Blogs

Fechar
PUBLICIDADE

Tubo de Ensaio

Enviado por Marcio Antonio Campos, 24/11/16 1:28:40 PM

Se você estava esperando a Black Friday para incrementar sua biblioteca de ciência e fé, já apareceram algumas ofertas por aí.

os seis livros lançados até agora na coleção "Ciência e fé cristã"

A promoção da editora Ultimato, com os seis livros lançados até agora na coleção “Ciência e fé cristã”, é uma das boas ofertas do dia. (Foto: Divulgação)

A Editora Quadrante tem poucos títulos sobre o tema, mas o que há tem bons descontos, como Galileu, de Jorge Pimentel Cintra; Ciência e fé em harmonia, de Felipe Aquino; Filosofia da natureza, de Mariano Artigas; o recomendadíssimo Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, de Thomas Woods; e Luzes e sombras na Igreja, de Alfonso Aguiló (os dois últimos não são especificamente sobre ciência e religião, mas têm capítulos que tratam do tema). Pena que alguns outros títulos, como Ciência e milagres, Deus e os cientistas e Evolucionismo, mito e realidade, estejam esgotados. Aproveite e consulte o catálogo da editora, que é impressionante. Eu recomendo especialmente a coleção sobre história da Igreja Católica escrita por Daniel-Rops.

A editora Ultimato, em parceria com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência, inicia a partir das 15 horas de hoje uma promoção para quem quiser o pacote com os seis livros lançados até agora da coleção “Ciência e fé cristã”. O preço é R$ 250 pelas seis obras e a promoção termina ao meio-dia de sexta-feira.

A loja brasileira da Amazon também está com coisa boa em promoção, como Ciência e religião, a tradução em português do Companion da Universidade de Cambridge, escrito por Peter Harrison; Fundamentos do diálogo entre ciência e religião, de Alister McGrath; Explorando a realidade: o entrelaçamento de ciência e religião, de John Polkinghorne; Ciência e fé, coletânea de cartas de Galileu Galilei (resenhada pelo blog aqui).

O Tubo de Ensaio continuará caçando boas ofertas em português. Se você achar alguma, não deixe de divulgar nos comentários deste post!

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 10/11/16 9:19:02 AM

Vejo, no site Strange Notions, um texto sobre um livro de Stephen Barr publicado em 2003, Modern Physics and Ancient Faith. O autor do texto, Brandon Voigt, mostra que, segundo Barr, não existe exatamente um conflito entre ciência e fé, mas entre ciência e naturalismo, a ideia de que o mundo natural é tudo o que há, e que essa ideia moldou toda a narrativa sobre o universo desde a Revolução Científica até o início do século passado. Mas foi justamente no momento em que essa narrativa naturalista parecia ter finalmente triunfado que começaram a aparecer rachaduras no dique do naturalismo, e Voigt enumera cinco desses momentos decisivos.

o matemático austríaco Kurt Gödel

O Teorema de Gödel é apontado como um desafio à noção materialista segundo a qual a mente humana é mera máquina. (Foto: Reprodução)

Quatro desses momentos são descobertas específicas, como o caso do Big Bang, que desafiou a noção de um universo eterno, conveniente para os naturalistas por (na mente deles) dispensar um criador. Ou, então, a emergência das questões relacionadas ao princípio antrópico e ao “ajuste fino” que permitiu o surgimento da vida na Terra. Ou, ainda, o surgimento da Mecânica Quântica, que desafiou o determinismo absoluto na Física, por sua vez derrubando poderosos argumentos contra a existência do livre arbítrio (não é que a Mecânica Quântica prove o livre arbítrio; o que ela faz é, ao contestar o determinismo, destrói também as alegações deterministas a respeito). Por fim, Voigt lista o Teorema de Gödel, que desafiaria o conceito naturalista da mente humana como mera máquina. Já o último item da lista não seria um momento propriamente dito, mas um processo, que deriva da própria busca pelas leis que regem o mundo natural e da descoberta de que essas leis são parte de um todo muito mais intrincado, o que leva a perguntas muito mais profundas não sobre o comportamento desta ou daquela substância, mas do universo como um todo.

A lista parece interessante, mas às vezes parece tirar conclusões apressadas. Como quando Voigt escreve que “o próprio Big Bang prova a doutrina judaico-cristã da criação”. O padre Georges Lemaître ficaria alarmado ao ler isso, pois ele mesmo teve de dar umas aulinhas de Física ao papa Pio XII quando este, entusiasmado com a teoria do Big Bang, também viu nela a prova de um Deus criador, uma ideia que o papa Francisco repetiria décadas depois. Afinal, como sabemos, o Big Bang não é necessariamente o início do universo, mas deste universo. Pode ter havido outro universo “antes” do nosso (sei que o “antes” aqui é meio complicado, entendam como força de expressão), ou pode haver outros universos simultaneamente ao nosso. Não é o Big Bang que exige um criador, mas o próprio fato de existir algo em vez do nada (o que leva ao “twist #2″ da lista de Voigt).

Isso tudo me lembra que está na minha estante o Where the conflict really lies, do Alvin Plantinga, que parece ser uma análise ainda mais aprofundada desse antagonismo entre religião e a visão naturalista do mundo.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 04/11/16 8:59:04 PM

Novembro está aí, e com ele o tal “congresso da felicidade” que mistura física quântica com espiritualidade. Em julho já causamos bastante treta com o tema, mas gostaria de trazer mais uma opinião. É a do professor José Motta Filho, engenheiro civil, professor de Física no Colégio Positivo e professor de Cálculo Diferencial e Integral na Universidade Positivo. Em artigo escrito especialmente para o Tubo de Ensaio, ele explica até onde se pode ir de forma honesta nessa tentativa de juntar física quântica e conceitos religiosos.

Werner Heisenberg foi um dos pioneiros da mecânica quântica.

Werner Heisenberg foi um dos pioneiros da mecânica quântica. (Foto: Bundesarchiv)

Física quântica, espiritualidade e as pseudociências

José Motta Filho

É complexo e ao mesmo tempo encantador quando refletimos acerca da infinita curiosidade do homem, desde o tempo das cavernas, quando ainda procurava apenas reconhecer e compreender os elementos naturais que o cercavam, até os dias atuais, em que se investe muito tempo, dinheiro e intelecto a fim de desvendar os mistérios escondidos no macrocosmo – com as extraordinárias viagens espaciais, seus equipamentos e tecnologias – e no microcosmo, com o estudo dos eventos subatômicos, saltos energéticos e quantizações.

Quando nos concentramos apenas na esfera microscópica da matéria, vemos gênios notáveis como Max Planck e a sua constante para o cálculo da energia de um fóton, ou como Albert Einstein e sua fantástica explicação do efeito fotoelétrico, e somos inseridos em um novo mundo: a mecânica quântica. Certamente esse novo mundo da Física está repleto de muita investigação sobre a estrutura da matéria, incertezas e causalidade, sendo que esta última acabou proporcionando uma intensa ligação da Física a conceitos de filosofia, neurociência e espiritualidade.

De fato, o estudo das partículas subatômicas nos leva a um paradoxo espaço-temporal, no qual uma mesma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Nesse ponto, somos remetidos a um fator extremamente relevante: a importância do observador desses eventos. Heisenberg nos diz que não podemos obter soluções precisas em níveis microscópicos. Enquanto um átomo não é observado, ele é apenas um feixe de possibilidades, mas, quando é observado, assume a forma vista naquele instante. Dessa maneira, entendemos que a realidade não é um elemento puramente externo, como preconizava a mecânica clássica, mas sim uma construção da mente do próprio sujeito vivo e pensante. Portanto, com base nessas ideias, pode-se entender que o ser humano é o grande protagonista e responsável por aquilo que lhe ocorre.

Diante desse emaranhado interdisciplinar, é possível concluir que há uma intensa e dinâmica interação entre os diversos elementos existentes, tanto em nível de subpartículas atômicas quanto no mundo visível que nos rodeia. E isso tem dado sustentação às questões que envolvem as crenças e a espiritualidade dos seres humanos. Desde o instante em que o homem concluiu que partícula e onda são fenômenos de mesma natureza, também foi possível admitir que matéria e energia são manifestações diferentes da mesma realidade física, podendo converter-se de uma em outra, dadas as condições para que isso ocorra.

Ancorado nessa perspectiva, é admissível que a consciência humana interfira e produza realidade física, a partir de uma fonte implícita e abstrata de energia cuja origem pode ser atribuída a um ser supremo, um ser extradimensional, um Criador. Ciência e religião se complementam nessa extraordinária odisseia que vários físicos modernos imprimem a fim de compreender e descrever as razões da existência humana, da existência de Deus e da não efêmera energia que move e dá vida a todos os seres. É de se esperar que ciência e religião, de mãos dadas, em perfeita harmonia, possam conduzir o homem no grande espetáculo da vida, possam levá-lo a conhecer a si próprio e possam manter viva a incomensurável curiosidade de querer ir além das fronteiras do infinito.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 01/11/16 6:06:07 PM

A dica veio da página de Facebook Deus e Darwin (não confunda com o blog Darwin e Deus, do Reinaldo José Lopes): um estudo feito no Reino Unido descobriu que uma quantidade nada desprezível de cientistas considera o biólogo e ateu militante Richard Dawkins um problema, pois sua atuação pública leva a incompreensões sobre o real papel da ciência. O incrível é que a pesquisa não tinha nem uma única pergunta sobre Dawkins, mas os entrevistados sentiram aquela necessidade irresistível de deixar clara sua opinião sobre o biólogo mesmo assim.

Richard Dawkins, cientista e ateu militante

Richard Dawkins atrapalha a ciência ao forçar um antagonismo entre ela e a fé das pessoas, segundo cientistas britânicos. (Foto: Andrew West/British Humanist Association)

A reportagem é do Independent. O assunto da pesquisa era a representação da ciência diante da opinião pública e o modo como a imprensa retrata os cientistas. Dos pouco menos de 1,6 mil pesquisadores britânicos que participaram da sondagem, 137 foram escolhidos para entrevistas mais longas. Desses, 48 mencionaram Dawkins, e 80% deles não foram nada simpáticos ao biólogo. Obviamente, quem é chegado a uma falácia ad hominem vai dizer que 1. o estudo foi financiado pela Fundação John Templeton e 2. entre os cientistas que criticaram Dawkins havia pesquisadores religiosos. Se é o seu caso, só digo que Carl Sagan se envergonha de você. De qualquer modo, mesmo quem não tem religião deixou claro que Dawkins prejudica a ciência por deliberadamente afastar as pessoas religiosas.

Basicamente, é a mesma crítica feita anos atrás por Chris Mooney e Sheril Kirshenbaum em Unscientific America, que resenhei em 2010. O livro mostra como a sociedade norte-americana perdeu aquele entusiasmo pela ciência que atingiu seu auge durante a corrida espacial e teve seu último espasmo com Sagan. Foram quatro as pontes destruídas: com a política, com a imprensa, com o mundo do entretenimento e com a religião. E, nesse último caso, o fato de ateus militantes pretenderem forçar as pessoas a escolher entre a ciência e a fé fez o estrago.

(Aviso 1: A Fundação John Templeton, citada neste post, ajudou a bancar a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

(Aviso 2: sim, a frequência dos posts do Tubo de Ensaio está muito errática. É que ainda estou me acostumando a planejar meu tempo, agora que tenho um bebê recém-nascido que enche a casa de alegria, mas também exige muita dedicação.)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 21/10/16 11:47:06 AM

Que tal dar uma bela incrementada na biblioteca da sua instituição de ensino superior com livros sobre ciência e fé no valor total de US$ 6 mil? É a chance que a Universidade de Oxford (por meio do Centro Ian Ramsey para Ciência e Religião, IRC) e a Fundação John Templeton estão oferecendo a universidades latino-americanas.

Biblioteca do Trinity College, Dublin

Não faria mal acrescentar aí um bocadinho de livros sobre ciência e fé, faria? (Foto: David Iliff/Creative Commons)

A coisa toda é relativamente simples, e as regras estão aqui. É preciso haver apoio institucional, ou seja, não adianta apenas a iniciativa individual de um professor ou aluno: o departamento/instituto/faculdade etc. tem de comprar a briga e deixar isso claro por meio de uma carta de apoio. A lista de livros será definida pelos contemplados, mas o IRC tem um arquivo com mais de 300 sugestões em inglês, espanhol e português. Há restrições: não podem estar na relação, por exemplo, livros sobre criacionismo, Design Inteligente e questões ambientais.

E atenção aos prazos: é preciso manifestar interesse até 20 de novembro, e a proposta completa, com toda a documentação, inclusive cartas de apoio da instituição e da biblioteca da universidade, tem de ser enviada até 15 de dezembro! Mais uma vez: os detalhes estão aqui.

E aí você e eu estamos chorando porque não podemos incrementar as nossas próprias bibliotecas pessoais com US$ 6 mil. Paciência. Mas, como prêmio de consolação, a Editora Ultimato, a mesma que foi responsável pela versão brasileira de O Teste da Fé, está lançando uma coleção espetacular chamada “Ciência e fé cristã”. Tem Alister McGrath, Francis Collins, John Walton e outros grandes nomes do diálogo entre ciência e fé. E a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência lançou uma promoção em parceria com a editora para um desconto de 40% nos livros da série. Você clica aqui, preenche um formulário e recebe o código de desconto para usar na loja da editora. Já quebra um galho, ou não?

(Aviso: A Fundação John Templeton e o Centro Ian Ramsey, citados neste post, bancaram a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 05/10/16 9:14:34 AM

No catolicismo, existem coisas que só um padre pode fazer, como celebrar missa e ouvir confissões. São duas ocasiões absolutamente essenciais na vida de um fiel, que tem a obrigação de assistir à missa dominical e de se confessar pelo menos uma vez por ano (se bem que, na verdade, o ideal é se confessar com muito mais frequência). Fora os outros sacramentos que o sacerdote também pode levar aos fiéis, ainda que não sejam exclusividade sua (um diácono pode, por exemplo, batizar ou ser a testemunha da Igreja em um casamento).

Por isso, ainda mais nesses tempos em que há cada vez menos padres, o fato de um sacerdote dividir seu tempo entre o cuidado pastoral e outras atividades deixa muitos fiéis alarmados. Padre-cantor, padre-palestrante… e padre-cientista também, por que não? Outro dia desses, um bom amigo, católico fiel e também cientista, por ocasião da ordenação de um padre que era químico, mas que dali em diante se dedicaria somente ao sacerdócio, veio comentar comigo que achava muito complicada a situação em que o clérigo mantém “jornada dupla” (na verdade, o termo que ele usou foi “lamentável”). O tempo que um padre passa no laboratório pesquisando, ou na universidade dando aula, é tempo subtraído às coisas que só um sacerdote pode fazer. É uma confissão que ele deixa de ouvir, é uma direção espiritual que ele deixa de dar, é uma missa que ele poderia estar celebrando em algum lugar carente de padres… leigos podem fazer shows, podem dar palestras, podem fazer pesquisa, podem atuar em veículos de comunicação, podem fazer trabalho administrativo, mas não podem substituir os padres naquilo que só um clérigo ordenado é capaz de fazer.

Georges Lemaitre, professor da Universidade Católica de Louvain

Da série “coisas que Georges Lemaître nunca disse”: “Eu podia estar rezando missa, eu podia estar ouvindo confissão, mas estou aqui dando aula para vocês”. (Foto: Reprodução/YouTube)

Eu consigo compreender a força desse argumento. Talvez no passado as coisas fossem diferentes. Era uma época em que a proporção entre padres e fiéis era diferente, havia mais sacerdotes e isso podia “liberar” alguns deles para a pesquisa científica, suponho. Sem falar no papel que a Igreja Católica sempre teve na educação; os leigos só tomaram a dianteira nesse campo há pouco tempo, até porque só recentemente se compreendeu melhor o seu papel na Igreja, e antes disso o corpo docente das escolas e faculdades católicas era majoritariamente (quando não exclusivamente) formado por padres. Se voltarmos ainda mais no tempo, a mentalidade clerical era até mais forte, sendo quase que necessário ser ordenado para se ter acesso (ou pelo menos para ter acesso mais fácil) a alguns ambientes, incluindo o da ciência nascente.

Mas e hoje? Para entender um pouco como os padres-cientistas modernos justificam essa “dupla carreira”, conversei por e-mail com dois deles, colegas na mesma faculdade católica, a Seton Hall University. Joseph Laracy é professor no Departamento de Matemática e Ciências da Computação, e sua carreira pré-ordenação inclui trabalhos no MIT e pesquisas com apoio da Nasa. Gerald Buonopane é uma vocação tardia; ordenou-se aos 52 anos, e antes disso obteve um Ph.D. em Ciência dos Alimentos, foi professor universitário na área e trabalhou com regulação de alimentos tanto no setor privado quanto na Food and Drug Administration, mal comparando uma espécie de Anvisa norte-americana. Hoje ele é membro do Departamento de Química e Bioquímica da Seton Hall University.

Ambos celebram missa diária. O padre Laracy também vai a paróquias da Arquidiocese de Newark (em cujo território está localizada a Seton Hall) todos os fins de semana, enquanto o padre Buonopane reza missas diariamente ou na universidade, ou em alguma das duas paróquias que atende. Todo sábado ele celebra em um convento da ordem fundada por Santa Teresa de Calcutá, e quinzenalmente vai a um outro convento celebrar missa para as religiosas enfermas. O padre Laracy também ouve confissões, realiza casamentos e batizados de acordo com a demanda. “Eu estou muito feliz com a maneira como divido meu tempo”, conta. Buonopane foi um pouco mais específico ao falar de sua rotina: disse que estima gastar 20 horas por semana com o atendimento pastoral, e 50 a 60 horas por semana ministrando ou preparando aulas, escrevendo artigos científicos, participando de eventos, enfim, com o lado “científico” da coisa. “Às vezes eu gostaria de passar mais tempo nas atividades próprias do sacerdócio, mas de modo geral estou bem satisfeito com o equilíbrio que tenho entre os dois tipos de tarefas”, afirma.

Uma figura importante em ambos os casos foi a do arcebispo John Joseph Myers. “Tanto ele quanto outros padres da arquidiocese sempre me encorajaram em minha pesquisa científica”, diz o padre Laracy. O padre Buonopane, logo após a sua ordenação, dedicou-se ao trabalho pastoral, mas cinco anos depois começou a sentir o desejo de voltar a lecionar, principalmente no campo da ciência. Ele soube que Myers estava interessado em enviar mais padres à Seton Hall e pleiteou a transferência, decidida pelo arcebispo em 2011.

O padre Joseph Laracy passou pelo MIT e teve pesquisas apoiadas pela Nasa antes de se ordenar sacerdote

O padre Joseph Laracy passou pelo MIT e teve pesquisas apoiadas pela Nasa antes de se ordenar sacerdote. (Foto: Ashley Wilson/Seton Hall University)

Laracy responde ao argumento de que a ciência e outras atividades deveriam ser deixadas aos leigos para que os padres possam se dedicar apenas ao que só eles podem fazer alegando que isso é ter uma “visão muito funcional” do sacerdócio. “As pessoas pensam ‘o que é que só o sacerdote faz?’, mas é preciso ter uma perspectiva ontológica. O padre é um discípulo que se configura a Cristo pela graça do sacramento da Ordem e que tem o privilégio de agir in persona Christi. Muitos padres estão envolvidos em tempo integral com o cuidado pastoral, mas o ministério sacerdotal nunca se manteve limitado a isso, sempre cobriu todos os aspectos da ação humana”, explica. “Eu sou padre 24 horas por dia. Na sala de aula ou no altar, estou fazendo o trabalho de Deus. Estou servindo os filhos de Deus. Só com minha presença na Seton Hall eu espero tornar mais evidente a presença de Deus aos outros. Claro que precisamos de bons padres nas paróquias, mas também precisamos de sacerdotes do mundo acadêmico para fortalecer ou renovar a fé dos jovens”, acrescenta Buonopane.

As inspirações de ambos são os grandes padres-cientistas do passado, como Gregor Mendel e Georges Lemaître, mas Laracy e Buonopane acreditam que os padres-cientistas de hoje ainda têm muito a oferecer. “Eles explicam mais sobre o mundo, transformam o desconhecido em conhecido. Conhecer melhor a realidade pela perspectiva das várias ciências nos permite compreender melhor a nossa fé e, assim, podemos ser melhores evangelizadores. Temos de seguir aprendendo todo dia; lembre-se da parábola de Jesus sobre colocar vinho novo em odres velhos. É assim hoje: nessa época de avanços tecnológicos,precisamos fazer o melhor possível para nos manter atualizados”, diz Buonopane. Para Laracy, o grande legado de um padre-cientista hoje é poder dar testemunho do relacionamento íntimo entre fé e razão na tradição intelectual católica, especialmente nesses tempos em que esse aspecto se tornou quase esquecido.

O que os padres Laracy e Buonopane me disseram ajudou a entender a situação pela perspectiva deles, embora eu ainda tenha sérias dúvidas sobre a conveniência de um padre usar boa parte de seu tempo em atividades alheias ao seu ministério pastoral. Talvez os católicos de Newark tenham sorte de haver padres suficientes lá para não ficarem desassistidos mesmo com o trabalho universitário dos sacerdotes-professores da Seton Hall. No fim, a coisa parece ser melhor decidida na base do “caso a caso”. A cientista Stacy Trasancos, autora de Particles of faith, diz que não há uma resposta única à pergunta “padres deveriam também ser cientistas (ou cantores, ou palestrantes)?”. “É uma decisão que não pode ser tomada por outras pessoas, mas pelo padre e seus superiores. Juntos, eles determinam como melhor servir os fiéis. É como perguntar se uma determinada mãe deveria trabalhar fora de casa. Assim como de maneira geral é melhor para as mães estarem em casa com seus filhos, em certas circunstâncias também pode ser bom para uma mãe ter um trabalho externo. É uma decisão que ela toma junto com o marido, considerando o que é melhor para os filhos e a família. A virtude da prudência exige um olhar realista para cada situação, antecipando problemas e prevendo possíveis soluções, estando preparados para ajustes com o passar do tempo”, ela diz, evocando o exemplo do padre Stanley Jaki, um grande nome do diálogo entre ciência e fé. “Ele cumpriu seus deveres de sacerdote e dedicou-se intensamente à pesquisa de um modo que poucas pessoas conseguiriam imitar. Ele tinha um talento e nos deixou um presente por meio de suas publicações. Não era um padre que passou seu tempo em uma paróquia, mas serviu a Igreja e os fiéis oferecendo seu conhecimento. Hoje sou mãe e passo o tempo todo em casa, mas me beneficio do trabalho do padre Jaki e o comunico a outros. Eu não poderia ter feito o que ele fez, e ele não poderia fazer o que eu faço. Somos diferentes, mas estamos conectados, em comunhão”, conclui.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 03/10/16 9:00:31 AM

Puebla, no México, sediará em fevereiro do ano que vem o IX Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião, evento que tem ocorrido com mais regularidade desde que a Universidade de Oxford, cinco anos atrás, iniciou projetos de ciência e religião na América Latina (em 2012, a PUC-Rio foi a anfitriã). Desta vez, a instituição que receberá o congresso é a Universidade Popular Autônoma do Estado de Puebla (Upaep), uma das universidades que têm estado na ponta quando o tema é pesquisa sobre ciência e religião dentro da América Latina.

Câmpus central da Upaep, em Puebla (México).

A Upaep, em Puebla, no México, sediará o IX Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião em fevereiro de 2017. (Foto: Ambrose104154/Wikimedia Commons)

As inscrições já estão abertas tanto para quem quiser apenas assistir ao evento quanto para quem deseja participar fazendo apresentações. Ir apenas para ver as palestras já seria extraordinário, e um dos palestrantes será o padre jesuíta argentino José Funes, ex-diretor do Observatório Vaticano. Mas apresentar um trabalho no congresso seria uma oportunidade especial principalmente para quem está no meio acadêmico e sabe que esse tipo de evento conta bastante no currículo. Então, as instruções estão aqui. Os interessados têm até o dia 15 para enviar um resumo de 300 palavras e um currículo de no máximo uma página. Todas as palestras ficarão registradas nos anais do evento e as melhores poderão ser publicadas na Quaerentibus, a revista on-line latino-americana de ciência e religião. O artigo de minha autoria que aparece no número 2 da revista foi justamente apresentado no VI Congresso Latino-Americano de Ciência e Religião, também no México, em 2011.

Então, ainda há tempo, porque o que se exige é o resumo, e não o trabalho já finalizado. Se a proposta for aceita, ainda haverá uns poucos meses para concluir a pesquisa e formular a versão final da apresentação.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 16/09/16 11:22:26 AM

O blog volta hoje de um duplo recesso, olímpico-parental, falando de Katharine Park. Já a mencionamos aqui: foi ela quem escreveu o capítulo de Galileo goes to jail em que se desmente o mito de que a Igreja proibia a dissecação de corpos na Idade Média. Recentemente tropecei em um artigo interessante de uma publicação da própria Universidade Harvard, onde Park leciona. Não é novo, é de 2011, mas conta a história de como ela acabou se tornando a destruidora de um mito tão forte.

Dissecação de um cadáver

Esqueça as lendas sobre cientistas buscando corpos clandestinamente para escapar da Inquisição: a dissecação era prática conhecida e autorizada pela Igreja medieval. (Imagem: reprodução)

Tudo começou em Florença, para onde a historiadora havia ido buscar fontes para sua pesquisa. E ali ela encontrou o relato de um homem de uma família rica, que pedia a autópsia de sua esposa recentemente falecida. Aquilo, conta Park, desafiava as lendas que ela sempre tinha ouvido sobre pioneiros da medicina que precisavam surrupiar corpos para abri-los às escondidas, para escapar da vigilância das autoridades eclesiásticas. E a partir daí ela foi encontrando mais e mais histórias, na sua maioria envolvendo autópsias e dissecações de mulheres, por uma razão: o desejo de entender os mecanismos da reprodução humana. “O útero e o corpo feminino eram o último segredo médico”, afirma. Por isso os procedimentos costumavam começar pelo aparelho reprodutor, exceto no caso das mulheres com fama de santidade, em que se examinava primeiro o coração à procura de algum sinal extraordinário que confirmasse fisicamente essa fama. E, em todos os casos, sem a menor oposição da Igreja.

“Toda vez que leio algo no New York Times sobre Leonardo da Vinci precisando esconder o fato de que ele estava dissecando corpos, e toda vez que ouço um guia de turismo na Itália contando essas histórias, isso acaba comigo. Não sei como me livrar desse mito”, encerra a historiadora. Park pode dormir com a consciência tranquila, porque fez um ótimo trabalho; não é culpa dela que o mito continue rodando por aí.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 27/07/16 11:21:11 AM

Como na semana passada eu resolvi aderir à treta e ser meio destrutivo com um evento que vai ocorrer aqui em Curitiba, hoje serei mais construtivo e recomendarei um congresso que vale muito a pena: é a I Conferência Nacional Cristãos na Ciência, em novembro, em São Paulo.

John Walton, autor de livros sobre a interpretação dos capítulos iniciais do Gênesis

John Walton, autor de livros sobre a interpretação dos capítulos iniciais do Gênesis, virá para o evento da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência em novembro. (Foto: Reprodução/YouTube)

As inscrições já começaram e ainda estão no lote promocional, e a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência trouxe um elenco digno dos cursos e eventos de que participei lá na Inglaterra: Alister McGrath participará por meio de vídeo, mas também tem Ard Louis, Ted Davis, Andrew Briggs e John Walton. Este último é autor de The lost world of Genesis One e de The lost world of Adam and Eve: Genesis 2–3 and the Human Origins Debate, e um dos principais objetivos da conferência é discutir a leitura e a interpretação dos três primeiros capítulos do Gênesis, além de tratar de modelos de diálogo entre ciência e fé. Dá pra ir sem medo!

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 21/07/16 11:18:42 AM

Todo mundo conhece a atriz Mayim Bialik do seriado The Big Bang Theory, em que ela interpreta Amy Farrah Fowler. Atriz e personagem têm algo em comum: ambas são neurocientistas. E Mayim professa uma variante do Judaísmo ortodoxo (seu ex-marido, que era mórmon, inclusive se converteu antes do casamento), aderindo a diversos costumes rituais judaicos, como os relativos à alimentação, estudando as escrituras e divulgando a religião em vídeos.

E, para responder às inevitáveis perguntas sobre como pode uma neurocientista ser também uma pessoa religiosa, Mayim produziu este vídeo aqui:

(A página brasileira de Facebook Mayim Fans colocou legendas, você pode ver aqui)

A atriz Mayim Bialik, de The Big Bang Theory

Mayim Bialik é neurocientista e judia ortodoxa.

É um vídeo muito bom, em que a atriz desmistifica algumas noções de Deus muito caras aos criadores de espantalho neoateístas como, por exemplo, o Deus antropomorfizado que funciona muito bem nas tirinhas do Laerte como recurso humorístico, mas que sabemos ser bem diferente do que realmente é a divindade. Ela ainda defende de forma muito enfática que não há nada de bizarro ou de esquizofrênico em aceitar todos os postulados da ciência e ainda crer em Deus.

Mayim fala de “relacionamento com Deus”, dando a impressão de que sua concepção de Deus é justamente aquela judaico-cristã, de uma divinidade pessoal, não distante de nós; mas no início, quando descreve o que Deus não é em sua opinião, parece recusar a ideia de uma divindade que responda às nossas orações, por exemplo, o que já destoa um pouco até mesmo da fé que ela professa. À medida que o vídeo segue, pelo menos para mim parece que Mayim encontra Deus menos no “relacionamento pessoal” com Ele e mais na contemplação da grandiosidade da natureza. Ainda no início ela até diz que “Deus é a gravidade” e “a força centrífuga”, o que obviamente Deus não é. Confundir criatura (as leis que regem o universo) com seu autor é bem complicado. Mas posteriormente ela vai se corrigindo e colocando as coisas em seu devido lugar. Seria interessante saber o que Mayim pensa sobre a tal “Teologia Natural” de que já falamos aqui no blog em outras oportunidades, pois o pensamento mostrado no vídeo parece se aproximar dessa corrente de pensamento.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Páginas12345... 63»
Este é um espaço público de debate de idéias. A Gazeta do Povo não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
Buscar no blog
Acompanhe a Gazeta do Povo nas redes sociais