Saio da Gazeta do Povo, mas ela não sairá de mim tão cedo

No dia 20 de maio de 2001, um domingo, eu iniciava minha jornada na Gazeta do Povo como colunista social, função que exercera por curto período em outros jornais de Curitiba. Quase 18 anos depois (dezessete anos e sete meses para ser mais exato), chegou a hora da despedida. Assim como na chegada, o sentimento agora é parecido. O que dizer? Assumir um espaço nobre e tradicional no maior e mais influente jornal do Paraná, antes ocupado pelo papa do colunismo paranaense, Dino Almeida, deu um certo frio na barriga. Sentia como se todos os olhos da cidade estivessem voltados para mim. Alguns enviesados, inclusive de colegas, devo admitir. Como nunca temi desafios, encarei a missão e fui em frente. E não é que fui longe olhando agora pelo retrovisor do tempo? Logo nos primeiros dias ouvi do então diretor comercial, Rogério Florenzano: “Prepare-se, porque a partir de agora você não terá mais vida própria. Será convidado para tudo, almoços, jantares, casamentos, festas, viagens. Sua vida vai mudar”. Acertou em cheio. Mas, confesso que foi tudo muito bom. Tive o prazer e o privilégio de fazer parte da história da Gazeta do Povo, de viver o seu auge, de conviver com o Dr. Francisco Cunha Pereira Filho, de saudosa memória, que dava à minha coluna a mesma importância que dispensava às outras páginas. Não raro, recebia ligações dele para uma troca de ideias. Convivi com figuras históricas da Redação como Arnaldo Cruz, Francisco Camargo (Pancho), Nelson Souza Filho, Celso Nascimento e a impagável Rosy de Sá Cardoso, ativa até os 90 anos. Com Luiz Tavares, o inesquecível Tatá, chefe da equipe de paginadores, que conhecia os recônditos do velho prédio da Rua Pedro Ivo e da Praça Carlos Gomes como ninguém e de quem ouvi boas histórias dos velhos tempos da Gazeta. Sofri bullyings carinhosos quando, às sextas-feiras (dia do famoso pescoção), fazíamos uma vaquinha para o lanche, composto por pão, mortadela e refrigerante, e diziam que eu só comeria se fosse caviar e tivesse champanhe. Aliás, são incontáveis as sextas-feiras em que saí dela de madrugada, após fechar as colunas do fim de semana. Foram 5.743 edições diárias até 31 de maio de 2017, quando a Gazeta do Povo circulou pela última vez como jornal impresso. Vivi a transição para o digital, parente distante e pouco conhecido que a gente sabia que um dia chegaria de mala e cuia para ficar. Saio com a famosa sensação do dever cumprido. Sei que não agradei em tempo integral e nem a todos. Agradeço aos que me deram a honra de ser meus leitores, mesmo aos críticos deste ofício meio incompreendido. Sempre fui daqueles que entre o amigo e a notícia ficam com esta. Felizmente nunca perdi nenhum dos dois.

Agora parto para outros desafios no universo digital, onde continuarei escrevendo e falando sobre sociedade e outros assuntos e tentando dar furos, o que se torna cada vez mais raro porque todo indivíduo hoje é uma mídia em potencial. Agradeço à Gazeta do Povo por esses felizes quase 18 anos durante os quais – exceto no último ano e meio – compareci à Redação todo santo dia, inclusive aos domingos, para produzir a coluna impressa. Rotina só quebrada quando o jornal passou a ser 100% digital. Mesmo assim continuei a dar expediente diário na nova sede para redigir notas para o blog e fechar a edição semanal, como estou fazendo exatamente agora, dia 26 de dezembro, às 18h22min, ao concluir a última coluna. Saio da Gazeta do Povo, mas ela não sairá de mim tão cedo. Obrigado a todos. Nos vemos em 2019 nas redes sociais.

 

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