O presidente eleito Jair Bolsonaro tenta atender todas as forças políticas que vão sustentar o seu governo.| Foto: Evaristo Sá/AFP

A escolha de 14 ministros feita até agora pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) mostra que seu governo será dividido entre cinco grandes grupos de poder. Há o núcleo familiar, constituído pelos filhos de Bolsonaro; o “latifúndio” econômico comandado pelo futuro ministro da Economia, Paulo Guedes; os militares, claro; o “feudo” da Lava Jato na Justiça e Segurança dirigido por Sergio Moro; e o grupo mais pulverizado de todos: o dos políticos.

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A divisão de força entre os núcleos, ao menos por enquanto, está equilibrada. Os políticos têm quatro ministérios. Os militares, também quatro. Já o grupo familiar foi responsável pela indicação de nomes para duas pastas. Moro e Guedes ficaram apenas com suas próprias pastas – mas elas foram “turbinadas” por Bolsonaro e ambos têm caneta para indicar nomes para uma série de cargos com enorme importância para o país. 

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Um ministério, o da Transparência, orbita entre dois núcleos: o de Moro e o militar, pois ambos referendaram a escolha. Há ainda um ministro – André Luiz de Almeida Mendonça, da Advocacia-Geral da União – cuja afiliação a algum dos cinco núcleos de poder não está clara.

Nos próximos dias, Bolsonaro irá concluir a formação de seu primeiro escalão. Até seis novos ministros podem sair (mas nem mesmo esse número é certo, pois algumas pastas podem ser extintas). Mesmo assim, ficará clara a correlação de poder entre os grupos que mandam no futuro governo.

Confira qual é, até o momento, a esfera de poder de cada núcleo.

1) Núcleo familiar

Os três filhos de Jair Bolsonaro – o deputado federal reeleito Eduardo (PSL-SP), o senador eleito Flávio (PSL-RJ) e o vereador carioca Carlos (PSL) – mantêm forte influência sobre o pai. Embora os três sejam parlamentares, eles constituem um grupo à parte do núcleo político, com poder próprio.

Pelo menos dois ministros do futuro governo são indicações do núcleo familiar, especialmente de Eduardo Bolsonaro: o diplomata Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e o filósofo Ricardo Vélez Rodríguez (Educação). Eduardo é admirador do filósofo Olavo de Carvalho, que havia sugerido os dois nomes.

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O núcleo familiar, contudo, já perdeu ao menos uma batalha na formação do futuro governo. Bolsonaro chegou a admitir publicamente que cogitava indicar Carlos para a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que passaria a ter status ministerial (o que permitiria que a súmula antinepotismo do STF não fosse descumprida, pois ministros podem ser parentes do presidente, ao contrário dos demais cargos de indicação política). 

Carlos seria o porta-voz do pai e o responsável por administrar a verba de publicidade do governo. Mas houve resistências políticas à indicação. Carlos anunciou na quinta-feira (22) que não vai assumir o cargo, que estava deixando a equipe de transição, que retomaria o mandato na Câmara do Rio e que deixará de cuidar das redes sociais do pai.

Da esquerda para direita: Carlos, Flávio, Jair Bolsonaro e Eduardo. 

O vereador carioca havia sido o responsável pela bem-sucedida estratégia eleitoral online do então candidato do PSL à Presidência. Carlos pretendia continuar na função. Mas Bolsonaro vinha sendo pressionado a escolher um profissional da área de comunicação para cuidar da imagem do governo. 

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Nos bastidores, a especulação é de que a desistência do filho do presidente eleito teria sido motivada por desavenças dele com Gustavo Bebianno (PSL), futuro ministro da Secretaria-Geral da Presidência e um dos líderes do núcleo político.

Outro possível motivo de atrito do clã Bolsonaro com o grupo político de sustentação do futuro governo é a eleição para a presidência da Câmara Federal. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) não descarta a possibilidade de ser o candidato do governo. Mas vários outros partidos cobiçam o posto.

2) Núcleo político

O núcleo político do governo Bolsonaro é o que tem o poder mais pulverizado e que demonstra ser menos coeso. Duas lideranças se destacam: o deputado e futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS); e o ex-presidente do PSL e futuro titular da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno

Mas há outros grupos políticos com influência sobre Bolsonaro e que já demonstraram isso ao indicar e vetar nomes para o Ministério, como as bancadas ruralista, da saúde e evangélica na Câmara. 

Além da Casa Civil e da Secretaria-Geral, os políticos até agora ficaram com outros dois ministérios: Agricultura (a ministra será a deputada Tereza Cristina, do DEM-MS) e Saúde (o deputado Luiz Henrique Mandetta, também do DEM-MS). Tereza Cristina é uma indicação da bancada ruralista e Mandetta, da bancada da saúde.

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Já a bancada evangélica demonstrou influência sobre Bolsonaro ao vetar o nome de Mozart Neves Ramos para o Ministério da Educação (MEC). Diretor do Instituto Ayrton Senna, Mozart caiu em desgraça por não apoiar abertamente o projeto Escola Sem Partido e por não ter declarado ser contrário às discussões de gênero nas escolas, duas causas caras ao segmento religioso. O escolhido para o MEC acabou sendo o filósofo Ricardo Vélez Rodríguez – uma indicação do núcleo familiar que, contudo, teve a anuência dos evangélicos.

No xadrez de formação do governo, o núcleo político também está de olho no Ministério da Infraestrutura (pasta cheia de dinheiro que, em princípio, deve ficar com o grupo militar) e nas Minas e Energia (que também pode ficar com os militares). 

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É maior a possibilidade de que um político venha a ocupar o ainda não confirmado Ministério da Família (que também pode vir a se chamar Ministério da Cidadania). O favorito é o senador evangélico não reeleito Magno Malta (PR-ES). O núcleo também tende a ficar com um esvaziado Ministério das Cidades, que perderia atribuições para a Infraestrutura. O deputado Celso Russomano (PRB-SP) é o principal nome cotado para a pasta.

Já o Ministério do Meio Ambiente, que quase foi incorporado à pasta da Agricultura, possivelmente ficará com um quadro técnico. Mas ele terá de ter a concordância da bancada ruralista. O favorito para ocupar a vaga é Evaristo de Miranda, diretor da Embrapa.

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As negociações envolvendo as eleições para presidência da Câmara e do Senado e as indicações dos líderes do governo no Congresso também deixarão mais claro, nos próximos meses, que outros grupos políticos e partidos terão peso na gestão de Bolsonaro.

3) Núcleo militar

Capitão da reserva, Jair Bolsonaro terá o governo com maior presença de integrantes das Forças Armadas no primeiro escalão desde a redemocratização do país, em 1985. Além de ocupar a vice-presidência, com o general Hamilton Mourão, os militares vão comandar pelo menos quatro ministérios: o Gabinete da Segurança Institucional (general Augusto Heleno), a Defesa (general Fernando Azevedo e Silva), a Secretaria de Governo (general Carlos Alberto dos Santos Cruz) e Ciência e Tecnologia (o astronauta Marcos Pontes, que é tenente-coronel reformado da Aeronáutica).

Também tende a ficar com o núcleo militar o futuro Ministério da Infraestrutura – que vai agregar o atual Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil e atribuições do Ministério das Cidades. O favorito para ocupar a pasta é o general da reserva Joaquim Maia Brandão Júnior, cuja última função na ativa foi exatamente no Departamento de Engenharia e Comunicações do Exército, onde trabalhou por mais de cinco anos, primeiro como vice-chefe e depois como chefe. 

Dentro do grupo militar, o general Heleno é quem tem a maior influência sobre Bolsonaro. É um de seus principais conselheiros.

Já o general Mourão, embora tenha interlocução com Bolsonaro, tem sido uma fonte potencial de desgaste para Bolsonaro. Já durante a campanha eleitoral deu declarações polêmicas que abriram brecha para críticas ao então candidato à Presidência (caso da insinuação de que o futuro governo poderia acabar com o 13.° salário, o que foi prontamente negado por Bolsonaro). 

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Agora, Mourão vem tentando assumir atribuições que seriam do futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS) – um dos líderes do núcleo político. O vice, que rotineiramente costuma não ter função a não ser a de substituir o presidente, quer ser uma espécie de supervisor de toda a Esplanada, atribuição que costuma ficar com a Casa Civil. A Onyx caberia apenas a interlocução com o Congresso. O deputado do DEM, contudo, já deu sinais que não quer perder poderes para o núcleo militar.

4) Núcleo econômico

Futuro ministro da Economia, Paulo Guedes ganhou carta branca de Bolsonaro para montar toda a equipe econômica do novo governo. Juntamente com o grupo de Moro, é o que até agora escapou ileso de pressões de integrantes de outros núcleos. 

A “blindagem” dada por Bolsonaro a Guedes se justifica: a economia brasileira ainda está patinando e o presidente eleito quer promover uma guinada liberal e desestatizante no país. A agenda de Guedes possivelmente enfrentará resistência no Congresso e nas ruas. Não seria interessante acrescentar a isso divergências internas na equipe econômica.

As indicações de Guedes para os principais cargos da área econômica mostram claramente sua intenção de imprimir uma agenda liberal no país. Assim como Guedes, pelo menos três nomes da equipe econômica – os futuros presidentes da Petrobras (Roberto Castello Branco), do Banco do Brasil (Rubem Novaes); e do BNDES (Joaquim Levy) – também estudaram na Universidade de Chicago (EUA), a meca mundial do liberalismo econômico. 

O futuro presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, como seu próprio nome diz, é neto do ex-ministro Roberto Campos, conhecido pelas ideias liberais. E o presidente da Caixa Econômica Federal será Pedro Guimarães, economista especializado em privatizações.

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5) Núcleo da Lava Jato

Futuro ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro é outro que até agora foi “blindado” por Bolsonaro de interferências externas para compor sua equipe. A ideia é que o ex-juiz possa implantar com autonomia uma agenda de combate à corrupção e ao crime organizado.

Moro está chamando para a Esplanada pessoas de sua confiança, principalmente integrantes da Operação Lava Jato. O futuro diretor-geral da Polícia Federal será Maurício Valeixo, atual superintendente da PF no Paraná – a principal sede da Lava Jato. Valeixo também é amigo de Moro. 

A delegada da PF Érika Marena, que batizou a Lava Jato, irá assumir o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI) do Ministério da Justiça. Rosalvo Franco Ferreira, ex-superintendente da PF no Paraná durante a maior parte da Lava Jato, foi indicado para a chefia da Secretaria de Operações Policiais Integradas. Também há possibilidade de que seja chamado pelo ex-juiz para sua equipe ministerial o delegado Márcio Adriano Anselmo, outro que integrou a Lava Jato.

A manutenção no governo Bolsonaro do atual ministro da Transparência e Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner de Campos Rosário, também contou com a anuência de Sergio Moro. Inicialmente, a ideia é que a CGU fosse incorporada ao Ministério da Justiça. Mas, num segundo momento, a avaliação foi de que Moro teria muitas atribuições e seria melhor manter a CGU como uma estrutura autônoma. 

Além da concordância de Moro, Rosário também contou com o apoio do núcleo militar do governo – ele cursou a Academia Militar das Agulhas Negras (RJ).

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Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

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