da evolução não pudessem se dar bem. Há pelo menos dois “casamenteiros” com autoridade que pensam o contrário: Pio XII, que na Humani Generis abriu espaço para a conciliação entre o dogma católico e a teoria de Darwin, e São João Paulo II, que foi ainda mais enfático a respeito. Sem falar de vários outros estudiosos, tanto cientistas quanto teólogos, que já citamos várias vezes aqui no blog.

Talvez o idealizador do anúncio tenha caído no conto do vigário segundo o qual a evolução é sinônimo de ateísmo. Assim, a ideia não seria tratar o sujeito como evolucionista, mas como ateu, o que certamente traria problemas no relacionamento. Bom, se é assim, foi um erro grosseiro, primeiro porque, a despeito do que dizem os ateus militantes, aceitar a evolução não exige negar a existência de Deus. E, segundo, porque os ateus organizados já têm os seus símbolos e logotipos, que poderiam ser aproveitados no banner.

Então, nessa época em que prefeituras ficam pedindo umas às outras em casamento pelas mídias sociais (clique aqui caso não saiba do que estamos falando), temos de dizer: entre catolicismo e evolução, dá namoro, sim.

Vida fora da Terra

O jesuíta Guy Consolmagno está lançando um novo livro sobre questões de ciência e fé.

O jesuíta Guy Consolmagno está lançando um novo livro sobre questões de ciência e fé. (Foto: Divulgação/Observatório Vaticano)

Sem sair do Crux Now, vale a pena ler a reportagem com o irmão jesuíta Guy Consolmagno, novo presidente da Fundação Observatório Vaticano. Ele está lançando um novo livro, em coautoria com outro jesuíta, também astrônomo do Observatório Vaticano. Apesar de se chamar Would You Baptize an Extraterrestrial?, a obra, como seu subtítulo diz (… and Other Strange Questions From the Inbox at the Vatican Observatory), trata de vários outros temas, como o Big Bang, o processo de Galileu e os relatos da criação. É ótimo ver a maneira como Consolmagno trata da relação entre ciência e fé como companheiras de viagem, e não como adversárias, deixando claro que descobertas estrondosas, como seria a constatação de que existe vida fora da Terra (o que, aliás, Consolmagno dá como quase certo), não abalariam a fé, mas ofereceriam terreno para uma série de questões teológicas bem instigantes.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 15/09/14 6:42:59 PM

Lá em 2008, houve um certo burburinho quando se “descobriu” que o papa Bento XVI, quando cardeal, era doador de órgãos (não pude confirmar, mas parece que o “quando cardeal” é importante nesse caso específico porque, suponho, os ritos fúnebres de um pontífice inviabilizam a doação de órgãos). Parte do burburinho se deveu ao fato de a “revelação” sobre o cartão de doador do cardeal Ratzinger meio que coincidir com um debate que surgiu no L’Osservatore Romano sobre a validade do critério de morte encefálica para se determinar o fim da vida (esse, aliás, foi um dos primeiros temas tratados no Tubo de Ensaio).

(só para deixar claro, a doutrina católica não tem absolutamente nada contra a doação de órgãos. O Catecismo da Igreja Católica diz, no n. 2301, que a doação é legítima e pode ser meritória).

Transporte de órgãos para transplante: ação que salva vidas é bem vista pela Igreja Católica. (Foto: Marco André Lima/Gazeta do Povo)

Transporte de órgãos para transplante: ação que salva vidas é bem vista pela Igreja Católica. (Foto: Marco André Lima/Gazeta do Povo)

Bom, imagino o que essas pessoas que ficaram perplexas com a disposição do cardeal Ratzinger de ter seus órgãos doados pensariam da iniciativa conjunta entre a Arquidiocese de Curitiba e a Central Estadual de Transplantes…

Acontece que, na manhã deste domingo, na PUCPR, ocorre o II Seminário Arquidiocesano de Valorização e Promoção da Vida, organizado pela Comissão Família e Vida da Arquidiocese de Curitiba, com apoio da Pastoral Familiar da Arquidiocese de Curitiba, do mestrado em Bioética da PUCPR, do Núcleo Arquidiocesano de Bioética de Curitiba, do Centro de Planejamento Familiar de Curitiba, da Rede Evangelizar de Comunicação e das Paulinas Serviços de Comunicação. Mas, além disso, este fim de setembro marca a Campanha Estadual de Doação de Órgãos e Tecidos, uma iniciativa do governo do estado. A Pastoral da Saúde da arquidiocese entrou na onda e promove, de 21 a 27 de setembro, a campanha “Doar Vida é gesto libertador”, focada na doação de órgãos. Juntando tudo isso, ficou resolvido que não havia ocasião melhor para o lançamento da iniciativa arquidiocesana que o seminário na PUCPR.

Então, quem for ao Seminário Arquidiocesano de Valorização e Promoção da Vida vai ter a oportunidade de se cadastrar como doador de medula óssea (é aqui que entra a Central de Transplantes). É uma chance ótima de poder ajudar a salvar vidas.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 05/09/14 4:58:00 PM

Antes de mais nada, é preciso deixar muito claro que esse post não significa endosso ou rejeição a nenhum candidato presidencial. Minha opção política é o que menos interessa aqui.

Marina Silva, candidata à Presidência do Brasil

Já faz anos que Marina Silva tenta se livrar da acusação de ser criacionista de Terra jovem. (Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo)

Dito isso, bom, com a entrada de Marina Silva na corrida presidencial, resolveram desenterrar uma polêmica de anos atrás: afinal, a candidata, que é evangélica, é uma criacionista de Terra jovem, daqueles que acreditam que Deus criou tudo 6 mil anos atrás e que a evolução é uma farsa? Três artigos/colunas publicados na Folha de S.Paulo nos últimos dias trataram do assunto.

Primeiro, foi o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que domingo passado não hesitou em afirmar que Marina é, sim, criacionista; que ela teria admitido isso no passado e hoje evita o assunto. “Não me sinto confortável em ter como presidente uma pessoa que acredita concretamente que o Universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos (sic), aproximadamente”, escreveu. Aliás, se eu entendi bem, ele pega pesado com Marina, chegando a insinuar que ela seja uma savant ou portadora de uma “desordem do desenvolvimento neural” (se o tom enfático antiMarina se deve apenas a questões de ordem científica ou se há outros componentes aí eu deixo para o leitor do blog que resolver olhar com cuidado o site do físico).

Na terça-feira, o colunista Hélio Schwartsman, cuja hostilidade a qualquer coisa que tenha a ver com religião é pública e notória, endossou a tese de Cerqueira Leite de que Marina é criacionista de Terra jovem e tentou achar na neurociência uma explicação para os motivos que levam alguém a pensar como pensa (se é que Marina pensa o que Schwartsman pensa que ela pensa…)

Por fim, hoje, o economista Eduardo Giannetti, que faz parte da campanha de Marina como um de seus assessores econômicos, saiu em defesa da candidata também em sua coluna. Giannetti é bem taxativo: “Marina nunca endossou o criacionismo ou defendeu que fosse ensinado nas escolas” (fico aqui pensando que o único impacto que um presidente criacionista poderia ter seria justamente esse, pressionar para que as escolas ensinassem criacionismo nas aulas de Biologia).

Bom, o que a candidata já disse sobre o tema? Achei dois vídeos de participações dela no programa Roda Viva. O primeiro é de setembro de 2009:

E o outro é de outubro de 2013 (a parte que interessa começa no minuto 1’40″):

E um vídeo de uma conversa com editores da revista IstoÉ, em 2010 (o criacionismo entra aos 1’37″):

O que se conclui disso aí? Pelo que entendi, Marina nega ser criacionista de Terra jovem. Ela acredita, sim, que Deus “criou o universo e todas as coisas”; mas há uma diferença entre dizer que “Deus criou todas as coisas”, de uma maneira um tanto figurada, e dizer que “Deus criou todas as coisas exatamente na sua forma presente e não houve mudança nenhuma de lá para cá“. Da mera frase “Deus criou todas as coisas” não se pode concluir nenhuma adesão ao criacionismo — a não ser que haja alguma declaração anterior de Marina (como o entrevistador do primeiro vídeo diz haver, mas não cita publicações nem datas) defendendo enfaticamente o criacionismo; mas parece que nada disso veio à superfície ainda. Não dá para dizer que a polêmica esteja encerrada. Mas até o momento parece estar sendo superdimensionada.

Antes de terminar o post, recomendo muito a leitura dos dois últimos parágrafos do texto de Giannetti. Vá lá, eu acho que a relação entre ciência e fé é mais amistosa que a visão de magistérios não interferentes que ele parece defender, mas é impossível discordar dele quando diz que “a fé cristã não implica o criacionismo, assim como o apreço pela ciência não implica o cientificismo”. Sua reflexão final sobre os limites da ciência também merece muita consideração.

(Atualização às 19h18): vi agora que, uma hora antes do post do Tubo, o Reinaldo Lopes, do blog Darwin e Deus, havia escrito sobre o mesmo tema, inclusive resgatando uma fala de Marina Silva anterior a todas as entrevistas em vídeo que estão neste post, e fazendo uma análise do discurso não muito claro da hoje candidata. Também vale a pena ler!

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/08/14 7:41:02 PM

Um amigo me chama a atenção para uma imagem compartilhada anteontem pela fan page do Facebook I fucking love science. Trata-se de uma obra do cartunista Adam Zyglis, do jornal The Buffalo News, originalmente publicada em 12 de julho. Clique aqui para ver (questão de ética: a não ser nos casos de divulgação expressamente autorizada, não gostamos quando simplesmente copiam e colam todo o nosso conteúdo em outro site, deixando de gerar tráfego para quem realmente produz a informação. Fica o aviso para um ou outro que já vi publicando na íntegra textos do Tubo, por mais nobres que sejam as suas intenções).

Qual é o problema? São os quadrinhos da esquerda. No primeiro quadrinho, ambientado no século 15, um sujeito coloca uma régua colada ao chão e diz “se a Terra é redonda, então explique isso, insinuando que a régua comprovava a não esfericidade do planeta. Assim, Zyglis dá a entender que haveria uma crença generalizada de que a Terra era plana (e essa crença, acrescento, existiria por influência da Igreja Católica). Ora, nada mais distante da realidade. Trata-se de mais uma das lendas sobre a relação entre ciência e fé espalhadas pela dupla John Draper e Andrew White, e que já foi desmentida por inúmeros historiadores da ciência e grandes cientistas, como Stephen Jay Gould. E, caso alguém lembre do ceticismo que rondava a viagem de Cristóvão Colombo, precisamos ressaltar que a controvérsia, em seu tempo, não se relacionava ao formato da Terra, mas ao seu tamanho; Colombo achava que a circunferência do planeta era bem menor do que realmente é.

(Só para deixar claro, houve, sim, alguns pensadores cristãos que defendiam uma Terra plana, como Lactâncio, ainda no fim da Antiguidade, e Cosme Indicopleustes; mas sua obra acabou praticamente ignorada por seus contemporâneos e sucessores; em outras palavras, ninguém lhes deu bola.)

Imagem medieval da Virgem Maria com o Menino Jesus segurando um globo.

Nessa imagem medieval, o Menino Jesus segura um globo. Não é que ele gostasse de jogar bocha: é que os medievais sabiam que a Terra era esférica. (Foto: Walters Art Museum/Wikimedia Commons)

E daqui passamos ao outro quadrinho da esquerda, ambientado no século 19. Um sujeito de terno, gravata e chapéu (pelo menos não está vestido como clérigo) segura uma Bíblia e diz “se a evolução é real, então explique isso“. É a velha tentativa de opor religião e evolução, tropeçando tanto na história quanto na dimensão. Afinal, o fundamentalismo antievolucionista é um fenômeno do século 20, não do século 19. Além disso, por mais estridentes que sejam os que recusam a evolução com motivos religiosos e fazem disso uma bandeira, eles são uma minoria, se me permitem a redundância, bem minoritária. Podem estar até ganhando terreno, ter dinheiro e presença midiática, mas ainda são muito menos numerosos que os cristãos que conciliam perfeitamente a evolução com a crença em um Deus criador do universo, ou aqueles para quem o tema não importa absolutamente nada.

Mas, como sabemos do poder das imagens, temos que lamentar a perpetuação de preconceitos e lendas sobre o conflito entre ciência e fé por meio de charges de jornal.

Mais ciência e fé em Curitiba

Sei que está meio em cima da hora, mas o Guilherme de Carvalho (que está por trás da divulgação no Brasil do material do Teste da Fé e está ajudando a organizar o curso Faraday em São Paulo, do qual falei alguns posts atrás) dará uma palestra em Curitiba na segunda-feira, dia 1.º. Vejam aí as informações (e, se você é de Joinville ou São Leopoldo, confira também), com horário, endereço e telefone:

(Imagem: Divulgação)

(Imagem: Divulgação)

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