Assinaturas Classificados
Seções
Anteriores
Publicidade

Tubo de Ensaio

Quem faz o blog
Seções
2009 – Ano Internacional da Astronomia
A ciência torna obsoleta a crença em Deus?
Artigos
Astronomia
Ateísmo
Bioética
Budismo
Catolicismo
Criação, evolução e Design Inteligente
Debates
Entrevistas
Espiritismo
Filmes e DVDs
Filosofia da ciência
Hinduísmo
História da relação entre ciência e fé
Igreja Ortodoxa
Islamismo
Judaísmo
Livros
Medicina e fé
Meio ambiente
Milagres
Neurociência
O universo tem um propósito?
Origem do universo
Protestantismo
Tirinhas
Vídeos
Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/12/14 12:05:33 PM

Dezembro é época de retrospectivas e, enquanto todo mundo vai lembrar da reeleição da Dilma e dos 7 a 1 para a Alemanha, temos coisas melhores para recordar por aqui. Uma delas foi a inédita realização de um Curso Faraday no Brasil. São Paulo recebeu o evento (e, se não houve curso em Curitiba, pelo menos tivemos a Hilary Marlow dando palestra na PUCPR). Rogério Fernandes da Silva, que é professor na rede estadual de ensino do Rio de Janeiro e mestrando em Ciências da Religião na PUC-SP, esteve lá e escreveu um artigo para o Tubo contando um pouco das suas percepções sobre o evento.

Percepções do Curso Faraday-Kuyper

Rogério Fernandes da Silva

Entre 9 e 12 de outubro, participei do curso promovido pelo Faraday Institute for Science and Religion e pela Associação Kuyper de Estudos Transdisciplinares, na cidade de são Paulo. Minha ida ao curso Faraday-Kupper foi uma jornada, ainda mais porque tive de fazer uma apresentação na Universidade Federal de Juiz de Fora na mesma semana. Entretanto, ao chegar a São Paulo as coisas se acomodaram. O curso, que teve o tema “ciência, tecnologia e religião”, havia passado por percalços motivados pela incompreensão da academia brasileira: originalmente previsto para ocorrer na USP, teve de ser transferido para a Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo em cima da hora. Essa incompreensão foi motivada pelo preconceito laicista de alguns, para quem qualquer menção ao religioso na universidade seria um ataque ao Estado laico. Contudo, a transferência de local não afetou a qualidade do curso.

Hilary Marlow no curso Faraday-Kuyper, em São Paulo.

Hilary Marlow no curso Faraday-Kuyper, em São Paulo. (Foto: Gustavo Assi)

O curso foi administrado por Gustavo de Assi e Guilherme de Carvalho, contando com uma equipe de voluntários e professores brasileiros e do Faraday. Foram quatro dias de intensa formação e interação com participantes. Nomes de peso do estavam presentes, como Denis Alexander, diretor emérito do Faraday Institute. No primeiro dia foram entregues a programação e um caderno universitário para notas; nele constavam artigos que davam subsídios para o estudo sobre as relações entre ciência e religião. Não é possível detalhar todos os debates e palestras aqui, mas foram todas de alto nível para uma plateia eclética, visto que nem todos eram do meio universitário. Mesmo sendo um evento promovido por uma entidade inglesa, com perfil ecumênico, chamou-me a atenção o fato de que aparentemente eu era o único católico no grupo dos que assistiam.

Destaco a palestra de Hilary Marlow, que, ao pesquisar sobre darwinismo no Brasil no fim do século 19 e início do século 20, não descobriu fontes sobre o conflito entre religião e ciência nessa época (Ver, entretanto: DOMINGUES, Heloisa Maria Bertol (org.). A recepção do darwinismo no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2003). Isso pode ser explicado devido à preocupação dos cientistas brasileiros que, na época, estava mais ligada a questões raciais do que religiosas, motivada pela concepção da construção da nação brasileira via critérios raciais. Os cientistas acreditavam que o país seria inviável no longo prazo devido à forte presença africana na sociedade. Contudo, não é que o conflito estivesse ausente naquela época, visto que o positivismo, ferrenho opositor da religião, era muito presente nas nossas elites políticas e intelectuais e gerava um tipo de embate que se fazia na forma de laicismo. Vale ressaltar que a laicidade brasileira nasceu sob um banho de sangue dos mais miseráveis da população brasileira, vide o Contestado e a revolta de Canudos.

Enfim, que o curso do Faraday possa avançar ainda mais dentro das mentalidades acadêmicas brasileiras; apesar de não acreditar que a tese de conflito seja a predominante na universidade, a indiferença parece ser a tônica predominante em nossas terras. Também parece que o laicismo, e não a laicidade, seja o pensamento majoritário. Esse laicismo e essa indiferença não ajudam em nada, e permitem que a tese de conflito seja vitoriosa no senso comum.

(Aviso: o Instituto Faraday, citado neste post, deu ao blogueiro uma bolsa para participar de um curso na Universidade de Cambridge, em 2011)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 05/12/14 10:11:55 AM

Nesses dias em que falamos tanto do “tripé macroeconômico”, o blog quer propor a discussão sobre um outro tripé, aquele no qual se assenta a civilização ocidental. Mas, na verdade, a esse tripé se juntou uma quarta perna, e é isso que Joathas Soares Bello trata nesse artigo escrito para o blog. O autor, graduado em Filosofia pela Uerj, mestre em Filosofia pela PUC-Rio e doutor em Filosofia pela Universidad de Navarra (Espanha), é professor da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, do Instituto Filosófico e Teológico São José do Seminário Arquidiocesano de Niterói e da Faetec-RJ. Ele tem se dedicado, principalmente, ao estudo da filosofia da religião e ao aprofundamento e divulgação do pensamento do filósofo espanhol Xavier Zubiri, que soube unir, na sua obra, uma perspectiva profundamente metafísica ao conhecimento das ciências contemporâneas.

Os quatro pilares

Joathas Soares Bello

“O monoteísmo criacionista judaico-cristão e sua vitória sobre a religião e a metafísica do mundo antigo foi, sem dúvida, a primeira possibilidade fundamental para libertar a pesquisa sistemática da natureza. Significou libertar a natureza para a ciência de uma ordem de grandeza que talvez ultrapasse tudo o que, até hoje, já aconteceu no Ocidente. O Deus espiritual de vontade e de trabalho, o Criador, que não foi conhecido por nenhum grego e nenhum romano, por nenhum Platão e nenhum Aristóteles, foi (…) a maior santificação da ideia do trabalho e do domínio sobre as coisas infra-humanas; e, ao mesmo tempo, operou a maior desanimação, mortificação, distanciamento e racionalização da natureza que jamais ocorreu em relação às culturas asiáticas e à Antiguidade” (Max Scheler).

É um lugar comum, entre vários autores cristãos, a afirmação de que as três maiores obras do espírito humano são a filosofia grega, o direito romano e a religião judaico-cristã (descontando, aqui, o fato de que não se a considera uma obra exclusivamente humana). O filósofo espanhol contemporâneo Xavier Zubiri, no entanto, considera que a ciência moderna, que começou com Copérnico, Kepler e Galileu, também merece figurar entre as maiores obras do engenho humano. Os autores cristãos consideram que a filosofia grega e o direito romano foram providencialmente dispostos por Deus para preparar os caminhos dos pagãos à recepção da mensagem universal do cristianismo; isso foi feito através de conceitos filosóficos e jurídicos, especialmente o de “pessoa”, presente tanto entre os gregos como entre os romanos, mas que adquiriu uma profundidade e relevância muito maiores na doutrina e prática cristãs.

Entretanto, o conhecimento do mundo material não era tão valorizado na cultura clássica. Na realidade, os antigos tinham uma dupla atitude perante o mundo: por um lado, uma inspiração gnóstica conduzia ao desprezo da corporeidade e da temporalidade, entendidos como “queda” da eternidade; por outro lado, uma tendência panteísta levava a uma divinização da natureza, entendida como algo “sagrado”, “encantado”. Tanto a falta de consideração de uns quanto o excesso de reverência de outros impediam o surgimento do saber científico, e foi precisamente o cristianismo, com sua apreciação positiva da realidade material, dotada de bondade ontológica (“e Deus viu que tudo era bom”), porém criada e não divina (“no princípio Deus criou o céu e a terra”), e posta pelo seu Artífice aos cuidados da pessoa humana (que deve “guardá-la” e “nomeá-la”), que abriu caminho para o que viria a ser a ciência matematizante e experimental que tem seus primórdios na Escola de Oxford, no século 13, com Roberto Grosseteste e Roger Bacon, e começa a alcançar sua maturidade com Copérnico, no século 16.

Roberto Grosseteste e Roger Bacon estão entre os pensadores que abriram espaço para a ciência moderna.

Roberto Grosseteste e Roger Bacon estão entre os pensadores que abriram espaço para a ciência moderna. (Imagem: Reprodução)

Mas por que a ciência, como a conhecemos hoje, demorou tanto para surgir em solo cristão, uma vez que tinha um terreno propício? Foram duas as sínteses principais entre o pensamento grego e o cristão (que é um pensamento religioso e que, portanto, precisa do auxílio do pensamento racional para expressar suas intuições sobre a realidade natural): o pensamento cristão platonizante, cujo principal expoente foi Agostinho, e o pensamento cristão aristotelizante, cujo principal representante foi Tomás de Aquino. O platonismo tinha o instrumento (a matemática herdada do pitagorismo) para medir as realidades materiais, mas sua preocupação era mística; o aristotelismo tinha o interesse pela natureza, mas seu instrumento era uma filosofia qualitativa, em que a “física” (filosofia da natureza) na verdade era uma ontologia do movimento. Foi só quando o interesse aristotélico se casou com o instrumento platônico que a ciência pôde nascer. E isso se deu no fim da Idade Média, com o abandono da metafísica das essências universais por parte de Guilherme de Ockham, e a assunção de que o conceito era mero “nome” (“homem”) que congregava realidades similares (“Sócrates” e “Platão”) de essências individuais que não podem ser determinadas. Assim, na física nominalista, o termo se torna um símbolo da realidade, e não mais uma expressão da essência qualitativa ou formal. Está aberto o caminho para a matematização do conhecimento da natureza.

A ciência, contudo, não substitui o papel da filosofia, do direito e da religião, como costuma-se pensar. O filósofo alemão Immanuel Kant dizia que são quatro as questões que norteiam a vida humana: 1) Que posso eu saber? 2) Que devo eu fazer? 3) Que me é permitido esperar? 4) Quem é o homem? Aqui não me interessam as respostas de sua filosofia pessoal, mas a constatação de que tais perguntas realmente podem orientar a existência. Comecemos pela última: a ciência, em virtude de seu método, fica aquém do caráter pessoal, espiritual, do ser humano: temas como o da espiritualidade da inteligência ou o do significado do amor, por exemplo, só podem ser estudados pela filosofia, cuja evidência não se restringe ao que pode ser matematizado e experimentado. O que podemos esperar é uma questão que nos abre à dimensão religiosa da existência, ou seja, que nos remete ao sentido da vida e da morte, e à possibilidade de que o horizonte último da realidade se nos revele. O que eu devo fazer é uma questão que abre minha personalidade individual às demais pessoas, e me faz considerar meus direitos e deveres na sociedade, isto é, entramos na esfera do jurídico. Finalmente, à ciência cabe responder o que eu posso saber do mundo natural.

immanuel kant

As questões levantadas por Immanuel Kant ajudam a entender o papel da ciência, da filosofia e da religião. (Imagem: Reprodução)

Assim, podemos resumir estes quatro pilares de nossa existência ocidental da seguinte forma: a ciência se refere ao mundo natural; o direito, ao mundo social; a filosofia, ao mundo pessoal; e a religião, ao sentido ou fundamento último, que sói ser chamado Deus. Toda a estrutura do real fica contemplada nessa esquematização, com o que vemos que não é casual o desenvolvimento desses pilares. A verdade é que quatro bases não nos garantem o equilíbrio das três primeiras (que formam necessariamente um só plano; aqui jogo com a geometria), mas a possibilidade do desequilíbrio (por exemplo, o positivismo cientificista que nega a filosofia e a religião) é compensada pela beleza e, por que não, utilidade da grandiosa ciência moderna!

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 27/11/14 6:04:13 PM

Nesses tempos em que estamos falando de criacionismo nas escolas (e ainda falaremos mais do assunto), é ótimo poder divulgar um livro para um público que me parecia carente de materiais desse tipo: os professores de Ensino Religioso. A editora Paulinas tem uma parceria com a PUC-SP para uma coleção de livros dirigidos justamente para esses docentes. Meses atrás, a coleção cresceu: o professor Eduardo Cruz, que conheci em 2011 na Cidade do México, escreveu Religião e ciência. É este o livro que resenhamos hoje e que eu recomendo para quem dá aulas dessa disciplina no ensino fundamental ou médio, mas também serve a qualquer interessado no tema.

Capa do livro "Religião e Ciência", de Eduardo Cruz.

“Religião e ciência” faz parte deuma coleção voltada a professores de Ensino Religioso. (Imagem: Divulgação)

Religião e ciência, no entanto, não é um guia prático sobre temas específicos. O leitor não vai encontrar, por exemplo, explicações detalhadas sobre evolução, criacionismo ou Design Inteligente e sua compatibilidade (ou não) com a fé religiosa; ou sobre temas de bioética, neurociência, milagres, astronomia e aspectos históricos da relação entre ciência e religião. No máximo, haverá uma pincelada aqui e outra ali, por exemplo sobre o criacionismo bíblico ou o caso Galileu; e, para alguns desses temas, haverá recomendações bibliográficas que o leitor pode buscar para aprofundar seus conhecimentos. O objetivo do livro é familiarizar o professor com os pressupostos do debate sobre a relação entre fé e ciência, principalmente para que ele entenda como chegamos ao ponto atual, em que o discurso do conflito parece predominar.

É justamente com esse discurso que Cruz inicia o livro. O autor mostra os principais representantes dessa corrente atualmente, e as origens desse paradigma na nossa velha conhecida dupla John Draper e Andrew White, mas também lembra que a defesa do conflito não é exclusividade do ateísmo militante, e também ocorre entre fundamentalistas religiosos. O capítulo inicial já esboça uma explicação, que será aprofundada mais adiante no livro, dos fundamentos filosóficos que baseiam o paradigma do conflito, a disputa pelo monopólio da verdade, a discussão sobre que conhecimentos são válidos ou não, e até mesmo a questão epistemológica, definida por Cruz como “sobre o que mesmo estamos falando?” Por isso, o livro segue com um capítulo que definirá com mais precisão o que é ciência, o que é religião e o que é teologia. Essas definições são importantes especialmente quando se observam tentativas de reduzir a religião a “mera mitologia” ou “mero código moral”, quando na verdade as religiões são fenômenos bem mais complexos. Aqui Cruz nos recorda o pensamento positivista, que vai alimentar o discurso do conflito ao propor o fim de uma “era da religião”, que dará lugar a uma “era da ciência”. O autor ainda nos apresenta os princípios da relevância e da neutralidade, que podem ajudar a entender a relação entre o conhecimento revelado e o conhecimento adquirido pela ciência, e as primeiras reações (nem sempre felizes) à revolução científica iniciada nos séculos 16 e 17.

A seguir, o livro descreve o avanço do método experimental e o que ele trouxe consigo do ponto de vista filosófico e social: uma concepção mecanicista do mundo e da natureza; a crescente secularização no meio científico e, depois, na sociedade como um todo; a redução do papel da religião, até o ponto em que ela passou a ser vista como fator de atraso social. Tudo isso formou o caldo que levou ao cientificismo, que tanto já criticamos aqui no blog. É a partir deste ponto que surgem duas correntes: o neoateísmo de autores como Richard Dawkins e Daniel Dennett e os “magistérios não interferentes” de Stephen Jay Gould. Cruz mostra os pontos fracos de ambas as abordagens, e aqui vemos a importância de ter definido corretamente a religião no início do livro, pois ambas as propostas são exemplos daquele reducionismo de que falamos.

embrião congelado em laboratório

A bioética é apontada pelo autor como uma das áreas que permite um diálogo sadio entre ciência e fé. (Foto: Priscila Forone/Arquivo Gazeta do Povo)

Mas nem por isso as tentativas de promover uma harmonia entre ciência e fé são todas aceitáveis e devem ser encorajadas. Cruz analisa alguns fenômenos como a “mania quântica”, que busca encontrar evidências de espiritualidade no caráter indeterminado das partículas do mundo subatômico; na outra ponta, o uso inadequado das descobertas da cosmologia com finalidades teológicas; e, por fim, as teses criacionistas e do DI. Mas ressalta o que, em sua opinião, são os caminhos mais adequados para um diálogo frutífero, que supera a mistura infértil na qual teólogos agem como cientistas e vice-versa. O autor destaca especialmente a reconstrução histórica (diria eu, uma “comissão da verdade” da relação entre ciência e fé, para esclarecer de vez o que realmente houve no passado; felizmente, muitos bons historiadores estão se dedicando a isso para apagar os mitos propagados por Draper e White), o debate filosófico sobre o que e como o ser humano pode conhecer, e a bioética como campo em que o avanço científico pode ser matizado pela reflexão ética, especialmente aquela que tem como base a dignidade do ser humano.

Não sei quantos professores de Ensino Religioso tratam da relação entre ciência e fé em suas aulas. Para aqueles que abordam o assunto, o livro vale a pena. Para os que ainda não o fazem, pode ser um estímulo. Mas espero também que a coleção das Paulinas incorpore, no futuro, algo que trate especificamente daqueles temas que citamos lá no começo, pois aqueles estudantes que têm uma fé religiosa, quando apresentados a temas como a evolução ou o Big Bang, nas aulas de Ciências, podem querer compreender como conciliar a ciência moderna com sua religião. Se os professores de Ensino Religioso estiverem preparados também para isso, ajudarão a criar uma geração futura que não será presa fácil do ateísmo militante.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 25/11/14 8:18:14 PM
Capa da quarta edição da revista "Quaerentibus".

Capa da quarta edição da revista “Quaerentibus”. (Foto: Reprodução)

A Quaerentibus, primeira revista latino-americana de ciência e religião, aos poucos vai se consolidando. Hoje foi divulgado o número 4, com data de outubro de 2014. A única ressalva que podemos fazer é essa escorregada com a periodicidade. Lembro que, quando foi anunciada, lá em 2011, a revista deveria ser semestral. O primeiro número foi praticamente um piloto; quando a coisa começou mesmo pra valer, o intervalo foi respeitado entre os números 2 e 3, respectivamente de junho e dezembro do ano passado. Desta vez, demorou um pouquinho mais. Esperamos que seja apenas um probleminha temporário.

Ao contrário da edição anterior, desta vez temos um artigo em português. É “Comparando os objetivos e métodos da ciência e religião na formação de professores”, de Alexandre Bagdonas e Cibelle Celestino Silva, ambos da Universidade de São Paulo.

Para baixar o PDF da Quaerentibus 4, é só clicar aqui. Se você quer ver também as outras três revistas, é só clicar aqui para ter acesso aos números anteriores.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/11/14 5:29:42 PM

Dias atrás, conversamos aqui no blog sobre o 1.º Congresso Brasileiro de Design Inteligente, realizado em Campinas. Os participantes divulgaram, ao fim do evento, um manifesto que trata particularmente do ensino do Design Inteligente (e, de passagem, do criacionismo) nas escolas.

Participantes do Congresso Brasileiro de Design Inteligente

Participantes do Congresso Brasileiro de Design Inteligente rejeitam, pelo menos por enquanto, o ensino do DI nas escolas. (Foto: Rafael Sousa/Divulgação)

 

Segue a íntegra do texto:

Manifesto público da Sociedade Brasileira do Design Inteligente – TDI-Brasil – sobre o ensino da Teoria da Evolução e da Teoria do Design Inteligente nas escolas e universidades públicas e privadas

A TDI-Brasil declara, como sua política educacional, não ser favorável, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais.

Nossa posição se fundamenta na opinião atual da Academia, que ainda não acata em sua maioria a TDI e o seu ensino, posição essa que nós da TDI-Brasil, como acadêmicos, devemos acatar.

Outro fundamento de nossa posição contrária ao ensino da TDI nas escolas é a não existência, no quadro educacional atual, de professores capacitados para corretamente ensinar os postulados da TDI.

Entendemos, porém, que os alunos têm o direito constitucional de ser informados que há uma disputa já instalada na academia entre a teoria da evolução (TE) e a TDI quanto à melhor inferência científica sobre nossas origens. Inclusive há outras correntes acadêmicas, além da TDI, que hoje questionam a validade da TE oferecendo uma terceira via.

Quanto ao ensino da TE, a TDI-Brasil defende que este ensino seja feito, porém, de uma forma honesta e imparcial, tanto nos livros didáticos quanto na exposição dos professores em salas de aula. Defendemos que sejam eliminados exemplos fraudulentos ou equivocados atualmente presentes em livros didáticos, e que sejam expostas as deficiências graves que a TE apresenta, e que se agravam a cada dia frente às descobertas científicas mais recentes – o que hoje não ocorre.

Quanto ao criacionismo, na sua versão religiosa e filosófica, por causa de seus pressupostos filosóficos e teológicos, entendemos que deva ser ensinado e discutido, junto com as evidências científicas que porventura o corroborem, em aulas de Filosofia e Teologia, dando a estas disciplinas o seu devido valor no debate sobre as nossas origens.

Chama a atenção, neste momento em que vemos a tentativa de colocar o criacionismo no currículo escolar, que o manifesto rejeita o ensino do DI nas escolas, invocando inclusive a posição minoritária dos seus defensores dentro do mundo acadêmico (posso estar enganado, mas nesse aspecto eles parecem se distanciar de seus colegas norte-americanos). Outro argumento, o de que haveria pouquíssimos professores em condições de ensinar o DI de forma correta, é também usado pelos criacionistas contrários à inclusão desta doutrina nas aulas.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 14/11/14 10:29:02 AM

No post anterior, dei minha própria opinião sobre o projeto que pretende implantar o ensino do criacionismo nas escolas da rede pública do Paraná. Enquanto escrevia, entrei em contato com alguns dos principais defensores e divulgadores do criacionismo no país para ouvir a opinião deles.

"A criação dos animais", afresco de Rafael no Palácio Apostólico, Vaticano.

“A criação dos animais”, afresco de Rafael no Palácio Apostólico, Vaticano.

O jornalista e mestre em Teologia Michelson Borges é um dos principais divulgadores do criacionismo no Brasil e mantém um site que é referência sobre o tema. Por e-mail, ele me explicou que é contrário ao projeto. Reproduzo na íntegra o que ele escreveu ao Tubo:

Se a proposta for a de se ensinar criacionismo nas aulas de Ciências, não considero isso adequado, já que os criacionistas bíblicos não negam que sua cosmovisão, obviamente, tem fundamentos religiosos, embora também se valham do método científico para fazer suas pesquisas. E posso mencionar aqui, como exemplo desse esforço científico, o Geoscience Research Institute, localizado no câmpus da Universidade de Loma Linda, na Califórnia. Criacionistas (pelo menos os que eu conheço) defendem o Estado laico e a separação entre igreja e Estado, que deve se refletir também nas salas de aula de escolas públicas. Outro motivo para essa objeção é o fato de que dificilmente se poderão encontrar muitos professores conhecedores das propostas criacionistas e do modelo como um todo, o que poderá gerar distorções durante a exposição do assunto – algo que frequentemente já tem ocorrido nas matérias veiculadas na grande imprensa. O mais desejável, na verdade, seria o ensino crítico do evolucionismo, destacando seus aspectos científicos sem omitir suas insuficiências epistêmicas e seu conteúdo filosófico, especialmente quando se refere à origem da vida. De minha parte, não veria problemas no ensino do Design Inteligente, já que se trata de uma teoria sem fundamentação teológica.

Ainda na quarta-feira, também fiz contato com a Sociedade Criacionista Brasileira, que até o momento não respondeu. Cinco anos atrás, o blog entrevistou um dos membros da SCB, o biólogo Tarcísio Vieira. Reproduzo aqui a pergunta final da longa entrevista, que ajuda a conhecer melhor o que pensam os criacionistas. Mas ressalto que ainda espero um retorno da SCB para saber se a posição atual deles ainda é a mesma expressa em 2009 por Vieira.

Diante das inconsistências apontadas pelo senhor na teoria evolucionista, o criacionismo também deveria ter espaço nas escolas?

Conhecedores da laicidade de nosso Estado, os simpatizantes do criacionismo bíblico que estejam realmente familiarizados com a questão não argumentam em favor da inserção do criacionismo nos currículos escolares e universitários nas escolas públicas, uma vez que, como discorrido acima, o criacionismo não é uma teoria científica e está associado ao conhecimento religioso.

A SCB, por meio de seu presidente, também se manifesta totalmente contra o ensino do criacionismo nas escolas e universidades públicas. Além da questão da laicidade do Estado, temos a escassez de profissionais devidamente versados em criacionismo bíblico advindos de nossas universidades, pois todos os cursos universitários apresentam em sua grade curricular propostas para o ensino apenas das teses evolucionistas. Consequentemente, não há formação de profissionais devidamente conhecedores do modelo criacionista e muito menos aptos a defender suas teses.

Não existe interesse, ao contrário do que é divulgado pela mídia, de que as teses defendidas pelo modelo criacionista substituam a teoria da evolução ensinada nas escolas e universidades; isto é absurdo! Obviamente, não há nenhuma oposição ao ensino do modelo criacionista em escolas que se denominam confessionais, uma vez que há abertura constitucional para isto. Mas as teorias de evolução também devem ser ensinadas.

O blog segue aberto para manifestações de outros criacionistas a respeito do projeto de lei que tramita na Assembleia Legislativa do Paraná (o texto do projeto e sua justificativa estão aqui).

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 12/11/14 6:05:24 PM

A essa altura, os leitores da Gazeta do Povo já estão por dentro do projeto do deputado Artagão Júnior que pede o ensino do criacionismo nas escolas da rede estadual paranaense. Demos reportagem, assinada pelo Paulo Galvez, e o Rogerio Galindo também fez seu comentário no blog Caixa Zero.

Fui atrás do texto. A íntegra do projeto de lei e da justificativa é muito vaga, com uma série de lacunas. Para começar, nem o texto legal, nem sua justificativa informam se o criacionismo seria ensinado nas aulas de Ciências ou nas de Ensino Religioso (que, como podemos ver, tem até um site específico dentro do portal da Secretaria de Estado da Educação). O projeto também não diz exatamente que tipo de criacionismo será ensinado, se aquele de Terra jovem, segundo o qual o universo tem pouco mais de 6 mil anos (a corrente defendida por grupos como o Answers in Genesis), ou se o criacionismo de Terra antiga, que aceita o consenso científico sobre a idade do universo e do planeta, mas contesta a teoria da evolução como explicação para a variedade da vida na terra (um exemplo desse pensamento é o do grupo Reasons to Believe).

Isso faz diferença? Certamente. Criacionismo, e me desculpem os leitores criacionistas, não é ciência (e não coloco nenhum demérito nisso, pois não sou cientificista); é uma explicação de cunho religioso/metafísico para a origem do universo, da vida, do ser humano etc. Jamais deveria ser ensinado em aulas de Ciências. E nas aulas de Ensino Religioso, pode? Aí eu já acho tolerável. Mas, como estamos falando da rede pública, acho que numa situação dessas seria preciso também abrir espaço para as cosmogonias de outras religiões, ainda que minoritárias em nosso país.

deputado estadual Artagão Júnior

O deputado Artagão Júnior explicou que caberá à Secretaria de Estado da Educação definir em que disciplina será ensinado o criacionismo, caso seu projeto de lei seja aprovado. (Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo)

Para tirar as dúvidas, conversei com o deputado autor do projeto. Ele me explicou que deixou em aberto a disciplina em que o criacionismo seria inserido para que a decisão fosse da Secretaria de Estado da Educação, em regulamentação posterior, até porque nem todas as escolas da rede estadual têm aulas de Ensino Religioso. Artagão Júnior também não mostrou preferência por ensinar o criacionismo nesta ou naquela disciplina, mas gostaria que ele fosse explicado aos alunos na mesma época em que as aulas de Ciências tratassem da teoria da evolução, para que os dois conceitos chegassem aos estudantes de forma simultânea.

Quanto à vertente do criacionismo, se de Terra jovem ou de Terra antiga, o deputado também não defendeu nenhuma corrente específica. “As definições podem ser ajustadas, inclusive para contemplar as interpretações que forem mais populares”, afirmou. Perguntei a ele qual era sua convicção pessoal sobre a idade do universo, e Artagão Júnior disse não ter os elementos para dizer com toda a certeza se o universo tem 6 mil anos, 14 bilhões de anos ou outra idade qualquer. “Sei que há interpretações variadas para os trechos da Bíblia. Minha convicção pessoal é a de que houve uma intervenção divina na criação do universo, e meu objetivo com o projeto é inserir esses conteúdos para promover o debate a respeito do tema”, concluiu.

Dito isso, vamos destrinchar o texto. A definição de criacionismo que está no projeto de lei, para começar, é bem vaga: “noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo o universo e de todas as coisas que o compõe” (sic). Mas reconhecer Deus como criador do universo e de tudo o que nele há não necessariamente é ser criacionista. Um evolucionista cristão, por exemplo, certamente entende que Deus criou o universo e é a causa primeira de tudo o que existe, ainda que não tenha diretamente feito, por atos criadores específicos, todas as coisas. O que caracteriza o criacionismo é a interpretação literal dos relatos da criação contidos no Gênesis, com a consequente negação da teoria da evolução como explicação para a variedade da vida na Terra.

O artigo 2º e a justificativa do projeto deixam mais claro o caráter do criacionismo como explicação alternativa à evolução, mas ainda assim há barbeiragens. A justificativa começa falando do cientificismo, “que muito nos ajuda”, embora eu tenha a impressão de que o deputado quis dizer que é a ciência, e não o cientificismo, que muito nos ajuda, porque logo a seguir ele vai fazer uma crítica ao cientificismo por rejeitar qualquer conhecimento não comprovável em laboratório. A meu ver, essa crítica é o único trecho feliz da justificativa.

Dali em diante, é uma confusão atrás da outra. O evolucionismo é definido como a afirmação de que “a vida originou-se de uma ‘célula primitiva’ que se pôs em movimento pelo ‘Big Ban’” (sic, de novo). Como o Big Bang entrou na dança é um mistério para mim. Aliás, é preciso ressaltar que nem o Big Bang, nem a evolução, trazem a resposta para o surgimento da vida na Terra a partir da matéria inorgânica. O Big Bang é uma explicação de como surgiu o universo; a evolução é uma explicação de como, a partir da forma primordial de vida orgânica, se desenvolveu a variedade que observamos hoje. Mas Darwin nunca entrou no mérito de como houve a passagem da matéria inorgânica para a orgânica.

O projeto, a seguir, diz que a maioria da população brasileira é criacionista. Bom, o que eu achei a respeito foi uma pesquisa Datafolha de 2010 que colocava o apoio ao criacionismo em apenas 25%. Quase 60% defendiam a evolução, mas considerando que Deus guia os processos evolutivos. Aí é que está. Se o deputado quis dizer que a maioria simplesmente acredita em um Deus criador, ele está certo; mas, como já vimos, isso não basta para caracterizar o criacionismo.

Artagão Júnior ainda incluiu a Igreja Católica no rolo, como defensora do criacionismo. Isso está simplesmente errado. A Igreja Católica, obviamente, afirma a existência de um Deus criador. Mas ela não defende que o mundo foi criado há 6 mil anos e cada animal foi diretamente criado por Deus, ou que as espécies evoluíram como proposto por Darwin. A Igreja se limita a afirmar se essa ou aquela teoria científica é compatível com a fé católica. E o papa Francisco acabou de reafirmar (pois outros antes dele já disseram a mesma coisa) que a evolução é plenamente compatível com o Catolicismo. Isso, é claro, não significa um endosso oficial a essa ou aquela teoria. Um católico pode defender o evolucionismo, o criacionismo ou o Design Inteligente sem estar caindo em heresia ou cometendo pecado nenhum. Cabe à ciência, e não à Igreja, definir qual das explicações é a verdadeira.

E o deputado infelizmente ainda se deixou levar pela lorota que associa evolução e ateísmo, mentira propagada tanto por ateus militantes quanto por fundamentalistas religiosos e na qual muita gente de boa vontade acaba acreditando. O próprio exemplo de pessoas de fé que são grandes defensoras da evolução desmente o argumento de Artagão Júnior. Aqui mesmo no blog vivemos falando dessas pessoas.

Por fim, a justificativa traz um enorme non sequitur (tipo de falácia em que a conclusão não deriva das premissas) ao associar o ensino do criacionismo às liberdades fundamentais garantidas pela Constituição. Desde quando “ensinar apenas o evolucionismo nas escolas é ir contra a liberdade de crença de nosso povo”? Alguém por acaso está sendo impedido de acreditar no criacionismo? Desde quando alguém está sendo privado de algum direito por causa de convicção filosófica ou política? Até onde eu sei, no Brasil não é proibido falar de criacionismo ou defendê-lo. O argumento da liberdade de culto não tem nenhuma relação com o ensino de uma doutrina não científica em uma sala de aula.

Por enquanto é isso. No próximo post teremos a opinião de alguns criacionistas sobre o projeto.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 03/11/14 11:33:59 AM

No dia 14, em Campinas (SP), terá início o 1.º Congresso Brasileiro de Design Inteligente, cujo nome, bom, é autoexplicativo. E, se você olhar o elenco do evento, verá que não é exatamente um negócio qualquer; tem a participação de alguns cientistas respeitados, como Marcos Eberlin, da Unicamp. A Folha de S.Paulo publicou uma reportagem sobre o tema, assinada pelo Reinaldo Lopes, que também mantém o ótimo blog Darwin e Deus.

Congresso de Design Inteligente ocorrerá em Campinas daqui a duas semanas. (Imagem: Divulgação)

Congresso de Design Inteligente ocorrerá em Campinas daqui a duas semanas. (Imagem: Divulgação)

E, quando o Reinaldo foi divulgar a reportagem que tinha feito em seu perfil pessoal no Facebook, surgiu a discussão, que podemos resumir no primeiro comentário, do Salvador Nogueira: “você teve coragem de gastar papel na Folha com isso aí? Propaganda indireta para os picaretas”. A partir daí, rolou uma conversa com argumentos ótimos de ambos os lados, e envolvendo pesos-pesados do jornalismo científico como o próprio Nogueira e o Maurício Tuffani, ambos também blogueiros do UOL/Folha. Recomendo que vocês leiam os argumentos de ambos (o post pode ser visto por qualquer um que tenha cadastro no Facebook. “Minha vida é um livro aberto. Por isso que eu sofro tanto com leitor troll”, brincou o Reinaldo quando perguntei a ele se o post era fechado…)

E aí deixo meu humilde palpite. Concordo que não é qualquer bobagem que merece divulgação na imprensa. Mas acontece que o Design Inteligente (e este congresso em particular) não é “qualquer bobagem”. É um movimento consolidado nos Estados Unidos e que está ganhando terreno no Brasil, queiramos ou não (o Salvador Nogueira acredita que eles não são tão fortes assim, mas, agora que tiveram divulgação em um jornal de alcance nacional, seu crescimento virou uma profecia autorrealizável). Trazê-lo a público é parte da função da imprensa, o que a reportagem fez bem ao dar espaço também às contestações ao DI; afinal, o consenso científico em defesa da evolução é estrondoso e tem evidências muito sólidas em seu favor. Pode ser que as pessoas acabem se rendendo ao canto de sereia? Sim, pode. É um risco que se corre. Mas muitos outros, que não estavam cientes dessa movimentação dos defensores do DI, podem ver a reportagem e se animar a buscar elementos para rebatê-lo.

Vejo aqui um paralelo com as críticas a Bill Nye por ter participado de um debate com o criacionista Ken Ham, pois isso significaria dar “credibilidade” ou “divulgação” a algo que não mereceria nenhuma das duas coisas. Nye se justificou explicando que quer chamar a atenção para o estado da educação em ciência nos EUA. Se pensarmos que mais cedo ou mais tarde pode haver pressão para que o DI seja ensinado nas escolas ao lado da evolução também no Brasil (os Estados Unidos já têm uma coleção de decisões judiciais sobre esse tema), o alerta faz sentido.

Na discussão de Facebook sobrou até para os nazistas. “Não se deveria também noticiar sobre um congresso de nazistas sob o pretexto de que estão crescendo”, escreveu alguém (Olha a Lei de Godwin aí, gente!). Bom, vamos analisar a afirmação. Será mesmo que, se houvesse um recrudescimento do nazismo, não deveríamos divulgá-lo? Tenho cá minhas dúvidas. Esse tipo de argumento parece partir do pressuposto de que toda divulgação é propaganda positiva. Bom, o New York Times publicou recentemente longa matéria sobre o crescimento do antissemitismo na Europa. Leiam e avaliem se isso deveria ter sido publicado (afinal, pode ser que alguém se anime com esse negócio e resolva aderir) ou não. Eu acho que deveria. A chave está não tanto no fato de falar ou não do que se considera uma ameaça, mas na maneira como se fala (mas, pelamordedeus, não estou comparando criacionistas ou defensores do DI a nazistas!).

Enfim, sou pela divulgação. Mas não pela mera divulgação propagandística. É preciso mostrar o que o movimento propõe, qual sua representatividade, e mostrar que há contestações muito bem fundamentadas a ele. E isso a reportagem fez.

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/10/14 3:42:07 PM

Ontem o papa Francisco falou à Pontifícia Academia de Ciências, e inaugurou um busto do papa emérito Bento XVI. Seu discurso já está pipocando na imprensa aqui e ali, mas, sinceramente, prefiro apenas dar o link da íntegra de sua fala, pois infelizmente os sites e jornais cobrem muito mal o tema, como pudemos ver na recente Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, então o risco de imprecisões é grande (no momento em que escrevo esse post, por exemplo, a reportagem da Folha de S.Paulo sobre a fala do papa tem um erro grosso ao colocar um “humanos” onde o papa fala apenas de “todos os seres”).

O papa Francisco na inauguração do busto de Bento XVI nas instalações da Pontifícia Academia de Ciências (Foto: Reuters/L'Osservatore Romano).

O papa Francisco na inauguração do busto de Bento XVI nas instalações da Pontifícia Academia de Ciências (Foto: Reuters/L’Osservatore Romano).

Dois temas têm chamado a atenção. Um deles é a maneira como Francisco se referiu à teoria da evolução:

Quando lemos no Gênesis a narração da Criação, corremos o risco de imaginar que Deus foi um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim! Ele criou os seres e deixou que se desenvolvessem segundo as leis internas que Ele mesmo inscreveu em cada um, para que progredissem e chegassem à própria plenitude. E deu a autonomia aos seres do universo, assegurando ao mesmo tempo a sua presença contínua, dando o ser a todas as realidades. E assim a criação foi em frente por séculos e milênios, até se tornar aquela que hoje conhecemos, precisamente porque Deus não é um demiurgo nem um mago, mas o Criador que dá a existência a todos os seres. (…) A evolução na natureza não se opõe à noção de Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.

O papa não cita Darwin nominalmente em nenhum momento do discurso, mas, sinceramente, nem é necessário. A noção dos processos evolutivos está plenamente contida na descrição. E, com essa última frase, Francisco “resgata” a evolução da militância ateísta, lembrando um fato básico: a evolução explica como chegamos à variedade da vida que observamos hoje, mas não explica, e nem pretende explicar, como surgiu a vida, ou por que existe algo e não o nada, no fim das contas. Uma paulada naqueles que usam a evolução para justificar o ateísmo, enquanto se reforça a noção cristã de um Deus que sustenta a criação com Sua vontade, em vez de simplesmente dar um pontapé inicial e se retirar do gramado para simplesmente assistir ao jogo.

Mais adiante, o papa falará especificamente do ser humano:

Ao contrário, no que se refere ao homem, nele há uma mudança e uma novidade. Quando, no sexto dia da narração do Gênesis, chega a criação do homem, Deus confere ao ser humano outra autonomia, uma autonomia diferente daquela da natureza, que é a liberdade. E diz ao homem que dê um nome a todas as criaturas e progrida ao longo da história. Torna-o responsável da criação, também para que domine a Criação e a desenvolva, e assim até ao fim dos tempos.

Como sabemos desde o início do pontificado, o tema do cuidado pelo meio ambiente é muito caro ao papa Francisco.

E, entre esses dois trechos, ainda houve uma citação – aí, sim, explícita – ao Big Bang.

O início do mundo não é obra do caos, que deve a sua origem a outrem, mas deriva diretamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje se põe na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a.

Pois é. Justamente essa última frase é que me deixou com a pulga atrás da orelha. Não só a mim, mas a outros amigos que leram o discurso e entendem um pouco do assunto. Afinal, o Big Bang é o início deste universo, mas não necessariamente é o momento em que, do nada, surgiu o ser (este, sim, o momento que exige um criador). Isso me lembra o episódio envolvendo o papa Pio XII, que já contei aqui em outra ocasião. Podemos dar o benefício da dúvida ao pontífice e imaginar que Francisco usou esse “exige” pensando realmente na necessidade de um criador para que o universo surja do nada. Mas a associação desse momento ao Big Bang é que pode causar alguma perplexidade.

Agora, convenhamos, nada disso é novidade, e quem tratar esse discurso do papa Francisco como mais uma “revolução” na Igreja, que “agora aceita a evolução e o Big Bang”, não passa de um grande picareta. Afinal, como estamos cansados de saber, um dos pioneiros do Big Bang foi inclusive um padre: Georges Lemaître, jesuíta como Francisco. E, quanto à evolução, nunca houve condenação formal. Pelo contrário: Pio XII, na Humani Generis, disse não haver incompatibilidade com o Catolicismo, e tanto São João Paulo II quanto Bento XVI (especialmente quando ainda era cardeal) fizeram referências favoráveis à evolução, especialmente no famoso discurso de 1996.

Mesmo não sendo novidade, é ótimo ver um papa, ainda mais alguém tão querido e popular quanto Francisco, reforçando essa compatibilidade entre ciência e fé. Isso pode desarmar aqueles católicos que ainda têm restrições de cunho religioso, especialmente no que diz respeito à evolução.

(Atualizado em 31/10, às 12h30: o link do discurso, que originalmente remetia à versão em italiano, agora direciona para a tradução oficial do Vaticano em português. Por isso, os trechos em itálico também foram alterados; antes eram uma tradução minha, agora são a versão oficial em nosso idioma)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 27/10/14 11:55:25 AM

Ótima notícia, especialmente para os leitores que estão no meio acadêmico: depois do projeto Ciência e Religião na América Latina, promovido pelo Centro Ian Ramsey para Ciência e Religião, da Universidade de Oxford, agora a instituição conseguiu um novo financiamento para outro projeto de três anos. “Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina” tem um aporte financeiro da Fundação John Templeton e será tocado basicamente pela mesma turma do projeto anterior.

Vista da cidade de Oxford

A Universidade de Oxford renova seu interesse na pesquisa sobre ciência e fé na América Latina. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Ciência e Religião na América Latina envolveu a organização de congressos e concursos de monografias, além de um questionário para se entender o estado atual da pesquisa sobre o tema na região (e que rendeu um relatório interessantíssimo). Ciência, Filosofia e Teologia na América Latina me parece ter um foco ainda mais acadêmico. Partindo de três grandes temas (a origem e o conceito da vida; cérebro, mente e a pessoa humana; o lugar da pessoa no cosmos), o projeto consiste basicamente no financiamento de projetos de pesquisa e em bolsas para um intercâmbio de especialistas: professores e pós-graduandos latino-americanos indo para outras regiões do mundo, e gente de fora vindo lecionar ou dar conferências na América Latina. Mas também está contemplada a tradução para o português e o espanhol de algumas obras-chave sobre o assunto, bem como a criação de recursos audiovisuais para o público geral.

Ignacio Silva e Fern Elsdon-Baker

O argentino Ignacio Silva (na foto, em conversa com Fern Elsdon-Baker durante o workshop final do projeto Ciência e Religião na América Latina, em 2013) é um dos coordenadores do novo programa do Centro Ian Ramsey. (Foto: Juan Ignacio Guerra)

Se você tem interesse em alguma dessas bolsas ou projetos de pesquisa, não perca tempo e clique aqui para saber quais são as oportunidades disponíveis, os requisitos e toda a burocracia de inscrição. Por enquanto o site só tem a versão em inglês, mas em breve haverá tradução para português e espanhol.

(Aviso: A Fundação John Templeton e o Centro Ian Ramsey bancaram a viagem e a hospedagem do blogueiro para um workshop em Oxford, em 2013.)

——

Você pode seguir o Tubo de Ensaio no Twitter e curtir o blog no Facebook!

Páginas12345... 56»
Este é um espaço público de debate de idéias. A Gazeta do Povo não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
Publicidade
Publicidade
Publicidade
«

Onde e quando quiser

Tenha a Gazeta do Povo a sua disposição com o Plano Completo de assinatura.

Nele, você recebe o jornal em casa, tem acesso a todo conteúdo do site no computador, no smartphone e faz o download das edições da Gazeta no tablet. Tudo por apenas R$ 69,30 por mês no plano anual.

SAIBA MAIS

Passaporte para o digital

Só o assinante Gazeta do Povo Digital tem acesso exclusivo ao conteúdo do site, sem nenhum custo adicional ou limite.

Navegue com seu celular ou baixe todas as edições no tablet - um novo jeito de ler jornal onde você estiver.

CLIQUE E FAÇA PARTE DESSE NOVO MUNDO

»
publicidade