PUBLICIDADE

Tubo de Ensaio

Enviado por Marcio Antonio Campos, 10/02/16 8:22:50 PM

A Universidade de Oxford, por meio do Centro Ian Ramsey para Ciência e Religião, e a Universidade Federal da Bahia estão convocando acadêmicos latino-americanos para o workshop “O cérebro, a mente e a pessoa”, que ocorrerá em Salvador, de 15 a 19 de agosto. O evento é parte do projeto Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina, do IRC, com recursos da Fundação John Templeton.

cidade de Salvador (BA)

Salvador receberá o segundo workshop do projeto Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina. (Foto: Max Haack/Agecom)

Até 28 pesquisadores terão a oportunidade de apresentar e discutir seu trabalho, além de ouvir palestrantes como Facundo Manes (que falará sobre a neurociência e a tomada de decisões), Justin Barrett (ciência cognitiva da religião), Barry Smith (as implicações filosóficas da compreensão neurocientífica da mente) e Andrew Pinsent (questões teológicas sobre a noção de pessoa). Os selecionados receberão uma bolsa que deve cobrir os gastos com viagem, hospedagem e alimentação.

As inscrições vão até 30 de abril e precisam ser feitas em inglês. Clique aqui para conferir todas as exigências e outras informações relevantes sobre o evento.

(Aviso: A Fundação John Templeton e o Centro Ian Ramsey, mencionados neste post, bancaram a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 03/02/16 5:40:19 PM

Ciência e fé, tecnologia e espiritualidade, e educação e espiritualidade serão os três grandes temas da primeira edição do Átrio dos Gentios no Brasil, realizada pelo Vaticano e pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), de 11 a 13 de abril. O Átrio é uma iniciativa do Pontifício Conselho para a Cultura, com o objetivo de incentivar o diálogo especialmente entre crentes e não crentes nas áreas de interesse comum a ambos os grupos. Foi criado em 2011 pelo cardeal Gianfranco Ravasi, inspirado no discurso de Natal do papa Bento XVI à Cúria Romana, em 2009. Na ocasião, o pontífice tratou da necessidade de a nova evangelização chegar também aos que não reconhecem a Deus: “Penso que a Igreja deveria também hoje abrir uma espécie de ‘átrio dos gentios’, onde os homens pudessem de qualquer modo agarrar-se a Deus, sem O conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério, a cujo serviço está a vida interna da Igreja”. A expressão remete à área do antigo Templo de Jerusalém onde os não judeus, proibidos de entrar nas outras regiões do edifício, podiam encontrar os sacerdotes e escribas para falar sobre a fé.

cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura

O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, virá a Curitiba para o evento do Átrio dos Gentios. (Foto: Andreas Solaro/AFP)

Desde 2011, o Átrio dos Gentios realiza eventos curtos, de poucos dias, em Roma, outras cidades italianas e outros países: já passou por França, Romênia, Albânia, México, Espanha, Suécia, Portugal, Polônia, República Tcheca, Alemanha, Hungria, Estados Unidos, Argentina e Uruguai. Normalmente, a iniciativa parte dos interessados em sediar o evento. Foi o que ocorreu com a PUCPR. “Nós procuramos o Pontifício Conselho para a Cultura em 2011. Eles negaram, mas acrescentaram que estavam tratando com a CNBB sobre a possibilidade de uma edição do Átrio dos Gentios no Brasil”, conta Fabiano Incerti, diretor do Instituto Ciência e Fé da PUCPR. Então, a universidade foi atrás da CNBB, para deixar claro que havia interesse em realizar o evento em Curitiba, caso as negociações fossem adiante. A confirmação veio no fim de 2015.

A programação não está toda fechada, bem como a lista de convidados e palestrantes, mas já se sabe que cada dia do evento será dedicado a um tema. Ciência e fé abre esta edição do Átrio, e o principal destaque é uma mesa-redonda com a participação do cardeal Ravasi e do astrofísico Marcelo Gleiser. “Tínhamos alguns nomes em mente para esse evento específico, e ficamos muito contentes pelo fato de o Marcelo Gleiser ter topado porque, apesar de ele ser agnóstico, a postura pessoal dele não é de confronto, mas de diálogo. E queríamos alguém que realmente estivesse disposto a conversar, não a partir para o embate”, conta Incerti.

O segundo dia, dedicado à interação entre tecnologia e espiritualidade, terá como principal convidado o professor Luli Radfahrer, consultor em inovação digital. O último dia tem como tema educação e espiritualidade, e deve incluir um encontro do cardeal Ravasi com jovens estudantes. O encerramento terá um show da Família Lima, que já tocou para o papa João Paulo II no Jubileu das Famílias, em 2000. “O ‘diálogo’ que eles fazem entre o clássico e o moderno vem muito ao encontro do que estamos querendo fazer, o diálogo entre a religião, a ciência e a cultura”, afirma o diretor do Instituto Ciência e Fé.

De prático, além das datas e de parte da programação, já sabemos que o evento será gratuito, com inscrições on-line. O site da edição brasileira do Átrio dos Gentios ainda está em preparação, e todas as novidades estarão aqui no Tubo de Ensaio.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 01/02/16 3:57:42 PM

O blog estava devendo um relato sobre o workshop de ciência e religião realizado ano passado em Galápagos, evento que foi amplamente divulgado aqui. Pois bem, o Heslley Machado Silva, biólogo e professor, foi um dos participantes e nos mandou esse relato, que só é publicado agora por pura lerdeza do blogueiro.

Heslley Machado Silva e tatarugas-gigantes em Galápagos

Poder encontrar as tartarugas-gigantes foi um dos pontos altos dos passeios, conta Heslley Machado Silva. (Foto: Arquivo pessoal)

Uma semana em Galápagos: uma oportunidade única

Heslley Machado Silva

O convite para mais um envio de texto para esse blog foi uma grande satisfação, por tentar contribuir para a temática tão pertinente que aqui é tratada, mas também uma oportunidade para contar sobre minha experiência tão rica nas Ilhas Galápagos, no workshop “A Origem e o Conceito da Vida”. Esse evento foi promovido pelo Centro para Ciência e Religião Ian Ramsey (IRC) da Universidade de Oxford, tendo à frente da proposta o dr. Ignacio Silva, e o Instituto Galápagos para as Artes e Ciências (Gaias), com o suporte financeiro da fundação norte-americana John Templeton.

É importante ressaltar que, a despeito do que já foi dito sobre essa fundação por Richard Dawkins – eminente biólogo evolucionista por quem, como também biólogo, nutro profundo respeito pelas suas obras no campo da biologia, mas cuja posição sobre a relação entre ciência e religião vejo com ressalvas –, nem tudo que é divulgado sobre essa fundação é verdadeiro. Posso afirmar que quando Dawkins, tão popular no Brasil, diz que a Fundação John Templeton apoia somente trabalhos de apoio à religião, como as abordagens criacionistas e do Design Inteligente, ele está errado. Não sou ligado a nenhuma religião, não sou uma pessoa religiosa, sou evolucionista convicto, tenho participado de eventos relacionados a essa fundação nos últimos anos, e pretendo ter um projeto financiado pela mesma nos próximos anos. Posso afirmar que não há cunho religioso; eles apenas propõem uma visão de harmonia e possível colaboração entre os dois campos. Portanto, se qualquer pesquisador brasileiro ou de qualquer outro país latino-americano tiver interesse em pesquisas que envolvam a interface entre ciência e religião, e que não tenha uma visão dogmática em relação a qualquer um dos dois campos, pode e deve submeter seus projetos ao financiamento dessa fundação, pois eles têm demonstrado muito interesse em dar suporte na América Latina e, em especial, no Brasil.

O processo para o workshop começou com uma seleção na qual era necessário ser pesquisador latino-americano; foram selecionados 28 candidatos. Foi solicitada uma proposta de artigo que envolvesse a questão da origem da vida ou a possibilidade de vida extraterrestre e suas implicações para a ciência, a filosofia e a teologia, entre outros. Novamente destacando o caráter laico e científico da proposta, em momento algum foi solicitado na proposta algum viés religioso, com defesa de alguma posição ligada a esse campo. Tanto o grupo britânico que promoveu o evento quanto a fundação fomentadora indicam que buscam o respeito mútuo entre os campos – e, como biólogo evolucionista, me alio a esse tipo de visão. Só para exemplificar e finalizar essa minha consideração, o Ian Ramsey Center, em seu projeto como um todo, está oferecendo bolsas para desenvolvimento de pesquisas durante seis meses em universidades europeias e americanas. Mas as propostas serão excluídas se tratarem de criacionismo ou Design Inteligente – ou seja, de fato Dawkins está enganado.

Heslley Machado Silva e Ignacio Silva

Heslley e o dr. Ignacio Silva, da Universidade de Oxford, um dos coordenadores do projeto sobre ciência e religião na América Latina (Foto: Arquivo pessoal)

Como biólogo evolucionista, seria desnecessário ressaltar minha vibração com a seleção de meu trabalho e o suporte financeiro para estar nas Ilhas Galápagos, pelo simbolismo e relevância que o local tem para a ciência e, em especial, para a biologia. Em 2009, nas comemorações relativas ao aniversário de nascimento de Darwin e da publicação de A Origem das Espécies, tive um trabalho selecionado para apresentação oral em um evento em Galápagos, mas, por uma série de percalços, não pude ir; agora, minha vez havia chegado. Finalmente iria conhecer o lugar que tanto influenciou minha carreira e minha disciplina, que já gerou tanta discussão nas minhas aulas de evolução. O tempo todo eu refletia que a minha presença nesse tipo de proposta era a certeza de que é possível o diálogo e o respeito mútuo entre a ciência e a religião. Algo que já havia percebido nos papos com o blogueiro, quando nos conhecemos em Oxford, em um evento  proposto justamente pelo mesmo grupo e financiado pela mesma fundação.

Algo que é importante destacar no evento foi a possibilidade de trocar ideias e de fazer contatos e projetos futuros com outros pesquisadores latino-americanos. Nós, brasileiros, temos pouco intercâmbio com outros pesquisadores de outros países dessa parte do mundo. Tenho pouca informação sobre a pesquisa em outros países dessa região e esse foi um momento ímpar, pois em uma semana participando das mesmas atividades, sejam acadêmicas e ou até recreativas, criam-se novas oportunidades de projetos, pesquisas, artigos e novos encontros frutíferos. Considero esse contato raro entre nós, pesquisadores brasileiros, com seus pares latino-americanos. Essa questão foi ressaltada em uma das apresentações do workshop, feita pelo dr. Andrew Pinsent, que também é padre católico.

As palestras do workshop também merecem destaque. O professor e pesquisador Rafael Vicuña, do Chile, que trabalha com genética molecular e microbiologia, falou brilhantemente sobre a origem da vida, sobre as pesquisas mais recentes relativas ao tema, sempre com um enfoque científico. A dra. Celia Deane-Drumond, teóloga da Universidade de Notre Dame (Estados Unidos), versou sobre o significado teológico da vida, bem como as implicações para a teologia que envolvem a possibilidade da vida extraterrestre. Finalmente fomos agraciados com a apresentação do dr. John Brooke, professor emérito de Ciência e Religião da Universidade de Oxford, que abordou os debates históricos que envolveram a teologia, a filosofia e a história natural com a possibilidade da vida extraterrestre, e também tratou, de forma magnífica, da visão de Darwin sobre a origem e a diversidade da vida. Assistir a essas palestras matutinas no Instituto Gaias para as Artes e Ciências, localizado diante de uma praia cheia de vida selvagem, próximo de trilhas que o próprio Charles Darwin percorreu, teve uma representação simbólica muito excitante para os interessados nas temáticas propostas.

Heslley Machado Silva e John Brooke

O dr. John Brooke se mostou sempre muito solícito e prestativo para ajudar os pesquisadores participantes do workshop. (Foto: Arquivo pessoal)

Durante as tardes, pude participar do grupo de trabalho com temas afins, no qual pude conhecer e interagir com as pesquisas desenvolvidas pelos pares latino-americanos, havendo intervenções e sugestões, com intenção de produzir um artigo científico de alto nível. O ponto alto dessa atividade foram os comentários e indicações propiciadas por Brooke, que discutiu todas as propostas de artigos, através da apresentação de cada um dos pesquisadores latino-americanos e da leitura prévia que o mesmo já havia feito dos textos. Chamou muito minha atenção a disposição em ajudar do professor emérito de Oxford. Mesmo quando estávamos fora do grupo de trabalho, em atividades diversas, nos almoços, passeios e demais encontros, Brooke se revelou uma pessoa extremamente solícita e paciente com todas as perguntas e discussões que constantemente lhe eram instigadas. Vale ressaltar também a sua admirável disposição e vigor em acompanhar os pesquisadores latino-americanos nas trilhas e visitação às ilhas.

Apesar de a proposta do workshop prever uma intensa programação, houve a oportunidade de interagir com a população insular, seja nas cercanias do hotel ou nas refeições nos restaurantes locais. O ponto alto do aspecto turístico do evento – e, de minha parte, também científico – ocorreu quando fomos premiados com um passeio na ilha pela manhã e conhecemos o parque nacional de Galápagos, o local onde Darwin aportou, algumas de suas trilhas e os locais de reprodução das tartarugas-gigantes. À tarde, fomos levados de barco para conhecer a preservada vida selvagem oceânica, com as iguanas, atobás e outros animais singulares das ilhas; finalmente, fizemos um espetacular mergulho no qual os pesquisadores puderam usufruir plenamente dessa oportunidade única de interação com a natureza nesse patrimônio da humanidade. Apenas para ilustrar como essa parte do evento pode ser marcante para alguém que trabalha com zoologia e evolução, como é o meu caso, dois meses depois desse passeio foi descoberta uma nova espécie de tartaruga-gigante em Galápagos e meus alunos do curso de Ciências Biológicas vieram até mim comentar essa notícia. Quantos professores podem discutir essa novidade tendo estado no local onde foi realizada a descoberta, já tendo interagido com esses animais formidáveis? De fato, foi um privilégio em minha carreira.

Ao ter a oportunidade de descrever essa incrível experiência, deixo uma mensagem que julgo importante para os pesquisadores brasileiros e dos demais países latino-americanos que se interessam por ciência e religião. Desde que entrei em contato com esse grupo de Oxford, liderado pelo dr. Ignacio Silva, e com a Fundação John Templeton, em um congresso ocorrido quatro anos atrás no Rio de Janeiro, tive oportunidade de participar de um evento em Oxford, outro evento no Rio de Janeiro, deste workshop em Galápagos, e escrevi um capítulo de um livro sobre ciência e religião, editado pelos mesmos colegas; em nenhum momento me foi indagado se tenho ou não religião, ou se iria fazer a defesa ou o ataque de qualquer vertente científica ou religiosa. Pelo contrário, me senti sempre à vontade como biólogo evolucionista e crítico ferrenho de qualquer intervenção no ensino de Ciências e Biologia que sugira o ensino do criacionismo ou do Design Inteligente. Portanto, para todos aqueles que queiram submeter projetos de pesquisa à Fundação John Templeton ou ao grupo de pesquisa de Oxford, nas diversas oportunidades que são oferecidas, sugiro que vá em frente, que Dawkins está errado na sua visão da fundação, e que, se quiserem trocar mais ideias sobre essa submissão e quaisquer outros assuntos relacionados, estou à disposição pelo e-mail heslley@uniformg.edu.br, para tentar ajudar com a minha limitada experiência.

(Aviso: A Fundação John Templeton e o Centro Ian Ramsey bancaram a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/01/16 5:44:25 PM

A partir desta quinta-feira até 1.º de fevereiro, um congresso no Arizona está reunindo vários especialistas da área de ciência e religião, como Jennifer Wiseman (da Associação Americana para o Avanço da Ciência) e Guy Consolmagno (o jesuíta diretor do Observatório Vaticano), e 15 representantes de diversos seminários católicos norte-americanos, que receberam bolsas da Fundação John Templeton para oferecer conteúdos de ciência e religião a seminaristas como parte de sua preparação para o sacerdócio. Uma iniciativa interessantíssima da Universidade John Carroll (que montou o projeto financiado pela JTF) e que merece ser acompanhada com muita atenção.

O padre Joseph Laracy foi engenheiro da Nasa antes de se tornar padre

O padre Joseph Laracy foi engenheiro da Nasa antes de se tornar sacerdote e vai coordenar um curso sobre “Criação e ciência” para seminaristas. (Foto: Ashley Wilson/Seton Hall University)

Conversei por e-mail com os responsáveis por três cursos. Todos foram enfáticos a respeito da necessidade de o clero ter mais conhecimentos sobre o tema, especialmente no contexto norte-americano. “Os fundamentalistas e os ateus militantes estão fazendo muita gente acreditar que a fé cristã e a ciência jamais podem ser reconciliadas. Os católicos têm a obrigação de combater esse erro”, diz o padre (e ex-engenheiro da Nasa) Joseph Laracy, do Seminário Imaculada Conceição, em Nova Jersey, que organizou um curso chamado “Criação e ciência”. “Não apenas o clero, mas todos os católicos precisam conhecer a contribuição da Igreja para o desenvolvimento da ciência e saber que a tradição teológica católica não vê nenhum conflito intrínseco entre ciência e fé”, acrescenta. Edward Hogan, que cuidará do curso “Ciência e teologia: em diálogo para a nova evangelização” no Seminário Kenrick-Glennon, no Missouri, diz que o primeiro motivo pelo qual um seminarista ou padre deveria se preocupar com temas de ciência “é o fato de Deus ter nos dado o dom da razão junto com o dom da fé. Trabalhar com apenas um ou outro é como respirar com um único pulmão – é possível, mas limita suas atividades”. Hogan concorda com o padre Laracy a respeito de a cultura atual propor o conflito entre ciência e fé e, por isso, é preciso haver quem mostre a verdade a respeito. “Mas é preciso saber o que as pessoas pensam, os seus pressupostos, as dúvidas que elas têm. É difícil proclamar o Evangelho sem saber a ‘língua local’. Quando se sabe o que está na mente e nos corações das pessoas, é mais fácil atingi-las, proclamar a Boa Nova de forma que lhes traga esperança e alegria.”

Stacy Trasancos, que vai coordenar o curso “Ciência à luz da fé” no Seminário e Faculdade Santos Apóstolos, no Connecticut, cita o físico francês Pierre Duhem, que em 1894 já havia escrito: “Digo com franqueza a todos os bons filósofos católicos que, enquanto eles continuarem a falar sobre ciência sem saber uma única palavra sobre isso, os pensadores-livres se divertirão às suas custas; para tratar de questões sobre filosofia católica e ciência, é preciso ter de dez a 15 anos na área” (alguém se lembrou do famoso alerta de Santo Agostinho?). Trasancos diz que o alerta de Duhem segue tão válido quando no fim do século 19, mas pode ser atualizado. “Claro que essa exigência de formação é irrealizável em nossos dias, mas hoje, com a difusão pública da ciência, se um seminarista souber como se virar com a literatura científica, mesmo de alto nível, ele poderá se manter atualizado nas áreas que interessam e ele e a seus paroquianos”, afirma. Para ela, é fundamental que o seminarista nunca perca de vista que não pode haver contradição entre a verdade científica e a verdade teológica, e que buscar as novidades científicas na fonte ajuda a entender como a ciência é construída e a evitar as armadilhas do que ela chama de “pop-science“.

Como se pode observar pela lista dos 15 projetos contemplados, os temas são variados e vão desde abordagens mais gerais até temas específicos como evolução, neurociência e biotecnologia. O padre Laracy explica por que escolheu o tema da criação para seu curso: “Esse conceito é essencial para desenvolver uma compreensão saudável da compatibilidade entre a ciência e a teologia. A criação, obviamente, é um tópico metafísico, ou seja, além da física”, diz, acrescentando que o curso também tratará de assuntos como evolução e mudanças climáticas.  Já Stacy Trasancos conta que um aspecto importante do seu curso é tornar os seminaristas capazes de ler artigos científicos, para que estejam atualizados com as novidades, principalmente nos campos da evolução, da genética e da neurociência, e avaliar o que leem à luz da fé católica, daí o nome de seu projeto.

Hogan colocou a “nova evangelização” como fator importante de seu curso. “Algo que o papa Bento XVI enfatizou foi trazer todos os recursos da tradição católica para nosso trabalho como teólogos e professores. E o papa Francisco enfatiza que temos de ir às pessoas onde elas estão, e um desses ‘lugares’ é a mentalidade científica, normalmente atolada na presunção de que ciência e fé estão em conflito. Quero que os seminaristas sejam capazes de ir até lá, com todos os recursos que a tradição católica oferece, para levar a Boa Nova do amor divino por meio da fé e da razão. Então, posso dizer que esse projeto é uma combinação das prioridades dos dois papas”, diz.

papa joão paulo ii

O papa João Paulo II já tinha pedido que a formação dos padres permitisse que eles pudessem participar do diálogo entre ciência e fé. (Foto: Yuri Cortez/AFP)

Os três coordenadores com quem conversei deixaram claro que é a primeira vez que conteúdos desse tipo são oferecidos em seus seminários, embora, em algumas instituições, outras disciplinas já tratassem, de passagem, de alguns assuntos de ciência e fé. “Quando converso com os colegas aqui em St. Louis, eles perguntam ‘mas tem mais alguém fazendo isso?’. Eles querem saber se existe mesmo uma preocupação com ciência e fé, e se vale a pena fazer algo nessa área. Agora posso dizer que há pelo menos 15 de nós cuidando disso e, quando eu voltar do Arizona, tendo detalhes dos outros projetos, posso encorajar a equipe daqui, fazê-los saber que há gente trabalhando no assunto”, afirma Hogan.

As aulas devem começar para valer no segundo semestre de 2016 e o projeto termina no meio de 2018. Embora o público-alvo prioritário sejam os seminaristas, alguns cursos serão abertos para sacerdotes e católicos leigos. “Num nível mais profundo, estamos cientes de que tudo o que fazemos não é só para esses homens, mas para o povo que eles vão servir. Então o alvo final do projeto é ajudar as pessoas nas paróquias! Se perdemos isso de vista, não entendemos pra que serve um seminário”, diz Edward Hogan. A maioria dos cursos será oferecida no formato tradicional de aulas, com algumas variações: o curso de Stacy Trasancos, por exemplo, usará muitas aulas on-line (modelo que ela domina desde que deixou a DuPont, onde fez carreira na área química, para cuidar dos filhos em casa). Seus alunos, posteriormente, desenvolverão um site e farão papers no mesmo modelo dos artigos científicos que analisarão. Entre as atividades propostas por Hogan estarão duas “conversas de elevador”, em que os seminaristas terão 60 segundos para responder a alguém que diga “então, padre, o senhor não crê na evolução, pois ela contradiz a Bíblia” ou “então, padre, o senhor não se opõe à evolução, pois não lemos a Bíblia literalmente”.

A iniciativa ganhou apoio do Vaticano. O arcebispo Jorge Carlos Patrón Wong, secretário para Seminários da Congregação para o Clero, enviou uma carta à coordenadora do projeto, Doris Donnelly (que não pôde responder às perguntas enviadas pelo blog), manifestando seu apoio e o do cardeal Beniamino Stella, prefeito da congregação. “O projeto (…) é de profunda importância no esforço de formar sacerdotes capazes de dialogar com a sociedade contemporânea do século 21″, diz a carta. De fato, trata-se de cumprir o que o papa São João Paulo II pediu em 1992, na sua carta Pastores dabo vobis, sobre a formação dos padres, um dos vários documentos citados no próprio site do projeto para justificar a preocupação com o tema: “A situação atual, profundamente marcada pela indiferença religiosa e ao mesmo tempo por uma difusa desconfiança relativamente às reais capacidades da razão para atingir a verdade objetiva e universal, e pelos problemas e questões inéditos provocados pelas descobertas científicas e tecnológicas, exige prementemente um nível excelente de formação intelectual, que torne os sacerdotes capazes de anunciar, exatamente num tal contexto, o imutável Evangelho de Cristo, e torná-lo digno de credibilidade diante das legítimas exigências da razão humana”.

Como eu disse no começo, é um projeto fabuloso. Quando fiz a sondagem com seminaristas brasileiros em 2011, uma das coisas que descobri foi que mesmo aqueles que não demonstravam interesse pessoal em temas de ciência e fé consideravam o tema importante. Que esse projeto seja a semente para algo mais amplo e que inspire outros seminários, dentro e fora dos Estados Unidos, a incluir o tema na formação de seus candidatos ao sacerdócio.

(Aviso: A Fundação John Templeton, mencionada neste post, ajudou a bancar a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 26/01/16 6:14:32 PM

Nem sabia que existia um rapper chamado B.o.B. Tive de fazer uma pesquisa; descobri que ele tem 27 anos e já emplacou um ou outro hit nas paradas norte-americanas. Já bastaria para fazer dele uma celebridade entre tantas outras, mas dias atrás ele resolveu mexer com temas de ciência e soltou diversos tweets para seus 2,3 milhões de seguidores alegando que a Terra é plana. O astrofísico Neil DeGrasse Tyson (4,8 milhões de seguidores) resolveu ensinar o básico ao rapaz, e os dois discutiram no Twitter. Quer dizer, Tyson tentou explicar as coisas com elegância, e o rapper não demonstrou muita reciprocidade no estilo.

O rapper B.o.B resolveu defender no Twitter que a Terra é plana. (Foto: Divulgação/The Come Up Show)

O rapper B.o.B resolveu defender no Twitter que a Terra é plana. (Foto: Divulgação/The Come Up Show)

A história foi contada pelo site da Entertainment Weekly. Aí a Time resolveu repercutir, e acrescentou um detalhe preocupante. “Qualquer estudante de primário aprende que Cristóvão Colombo desmentiu a existência de uma Terra plana ao navegar para a América em 1942 (e alguns, mais tarde, aprendem que a teoria foi amplamente desqualificada antes mesmo disso)”, diz a revista. Bom, se é realmente isso que as crianças aprendem nos Estados Unidos, só posso ter pena delas porque, como estamos cansados de saber por aqui, o papel de Colombo como “caçador de mitos” é irrelevante, já que ninguém em sua época levava a sério a teoria da Terra plana. Se for para colocar as Grandes Navegações no esquema, muito mais relevante foi a contribuição de Fernão de Magalhães e sua circunavegação, realizada quase 30 anos depois da primeira viagem de Colombo. Pior ainda é saber que nem todos os estudantes descobrirão que ninguém dava bola para a Terra plana na época de Colombo porque os europeus medievais sabiam muito bem que a Terra era esférica. São esses que acabarão perpetuando o mito de que na Idade Média a ideia predominante era a da Terra plana.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 05/01/16 11:54:23 AM

O canal de tevê por assinatura +Globosat está exibindo a série espanhola Isabel, rainha de Castela, produzida entre 2012 e 2014. Como o nome indica, trata-se de uma biografia romanceada da rainha Isabel, em cujo reinado se concluiu a Reconquista, a guerra contra os mouros que ocupavam a Península Ibérica. Vi alguns episódios da segunda temporada, que começa com a coroação da rainha e termina com a conquista de Granada, e achei a produção bem interessante.

No episódio 10 dessa segunda temporada, entra em cena o genovês Cristóvão Colombo. Depois de ter sua ideia de atingir a Ásia navegando sempre para o oeste rejeitada pelo rei de Portugal, Colombo procurou a corte castelhana. Na série, ele tenta justificar seu projeto usando cartas de navegação falsificadas, sendo desmascarado pelo frei Fernando de Talavera, confessor e conselheiro da rainha Isabel. Apesar disso, a rainha não descarta a possibilidade de Colombo estar certo e pede ao frade que convoque um conselho de sábios para discutir o tema.

Colombo na série Isabel, Rainha de Castela.

Na série “Isabel, rainha de Castela”, Cristóvão Colombo tenta persuadir a rainha Isabel a financiar sua viagem à Ásia. (Foto: Divulgação)

Mas, antes que isso ocorra, há um diálogo interessante. Uma das mulheres próximas a Isabel na corte pergunta à rainha como a Terra poderia ser redonda. “Ela é plana como 2 e 2 são 4″, diz, questionando como as pessoas que estariam no hemisfério oposto não cairiam (no caso, “cairiam para cima”, desgarrando-se do chão). Nas cenas seguintes, frei Fernando comunica a Colombo os resultados das análises dos sábios, que se opõem à viagem alegando que o diâmetro da Terra é muito maior que o estimado por Colombo. Aqui, em nenhum momento se duvida da esfericidade do planeta; o que está em jogo é o seu tamanho (e, de fato, a distância real entre a Europa e a Ásia é de três a quatro vezes maior que a estimada por Colombo). No fim do episódio, Isabel procura Colombo, que está para partir em busca de financiamento em outros reinos, e lhe diz que bancará seu projeto assim que termine a guerra contra os mouros. No episódio 12, Colombo é alertado da dimensão de seus erros de cálculo e, no episódio 13, que encerra a segunda temporada, o navegador parte para sua viagem.

O pequeno diálogo sobre a Terra plana mostra como ainda persiste uma mitologia antirreligiosa criada no século 17 e propagada principalmente pelos nossos já conhecidos John William Draper e Andrew Dickson White, mas neste caso também por Washington Irving, autor de uma biografia de Colombo publicada em 1828. Mas a realidade, atestada por historiadores e cientistas como James Hannam, Ronald Numbers e Stephen Jay Gould, é que os cristãos medievais sempre reconheceram a esfericidade da Terra. Os criadores de mitos se apoiaram em dois cristãos, Lactâncio (séculos 3.º e 4.º) e Cosmas Indicopleustes (século 6.º), que efetivamente defendiam uma Terra plana, como prova de que havia um consenso neste sentido, quando na verdade sua posição nunca passou de uma crença marginal. Nem mesmo se pode estabelecer uma espécie de oposição entre “cristãos esclarecidos” (como seriam os membros da comissão montada pelo reino de Castela), conhecedores da esfericidade da Terra, e “cristãos ignorantes” (como a ajudante de Isabel), que acreditariam numa Terra plana. Os próprios marinheiros de Colombo, que estariam neste segundo grupo, não imaginaram que estavam navegando rumo a uma “borda do planeta”, depois da qual mergulhariam numa queda sem fim. E a iconografia medieval cristã, usada muitas vezes como meio de instrução para os analfabetos da época, tem muito mais elementos que apoiam a esfericidade da Terra que o seu oposto.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/10/15 8:14:20 PM

Continuando nossa análise dos resultados da pesquisa do Pew Research Center, iniciada no post de anteontem, queria comentar um tema bem específico: a opinião dos norte-americanos sobre a participação das religiões no debate a respeito de políticas públicas relativas a temas científicos. A população está praticamente dividida: enquanto 50% dos entrevistados acreditam que as igrejas deveriam participar da discussão, 46% acham que eles deveriam ficar de fora da conversa (os dados estão no terço final da página linkada neste parágrafo).

A tendência a defender a participação das igrejas no debate aumenta à medida que o entrevistado vai a cultos religiosos com maior frequência. E o outro recorte que nos interessa tem a ver com a denominação do entrevistado: dois terços ou mais dos evangélicos brancos e dos protestantes negros são a favor do engajamento das igrejas na discussão sobre políticas públicas envolvendo temas científicos. Por outro lado, menos da metade dos católicos tem essa posição: são 45%, contra 49% segundo os quais as igrejas não têm de participar do debate. Não deixa de ser curioso, porque faz bem pouco tempo o papa Francisco lançou uma encíclica que tem um propósito claro de influenciar as discussões sobre as políticas ambientais. Mas, enquanto a Laudato Si’ foi divulgada em 18 de junho deste ano, a pesquisa da Pew foi feita em agosto do ano passado.

O papa Francisco e o presidente Barack Obama

O papa Francisco e o presidente Barack Obama: católicos são os que mais discordam do envolvimento das igrejas no debate sobre políticas públicas envolvendo temas científicos, segundo pesquisa. (Foto: U.S Air Force photo/Tech. Sgt. Robert Cloys)

Não consta que a pesquisa tenha feito perguntas mais aprofundadas sobre quais seriam esses temas de políticas públicas envolvendo ciência a respeito dos quais as religiões deveriam ter o direito de se manifestar. Mas podemos citar alguns, além das próprias questões ambientais. Pelo menos nos Estados Unidos, é grande a pressão pela revisão dos currículos de ensino de ciências, para que acomodam visões criacionistas ou o Design Inteligente, ou para que tirem força dos conteúdos sobre evolução. Além disso, há as práticas científicas que colidem frontalmente com algumas convicções religiosas: por exemplo, a legislação deveria permitir, ou o governo deveria bancar pesquisas envolvendo manipulação genética ou a destruição de embriões para a obtenção de células-tronco?

Minha posição pessoal é a de que as igrejas são integrantes da sociedade civil tanto quanto sindicatos, entidades de classe, ONGs, associações de bairro e o que mais houver nesse sentido. Portanto, têm todo o direito de manifestar sua opinião sobre temas nos quais julgue ter uma contribuição importante a oferecer. Isso nem de longe significa a “violação do Estado laico” que muita gente adora invocar nesses casos, afinal a decisão final continua sendo do poder público, seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário. A igreja ou grupo religioso vai oferecer seus argumentos, não vai impor um resultado final. E esse intercâmbio pode ajudar os religiosos a se inteirar das mais recentes técnicas e descobertas científicas.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 26/10/15 4:21:56 PM

O Pew Research Center divulgou, na semana passada, mais uma pesquisa bem abrangente com a opinião dos norte-americanos sobre uma série de temas científicos, e fez diversos recortes, inclusive aqueles relativos à religião. Uma das conclusões a que o estudo chegou é que a religião está longe de ser o fator que mais se impõe na hora de influenciar as visões das pessoas sobre assuntos de ciência. Confiram o gráfico que aparece nesta página: em apenas dois temas (evolução e controle da população) a religião é um fator muito relevante na hora de “moldar” opiniões. Essa influência é média em sete assuntos (todos eles relativos a temas de bioética e mudanças climáticas) e, nos outros 14 temas, a importância da religião na hora de definir posições pessoais é pequena. Comparem esses números com os demais fatores pesquisados: filiação política e idade, por exemplo, batem de longe a religião como “definidora” de convicções sobre temas científicos. Mas, como nosso tema aqui é ciência e fé, vamos deixar de lado a política e comentar o que nos interessa.

Os resultados são muito curiosos: enquanto 59% dos entrevistados acreditam que, de modo geral, ciência e fé estão sempre em conflito, contra 38% que as consideram compatíveis, a coisa muda radicalmente de figura quando se pergunta se há conflito entre a ciência e as convicções religiosas do entrevistado. Aí, apenas 30% dizem haver conflito, contra 68% que não veem incompatibilidade nenhuma. Ou seja, o problema, pelo jeito, é a religião dos outros…

Quem vai a cerimônias religiosas com mais frequência tem menos tendência a ver conflito entre ciência e religião, segundo estudo do Pew Research Center. (Foto: Antonio More/Gazeta do Povo)

Quem vai a cerimônias religiosas com mais frequência tem menos tendência a ver conflito entre ciência e religião, segundo estudo do Pew Research Center. (Foto: Antonio More/Gazeta do Povo)

Algumas das conclusões da pesquisa parecem desafiar o senso comum. Por exemplo, são justamente os que vão a cultos religiosos com mais frequência os que menos veem incompatibilidade entre ciência e fé. A porcentagem dos que dizem haver conflito constante é de 50% entre os que vão a cerimônias religiosas pelo menos uma vez por semana, contra 54% dos que vão uma vez por mês ou por ano, e 73% dos que vão raramente ou nunca frequentam cultos religiosos.

A pesquisa também tem os números de acordo com a denominação dos entrevistados. Os grupos que mais tendem a dizer que ciência e religião, em geral, são compatíveis são os católicos hispânicos (50%) e os evangélicos brancos (49%). Apenas os protestantes negros (31%) e aqueles sem filiação religiosa definida (22%) ficaram abaixo da média nacional de 38%. Quando se trata de analisar as próprias convicções religiosas, há uma inversão considerável: os não afiliados são os que mais dizem não haver conflito entre a ciência e as próprias crenças (81%), seguidos pelos protestantes históricos brancos (78%). Todos os demais grupos ficam abaixo da média nacional de 68%.

Mas aí vem a pergunta: onde está o conflito? Eu costumo dividir o “conflito” em duas categorias. Uma delas é a disputa sobre fatos e descobertas científicas. Nesta categoria podemos incluir as controvérsias sobre evolução, sobre a origem e a idade do universo e da Terra, sobre a origem da vida no planeta. Nessa lista também podemos incluir temas como os milagres e o livre arbítrio. A outra categoria é a da oposição, por razões religiosas, a certas práticas ou técnicas desenvolvidas pela ciência. Aqui, poderíamos incluir a maioria dos temas de bioética (aborto, eutanásia, pesquisa com embriões, clonagem, vacinação etc.), manipulação genética de alimentos e coisas do tipo. E, a julgar pelas respostas da pesquisa, a primeira categoria é a principal fonte de conflito entre a ciência e as próprias crenças, pois 36% dos entrevistados citaram questões ligadas à criação do universo e à evolução. O segundo maior grupo (24%) reúne os que mencionaram temas como milagres, certos dogmas (a Imaculada Conceição foi nominalmente citada), a veracidade da Bíblia, se é Deus ou o homem que está “no controle”… só depois aparecem as controvérsias bioéticas, como aborto e início da vida (11%) ou certas práticas médico-científicas (7%). Nos próximos posts vamos destrinchar um pouco esses números.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 07/10/15 1:13:59 PM

O caso Galileu costuma ser invocado por todos aqueles que defendem haver um conflito intrínseco entre ciência e fé. Esse raciocínio, no entanto, que apresenta um inovador científico batendo de frente com o maior poder religioso de seu tempo, é um tanto falho por descartar diversos aspectos bem particulares do caso Galileu e da própria ciência da época, que estava muito longe de aceitar o copernicanismo como consenso. Lá nos inícios do blog tratei deste tema na resenha de Galileu – pelo copernicanismo e pela Igreja e na entrevista com o autor do livro, Annibale Fantoli. Ele dá uma ideia bem mais abrangente de como se desenrolou a controvérsia copernicana. Mas também está disponível, em português, a íntegra das cartas escritas por Galileu e que levaram ao primeiro processo inquisitorial, o de 1616. O volume Ciência e fé – Galileu Galilei, da Editora Unesp, reúne cinco textos do astrônomo florentino: uma carta a Benedetto Castelli, duas a Piero Dini, a famosíssima carta à grã-duquesa Cristina de Lorena e as Considerações sobre a opinião copernicana. O livro ainda inclui a carta do cardeal Roberto Belarmino ao padre Antonio Foscarini, carta essa que também é constantemente citada aqui no Tubo quando o tema é interpretação da Bíblia. As cartas foram compiladas por Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento, mestre e doutor em Estudos Medievais e professor da PUC de São Paulo. Ele escreve um artigo introdutório e um pequeno texto final com comentários à carta à grã-duquesa Cristina.

capa do livro Ciência e fé - Galileu Galilei

Volume recolhe cinco textos de Galileu, incluindo quatro cartas; uma carta do cardeal inquisidor Roberto Belarmino; e dois textos do organizador, Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento. (Imagem: Divulgação)

Em nenhum dos dois processos que sofreu, em 1616 e em 1633, a causa da condenação de Galileu foi sua convicção científica. No primeiro caso, o motivo do processo na Inquisição foi a tentativa de Galileu de oferecer uma nova interpretação de passagens da Bíblia, o que era vetado aos leigos na época; e, no segundo caso, seu erro foi ter desobedecido o que havia sido determinado no desfecho do primeiro processo. As cartas ajudam a esclarecer a forma como Galileu se portou durante a controvérsia inicial, pois foram elas que levaram ao processo inquisitorial. Quando escreveu aqueles textos, Galileu já tinha feito várias descobertas com o seu telescópio e já tinha se metido em diversas polêmicas com outros astrônomos, colecionando desafetos que acabaram usando essas cartas para atacar Galileu. Uma delas, a carta a Castelli, chegou a circular por Roma em versões adulteradas especialmente para prejudicar o astrônomo.

Todas as cartas são permeadas por um eixo comum e giram em torno de uma ideia central: a de que a Bíblia não erra, mas seus intérpretes podem, sim, estar enganados, e corria-se o risco de se “forçar” a Bíblia a fazer a nossa vontade, interpretando-a com o objetivo único e exclusivo de confirmar convicções já existentes – no caso em questão, as convicções relativas ao movimento dos astros celestes, já que havia algumas passagens que pareciam dar a entender que a Terra era imóvel e que o Sol se movia em torno dela. O mais famoso desses trechos, talvez, seja aquele do capítulo 10 do livro de Josué, em que Josué faz parar o Sol para estender o dia de uma batalha que os israelitas estavam vencendo. Mas também há afirmações semelhantes nos Salmos, no Eclesiastes e no primeiro livro das Crônicas.

Nascimento, no texto final, explica que Galileu recorreu a duas teorias em suas cartas, a “teoria da irrelevância” e a “teoria da acomodação”. A primeira consiste em demonstrar que as verdades científicas – e, no caso em questão, as verdades sobre os corpos celestes – não parecem ser algo necessário à salvação, pois, se o fossem, o autor sagrado teria tratado desses assuntos de forma muito mais extensa. O que importa para a salvação são as verdades sobre Deus e sobre o modo como devemos viver para seguir a Sua vontade, que virtudes cultivar e que pecados evitar. A segunda teoria se dirige ao modo de interpretar a Escritura nos temas ligados à natureza. Já que eles não são essenciais para a salvação, devemos partir da observação sensível para entender o que diz o autor sagrado, e não o contrário (nesse sentido, Galileu faz observações bem interessantes à grã-duquesa sobre a afirmação de que a Teologia seria a “rainha das ciências”). Que os cientistas se ocupem desses assuntos, pois Deus nos deu a razão para que a usemos, é o que diz o astrônomo.

Benedetto Castelli e a grã-duquesa Cristina de Lorena

Benedetto Castelli e a grã-duquesa Cristina de Lorena estavam entre os destinatários das cartas de Galileu. (Imagens: Reprodução).

Entre os interlocutores de Galileu, quem tinha mais preocupações com o fato de as novas descobertas enfraquecerem a inerrância da Bíblia era justamente a grã-duquesa Cristina. Por isso, especialmente na carta que escreveu a ela – que era mãe do grão-duque Cosme II, da Toscana, protetor de Galileu – o astrônomo tomou um grande cuidado em, antes de oferecer sua interpretação das passagens bíblicas sobre o movimento dos astros, embasar sua argumentação nos Padres da Igreja, especialmente Santo Agostinho. Galileu conhecia vários trechos da obra De Genesi ad litteram (“sobre a interpretação literal do Gênesis”) e os citou em profusão para defender que, em tudo aquilo que se referia às ciências naturais, era preciso partir primeiro da experiência sensível para depois chegar à interpretação correta da Bíblia, em vez de começar primeiro com uma interpretação da Escritura para se entender a natureza, porque isso poderia causar muitos problemas. Vejamos algumas dessas citações:

“Pelo momento, contentando-nos em observar uma piedosa reserva, nada devemos crer apressadamente sobre esse assunto obscuro [Agostinho se referia a algum tema relativo à natureza], no temor de que, por amor a nosso erro, rejeitemos o que a verdade, mais tarde, poderia nos revelar não ser contrário de modo nenhum aos livros do Antigo e do Novo Testamento.”

“Se acontece que a autoridade das Sagradas Escrituras é posta em oposição com uma razão manifesta e certa, isto quer dizer que aquele que interpreta a Escritura não a compreende de maneira conveniente; não é o sentido da Escritura que ele não pode compreender, que se opõe à verdade, mas o sentido que ele quis lhe dar; o que se opõe à verdade não é o que se encontra na Escritura, mas o que se encontra nele mesmo [no intérprete] e que ele quis atribuir a esta [a Escritura].”

“Deve ser tido por indubitável o seguinte: o que quer que os sábios deste mundo puderem verdadeiramente demonstrar acerca da natureza das coisas, mostremos que não é contrário às nossas Escrituras”

“Se, sobre coisas obscuras e muito afastadas dos nossos olhos, lemos algo nos livros divinos que poderia, salva a fé de que estamos imbuídos, apresentar a uns um sentido e a outros um outro, guardemo-nos bem de nos pronunciar com tanta precipitação por um destes sentidos, no temos de que, se a verdade mais bem estudada o derrubar, nos derrubará com ele.”

“É muito vergonhoso, pernicioso e digno de se evitar ao máximo que um cristão fale destes assuntos [sobre temas da natureza, como assuntos de biologia e astronomia] como estando de acordo com Escrituras cristãs, pois ao ouvi-lo deliberar de tal modo que, como se diz, cometa erros tão absurdos, um infiel mal consegue segurar o riso. E o mal não está em que se zombe de um homem que comete erros, mas que os de fora acreditem que nossos autores afirmem tais coisas. E assim são criticados e rechaçados como ignorantes.”

Agostinho estava alertando, com 1,2 mil anos de antecedência, para equívocos que seriam cometidos na época de Galileu!

Galileu se apoiou pesadamente em Santo Agostinho

Galileu se apoiou pesadamente em Santo Agostinho para argumentar que, em assuntos relativos à natureza, a Bíblia deveria ser interpretada de acordo com as descobertas da observação sensível. (Imagens: Reprodução)

Hoje sabemos que Galileu estava certo no que diz respeito ao movimento da Terra e do Sol (embora tivesse se enganado quanto às provas deste movimento), e também estava certo em sua argumentação sobre a interpretação da Bíblia em termos gerais. Mas o seu erro foi forçar uma reinterpretação de passagens bíblicas – e o próprio Galileu admite que estava fazendo isso, no fim de suas cartas a Dini e a Cristina. De certa forma, Galileu foi empurrado a isso, pois seus adversários, tendo poucos argumentos científicos para rebater o copernicanismo, recorreram à Escritura para tentar derrotá-lo. Galileu, que adorava uma disputa, acabou entrando em “território proibido”, e essa foi a origem de seus problemas. Por isso senti falta, nas observações feitas por Nascimento na introdução e na conclusão do livro, de uma explicação mais pormenorizada sobre as restrições colocadas pela Igreja à interpretação da Bíblia após o Concílio de Trento. Na Sessão VI desse concílio, decretou-se:

786. Ademais, para refrear as mentalidades petulantes, decreta que ninguém, fundado na perspicácia própria, em coisas de fé e costumes necessárias à estrutura da doutrina cristã, torcendo a seu talante a Sagrada Escritura, ouse interpretar a mesma Sagrada Escritura contra aquele sentido, que [sempre] manteve e mantém a Santa Madre Igreja, a quem compete julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras, ou também [ouse interpretá-la] contra o unânime consenso dos Padres, ainda que as interpretações em tempo algum venham a ser publicadas.

Claro, Galileu julgou que o movimento dos astros não entrava na categoria de “coisas de fé e costumes necessárias à estrutura da doutrina cristã”, e por isso considerou-se livre para fazer sua própria interpretação. Mas os inquisidores não viram a coisa dessa maneira. E, como a polêmica de 1616 foi basicamente escriturística, e não científica, uma contextualização a respeito desse tema teria ajudado os leitores a entender a origem do primeiro processo de Galileu.

(aviso: alguns trechos desta resenha foram extraídos da coluna que o blogueiro publicará na edição de novembro da revista O Mensageiro de Santo Antônio)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 21/09/15 8:37:57 PM
o irmão Guy Consolmagno, novo diretor do Observatório Vaticano

Guy Consolmagno já era a face midiática do Observatório Vaticano, agora ele assumirá a direção da instituição. (Foto: Robert Macke/Wikimedia Commons)

Mudanças no comando do Observatório Vaticano: o sacerdote argentino José Funes está deixando a instituição após 15 anos trabalhando lá, nove deles como diretor. Seu sucessor dispensa apresentações: é o irmão Guy Consolmagno, também jesuíta, figurinha carimbadíssima, sempre requisitado pela imprensa de língua inglesa para aparecer em talk shows, entrevistas, documentários, o que for que envolva religião e astronomia. Ele realmente dispensa apresentações, como afirmou o padre Funes no comunicado em que anunciava sua saída. Se Consolmagno já era a face midiática do Observatório, agora assume o comando de vez.

A nomeação de Consolmagno foi publicada na edição de sexta-feira do boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé. Naquele mesmo dia, o papa Francisco recebeu em audiência os participantes de um simpósio que estava sendo promovido pelo Observatório Vaticano. Como só existe versão oficial do discurso em italiano, faço aqui uma tradução extraoficial.

Caros irmãos e irmãs,

dou as boas-vindas a todos vós que formais a comunidade de trabalho do Observatório Vaticano, e agradeço ao cardeal Giuseppe Bertello pela introdução feita ao nosso encontro.

Deum Creatore venite adoremus (“vinde e adoremos ao Deus criador”). Com essas palavras, inscritas na parede de mármore em uma das cúpulas dos telescópios na residência papal de Castegandolfo, Pio XI iniciava seu discurso de 29 de setembro de 1935, quando inaugurou a Nuova Specola

Com efeito, o universo é algo mais que um problema científico a ser resolvido; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor (Laudato Si’, 12). “Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós” (ibidem, 84). Santo Inácio de Loyola entendia muito bem essa linguagem. Ele mesmo contou que sua maior consolação era contemplar o céu e as estrelas porque isso lhe fazia sentir um enorme desejo de servir ao Senhor (Autobiografia, 11)

Com a refundação do Observatório em Castel Gandolfo, Pio XI estabeleceu também que sua gestão ficasse a cargo da Companhia de Jesus. Em todos esses anos os astrônomos do Observatório percorreram caminhos de pesquisa, caminhos criativos, à sombra dos astrônomos e matemáticos jesuítas do Colégio Romano, do padre Cristóvão Clávio ao padre Angelo Secchi, passando pelo padre Mateus Ricci e tantos outros. Neste aniversário, gostaria também de recordar o discurso que Bento XVI fez aos padres da última Congregação Geral da Companhia de Jesus, no qual afirmava que a Igreja precisa urgentemente de religiosos que dediquem sua vida a estar nas fronteiras entre a fé e o saber humano, a fé e a ciência moderna.

Nestes dias, vós, padres e irmãos, juntamente com os especialistas associados, vos reunistes para tratar das vossas pesquisas e dos temas do diálogo entre ciência e religião. A propósito disso, São João Paulo II afirmava: “O importante é que o diálogo deve continuar e progredir em profundidade e amplitude” (Carta ao padre George Coyne, 1.º de junho de 1988). E se perguntava: “A comunidade de religiões do mundo, incluída a Igreja, está pronta para entrar em um diálogo sempre mais profundo com a comunidade científica, um diálogo que, ao mesmo tempo em que salvaguarda a integridade seja da religião, seja da ciência, promova o progresso de ambas?” (ibidem).

No contexto do diálogo inter-religioso, hoje mais urgente que nunca, a pesquisa científica sobre o universo pode oferecer uma perspectiva única, compartilhada por crentes e não crentes, que ajude a obter uma melhor compreensão religiosa da criação. Neste sentido, as Escolas de Astrofísica organizadas pelo Observatório nos últimos 30 anos são uma oportunidade preciosa em que jovens astrônomos de todo o mundo conversam e colaboram na busca pela verdade.

Além disso, durante vosso evento discutistes a importância de comunicar a necessidade de a Igreja e seus pastores abraçarem, encorajarem e promoverem a ciência autêntica, como sublinhava Leão XIII (cfr. motu proprio Ut mysticam). É importantíssimo que vós compartilheis o dom do vosso saber científico do universo com as pessoas, oferecendo de graça o que de graça recebestes.

Em espírito de gratidão ao Senhor pelo testemunho de ciência e fé que os membros do Observatório têm dado nestas décadas, quero encorajar-vos a continuar este caminho com vossos colegas, e com quem mais compartilhar o entusiasmo e o trabalho duro da exploração do universo. É uma viagem que fazeis também na companhia dos funcionários do Observatório, de seus mantenedores e amigos, e de tantas pessoas de boa vontade. Sim, estamos todos em viagem rumo à casa comum do Céu, onde poderemos ler com alegre admiração o mistério do universo (cfr. Laudato Si’, 243).

Que o Deus onipotente, que mantêm todo o universo na existência, pela intercessão da Virgem Maria, vos cubra com sua paz e vos abençoe.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Páginas12345... 60»
Este é um espaço público de debate de idéias. A Gazeta do Povo não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
Buscar no blog
Assine a Gazeta do Povo
  • A Cobertura Mais Completa
    Gazeta do Povo

    A Cobertura Mais Completa

    Assine o plano completo da Gazeta do Povo e receba as edições impressas todos os dias da semana + acesso ilimitado no celular, computador e tablet. Tenha a cobertura mais completa do Paraná com a opinião e credibilidade dos melhores colunistas!

    Tudo isso por apenas

    6x de
    R$58,20

    Assine agora!
  • Experimente o Digital de Graça
    Gazeta do Povo

    Experimente o Digital de Graça!

    Assine agora o plano digital e tenha acesso ilimitado da Gazeta do Povo no aplicativo tablet, celular e computador. E mais: o primeiro mês é gratuito sem qualquer compromisso de continuidade!

    Plano Digital com
    Primeiro Mês Grátis

    5x de
    R$29,90

    Quero Experimentar